
Volume 1 - Capítulo 25
A Virtude do Demônio
Logo, a criança levou tudo para a parte de trás da carruagem, e os dois sentaram-se juntos no assento da frente, depois da criança ser forçada a prender os dois cavalos na carruagem. Por enquanto, o Diabrete queria observar como a criança moveria a caixa grande, pois ele só viu isso à distância até agora. E se descobrisse como usar essa coisa sozinho, a necessidade de manter a criança diminuiria, afinal, o Diabrete não tinha motivo para confiar nessa criança, já que ela apenas se movia em resposta ao medo da adaga apontada em sua direção.
Mesmo assim, a criança parecia surpreendentemente calma depois de um tempo, muito mais rapidamente do que o Diabrete esperava, e ele não gostou nada disso. Mas, novamente, o Diabrete precisava dela por enquanto, então não queria matá-la ainda.
Antes que o Diabrete percebesse, a carruagem começou a avançar em resposta ao movimento dos cavalos. A criança estava dizendo algumas coisas para os cavalos, o que deixou Diabrete bastante irritado. Ele não gostou do fato da criança conseguir entender o que os cavalos falavam e ele não, afinal, ele era muito mais inteligente que essa criança!
Bem, embora fosse isso que o Diabrete pensava, ele tinha outras coisas em que se concentrar agora. Por exemplo, que estava se sentindo muito, muito estranho com os movimentos bruscos da carruagem, mesmo que não estivesse se movendo tão rápido assim.
Pouco tempo depois, a carruagem começou a se mover muito mais rápido e, nesse momento, Diabrete mal conseguia segurar sua comida. Ele não podia mostrar uma fraqueza assim para a criança! Então Diabrete aguentou firme, e mesmo que esperasse obter uma daquelas ‘habilidades’ maravilhosas que pareciam permitir que o Diabrete fizesse as coisas muito melhor do que normalmente faria, ele tinha certeza de que poderia resistir mesmo sem isso!
Ele era um Diabrete forte, não precisava de coisas assim! Ele era o mais esperto e melhor existente. Obviamente um Diabrete desse nível resistiria facilmente a um pouco de enjoo. Pelo menos era isso que o Diabrete acreditava.
[A Habilidade Resistência à Enjoo Iniciante foi aprendida]
Com uma expressão feliz, o Diabrete mostrou um pequeno sorriso, feliz por perceber que finalmente conseguiu começar a sentir menos vontade de pular da carruagem, mas a existência da notificação por si só irritou o Diabrete, então ele, claro, a picotou com sua adaga.
Isso assustou um pouco a criança, mas imediatamente depois a criança apenas suspirou e balançou a cabeça antes de olhar para frente.
Um pouco irritado porque essa criança não parecia o temer tanto quanto ele queria, o Diabrete cerrou os dentes com raiva. — Eu forte.
Ele falou, e antes que percebesse, a criança acenou com a cabeça em resposta.
— Claro que você é. — Ele disse baixinho, e o Diabrete sorriu satisfeito por esse fato parecer tão óbvio para a criança.
— Eu inteligente. — O Diabrete acrescentou em seguida, e mais uma vez, a criança assentiu imediatamente.
— Claro que você é. — A criança respondeu, então o Diabrete cruzou os braços alegremente e continuou.
— Eu assustador. — Ele falou apontando a adaga, e como se já tivesse sido gravado em sua mente, a criança assentiu como se fosse a coisa mais natural do mundo.
—Claro que você é. — Ela concordou suspirando.
Feliz pela hierarquia ter sido devidamente estabelecida, o Diabrete passou para outra coisa com a qual queria lidar de alguma forma. Tinha duas coisas nas quais estava curioso, para ser exato.
Primeiro, uma marca estranha surgiu em seu peito. Quando exatamente apareceu? Surgiu junto algo no seu status que não estava quando verificou na noite passada, se chamava ‘Bênção da Náiade Solitária’. O Diabrete não sabia o que era uma Náiade, mas quando lia a palavra ‘Bênção’ sentia algo estranho com seu corpo, como se estivesse a rejeitando com toda a sua existência.
Então, por instinto, Diabrete apenas deixou para lá. Ele poderia lidar com isso em algum momento depois, afinal, não parecia que essa marca iria desaparecer tão cedo.
A segunda coisa, era a aparição das duas habilidades em seu status. ‘Magia de Ar’ e ‘Magia de Água’. Aparentemente, ele respirando com muita força estava relacionado à magia. O Diabrete de alguma forma descobriu que tinha a ver com o calor no centro de seu corpo em vez de ser apenas expirar, mas não importa o que fizesse, a única situação em que era capaz de fazer alguma coisa com aquele calor era enquanto fazia aquela pequena prática. E sempre que fazia isso, ficava muito cansado, então não era algo que o Diabrete gostasse de fazer com frequência.
Ele ainda não conseguiu descobrir como usar essa ‘Magia de Água’. Em primeiro lugar, ele provavelmente precisava encontrar uma maneira de usar esse calor de outras maneiras, certo? Então foi isso que Diabrete fez, ou melhor, tentou fazer.
Por enquanto, o Diabrete fez a mesma coisa de antes ao expirar com força, só que queria fazer algo diferente. Em vez de soprar com força pela boca, queria fazer pelo nariz! Se pudesse fazer isso e alternar entre a boca e o nariz, então essa seria toda a prova que o Diabrete precisava para mostrar que tinha a ver com o calor! E então, depois disso, o Diabrete iria… Pensar no próximo passo!
Primeiro, o Diabrete lentamente tentou reunir um pouco de ar em seu corpo novamente, e depois procurou pelo calor, tentando tirar de seu corpo o ar. E agora, em vez de expirar pela boca, o Diabrete tentou expirar pelo nariz. Isso era tão simples quanto… respirar!
Pelo menos, foi o que o Diabrete pensou, nas suas três tentativas… Sempre que tentava fazer isso, sentia muita pressão no nariz e sua boca abria sozinha para deixar o ar sair. Um pouco parecia sair pelo nariz, mas a maioria saía pela boca.
O Diabrete estava se sentindo cansado demais para continuar depois disso, e a criança ao lado dele parecia um pouco animada. Seu rosto ficou levemente vermelho e ele tentava esconder sua expressão do Diabrete, mas era bastante óbvio que estava… Rindo.
Era normal rir numa situação como essa? Ao ter uma adaga apontada para você? Após ver as pessoas que cuidaram de você até agora completamente despedaçadas, com suas existências erradicadas, até que não passassem de carne empilhada… Alguém ainda seria capaz de rir?
Até o Diabrete ainda se sentia estranho com o que aconteceu com Avalin. Claro, houve muitos momentos em que sentiu raiva dela, e ainda tinha um pouco de ódio, mas no final escolheu tentar salvá-la, não foi? O Diabrete conseguia se lembrar de uma vez em que estava brigando com seus irmãos, ou melhor, o próprio Diabrete estava no chão sendo espancado e tentando acertar pelo menos um único golpe, o que no final falhou miseravelmente, e seus irmãos por serem mais fortes escolheram jogá-lo em direção a um dos monstros selvagens para que pudessem atacar e matar o monstro pelas costas.
Ele não ficou ferido, porque o monstro acabou fugindo por algum motivo, então seus irmãos simplesmente voltaram para a Horda.
Era assim que se tratava alguém, certo? Então, por que Avalin tentou ajudá-lo? Isso é algo que o Diabrete ainda não compreendia. Sim, ela queria dar fim no Diabrete também, e o tratou como os outros dois no início. E sim, foi ela quem o capturou em primeiro lugar, mas mesmo depois de tudo isso, morreu tentando salvar o Diabrete. Em vez de usá-lo como isca, ela queria que ele continuasse vivo.
Pelo menos era isso que o Diabrete pensava que havia acontecido, ele poderia até estar enganado, mas por enquanto iria manter essa imagem em mente.
Então, após experimentar essas duas coisas… O que podia ser visto como normal? Mesmo que o Diabrete não se importasse com ‘Normal’, ‘Certo’ ou ‘Errado’, sua curiosidade ainda o vencia. O próprio Diabrete ficava apavorado sempre que era ameaçado por Thomas e James, ou mesmo quando via seus irmãos mortos no chão, até quando estava comendo seus corpos inteiros por sentir… medo e fome.
Então, por que essa criança não agia assim? A forma como viu o fim daquelas três pessoas, incluindo a primeira que o Diabrete matou, não estava muito longe do que aconteceu com os irmãos do Diabrete. Ele estava sendo ameaçado agora por um monstro, que todos pareciam ter medo só de ver.
Essa coisa toda não trouxe apenas curiosidade ao Diabrete, mas também preocupação. Se a criança não tivesse mais medo dele, então poderia tentar lutar com ele mais cedo ou mais tarde. O Diabrete tinha que ter cuidado com isso, muito, muito cuidado.
E ele precisava ficar mais forte para ter certeza de que a criança não conseguiria vencê-lo mesmo que tentasse, e para isso precisava matar ainda mais do que agora.
O Diabrete não estava necessariamente pensando direito no momento devido a quão cansado estava, então foi difícil reunir todas as informações que tinha. Embora, mesmo assim, parecesse uma questão bastante complicada e até mesmo o Diabrete não conseguiu descobrir uma solução adequada.
Mas por enquanto, o Diabrete precisava descansar adequadamente e parar de tentar usar magia, porque se adormecesse, seria uma presa fácil para a criança.
Então, sob as circunstâncias atuais, o Diabrete não podia vacilar e mostrar fraqueza diante de uma chance de morrer. Embora, agora que o Diabrete pensou sobre isso, não viu um único monstro desde que chegou perto da carruagem. Podia ser por causa daquela sensação estranha que o Diabrete percebeu de dentro da carruagem, e agora que pensou nisso, uma das pessoas que o Diabrete matou mencionou algo sobre um ‘Repelente de Monstros’.
Lentamente, o Diabrete virou-se para a criança com a testa franzida, bastante irritado com o fato dela ter sorrido, mesmo que tenha parado de rir, —Repelente de Monstros. — O Diabrete disse, e a criança se virou para ele e confirmou sua dúvida.
— Sim, temos um lá atrás. Será que você está com medo de que outros monstros possam vir te machucar?— A criança perguntou.
O Diabrete não respondeu e optou por firmar o aperto na adaga e colocar a criança em seu devido lugar, enfiando a ponta da adaga em sua perna até que começasse a sangrar.
Mas para surpresa do Diabrete, a criança não deu muita bola. Claro, sua respiração ficou um pouco mais pesada e rápida, e seu sorriso desapareceu de sua boca, mas não afastou a perna e não demorou muito para voltar a sorrir.
— Ah, vamos lá, você precisa mesmo fazer isso? —
…