
Capítulo 84
Retorno da Seita do Monte Hua
“Seu desgraçado! O que você pensa que está fazendo!?”
Ao ver Baek Cheon se aproximando numa velocidade insana, Chung Myung olhou para o céu com uma expressão atordoada.
Haa.
Ah, que vida a minha…
Baek Cheon avançou contra Chung Myung e brandiu sua espada sem hesitação.
Espera… Por que ele também estava com uma espada de verdade?
‘Qual é o problema desses discípulos, sempre puxando espada de verdade? E se desembainharem e algo der errado, quem vai se responsabilizar?’
Enquanto Chung Myung se perdia nesses pensamentos, a espada de Baek Cheon avançava ameaçadoramente. Um qi azulado se formava ao redor dela, mirando no ombro de Chung Myung.
Baek Cheon até fez bem em mirar numa área não vital, apesar do ataque histérico.
Mas…
“Os efeitos colaterais daquele qi de espada vão me matar do mesmo jeito, seu maluco!”
Chung Myung chutou a espada que vinha em sua direção.
Kang!
Um som alto ecoou por toda a área quando a espada, envolta em qi, colidiu com o pé de Chung Myung. Incapaz de suportar o impacto, Baek Cheon foi arremessado para trás.
“Uh?”
Baek Cheon se levantou rapidamente, alternando o olhar entre Chung Myung e sua espada. Seus olhos tremiam em perplexidade. Tudo aconteceu tão rápido que ele não entendeu o que houve.
“Tsc.”
Chung Myung estalou a língua e examinou a condição de Yu Yiseol. Um barulho enorme havia estourado ao lado dela enquanto estava em transe, então seu momento de iluminação…
“Ela está bem?”
Normalmente, esse tipo de comoção faria alguém sair do estado de iluminação, mas Yu Yiseol ainda permanecia imersa em seu transe.
Ela é tapada.
Tapada até demais.
Mas ela estava sendo beneficiada por sua lentidão. Não era comum alguém entrar em transe enquanto treinava com a espada.
No budismo, esse momento é chamado de “desprender-se da casca”, que significa esquecer a si mesmo e romper com a velha casca para atingir um novo estado. Para um guerreiro, é um momento absolutamente crucial.
Se ela tivesse sido despertada, se arrependeria por toda a vida.
“Desgraçado! O que você pensa que está fazendo!? Não sabe o quão importante é a iluminação para um guerreiro?”
E mesmo sabendo disso, ele ainda atacou daquela forma?
Chung Myung arregalou os olhos e encarou Baek Cheon.
Não era de se estranhar que ele estivesse irritado.
“Perturbar alguém em estado de transe! Não importa o quão ignorante você seja, há limites! Seu insolente!”
Baek Cheon encarou Chung Myung com um olhar assassino.
“É verdade que eu não gostava de você, mas não imaginava que fosse um bastardo podre o bastante pra mexer com alguém em transe! Eu deveria ter corrigido seus modos há muito tempo!”
Chung Myung respirou fundo.
‘Não, seu idiota. Eu não a atrapalhei, eu a guiei.’
‘Haha, mas como você saberia disso? A culpa é minha. Eu sou o errado aqui.’
Ele entendia, mas ainda assim era irritante.
“Se você sabe o quanto o transe é importante, então por que sacou sua espada e me atacou?”
“O quê?”
“E se sua espada tivesse ido na direção da Sago e ferido ela?”
“Se você não tivesse revidado–!”
“Então eu deveria simplesmente morrer?”
“…”
Quando Chung Myung respondeu secamente, Baek Cheon ficou atordoado.
‘Todos os discípulos da linhagem Baek são malucos?’
O mundo costuma ser dominado por pessoas comuns, com alguns lunáticos espalhados. Mas parecia que os discípulos da linhagem Baek tinham invertido essa regra e se afogaram em gente maluca.
De todos os discípulos Baek com quem Chung Myung conversou, ele ainda não havia encontrado sequer um normal.
Se Yoon Jong estivesse ali, diria que era o sujo falando do mal lavado, mas ele não estava lá pra reclamar.
“Você tá dizendo que eu tentei te matar?”
“Não parecia que queria me manter vivo.”
“… Era uma situação urgente.”
“E você ainda usou uma espada de verdade.”
“… E-Eu…”
O rosto de Baek Cheon, ao ouvir os argumentos de Chung Myung, se contorceu.
Espera aí.
Como Chung Myung disse, Baek Cheon usou espada de qi numa lâmina real. Então, como ele conseguiu sair ileso?
Como ele conseguiu repelir um golpe poderoso de Baek Cheon sem nenhum arranhão?
“Afaste-se da Samae!”
O rosto de Baek Cheon endureceu, e ele falou com determinação:
“Não vou perguntar o que você estava fazendo. Mas abaixe sua espada e se afaste dela. Caso contrário, terá que lidar comigo como guerreiro, não como seu Sasuk.”
Oh, isso até que soa bem.
Chung Myung ficou animado.
“Sério?”
“…”
Ótimo. Era isso que Chung Myung queria.
“Seu desgraçado, até o fim…”
Baek Cheon rangeu os dentes.
O ser humano é do tipo que precisa ajustar seu pensamento conforme a situação.
É importante ver as coisas pela perspectiva do outro. Dessa forma, é fácil entender por que Baek Cheon estava tão furioso. Do ponto de vista dele, algo inaceitável estava acontecendo.
Normalmente, o certo era interromper aquele comportamento.
O problema era…
Chung Myung lambeu os lábios e virou a cabeça.
‘Se eu ajudar só mais um pouco, parece que algo incrível vai acontecer.’
Yu Yiseol estava agora em um estado de iluminação que talvez só aconteça uma vez na vida. Pode parecer estranho, mas a iluminação costuma surgir de repente, sem aviso.
Enquanto alguns passam a vida inteira em meditação rigorosa sem alcançar nem uma única iluminação, outros a alcançam até mesmo durante uma refeição. Não é algo que se consiga com esforço ou por querer que aconteça.
Depende da vontade dos céus.
E o maior milagre que aconteceu com Yu Yiseol não foi apenas entrar em transe. Foi o fato de Chung Myung estar ao lado dela quando isso aconteceu.
Basicamente, quem entra em transe esquece de si mesmo e do mundo ao redor, focando apenas em usar sua espada. Nesse processo, desenvolve sua própria espada, ou dá o próximo passo em sua técnica, e às vezes atinge um novo reino.
Por isso, ninguém deveria interferir. Um acidente sério podia acontecer se quem se aproximasse não entendesse como lidar com isso.
Mas quem era Chung Myung?
Um artista marcial extraordinário, que compreendia todas as técnicas de espada da Seita do Monte Hua e alcançou patamares jamais atingidos por outros.
Embora seu corpo atual não consiga manifestar todo o seu poder, é difícil encontrar alguém na história do Monte Hua com um entendimento tão profundo das técnicas da seita quanto ele.
Então, ele podia intervir no transe de Yu Yiseol e guiá-la para um nível ainda maior…
‘Por que esse desgraçado tinha que aparecer?!’
Guiar alguém já é difícil, ainda mais na frente dos outros. Se algo desse errado, viraria um problema enorme.
Chung Myung olhou para Yu Yiseol.
‘Fazer o que? É a sua sorte.’
Apesar de ser uma pena não poder ajudar alguém que talvez liderasse o Monte Hua, Chung Myung não se apegava a um barco que já havia partido. Não adiantava chorar pelo leite derramado.
‘Mas espancar quem arruinou essa oportunidade… Isso é outra história.’
Chung Myung deu alguns passos para longe de Yu Yiseol e encarou Baek Cheon.
“Assim tá bom?”
“Mais.”
“Tsc.”
Deu mais alguns passos para longe de Yu Yiseol.
“Satisfeito?”
“… Você está brincando comigo? Saia daqui. Não pretendo deixar você machucar a Samae.”
“Quem tá causando dano aqui é você.”
“É assim que você fala com seu Sasuk!?”
Chung Myung olhou para o céu sem palavras depois da resposta de Baek Cheon.
‘Por que esses jovens são tão obcecados com formalidades?’
Yu Yiseol era assim, agora Baek Cheon também.
Se Confúcio voltasse à vida, faria questão de aceitá-los imediatamente como discípulos.
“Sim, Sasuk. O problema aqui é o Sasuk.”
Baek Cheon olhou friamente para Chung Myung.
“Tentei entender a razão da sua arrogância.”
E qual foi o resultado?
Assim que Chung Myung chega, fala besteira, causa confusão, transforma tudo num espetáculo e ainda age como se fosse um mestre… Ah, no fim das contas, o problema aqui também começou por causa dele, não é?
“Mas minha paciência tem limite, e há pessoas no mundo que não entendem palavras.”
“Uau…“
Baek Cheon franziu a testa diante da exclamação de Chung Myung.
“O que você quer dizer?”
“Nada, nada. Só estou impressionado.”
“O quê?”
“Você não entenderia mesmo que eu explicasse.”
Como, depois de cem anos, ele está ouvindo exatamente as mesmas frases que seus Sahyungs costumavam dizer?
– Não adianta tentar falar com ele.
– Melhor recitar o Dao para uma vaca ou uma galinha do que para esse idiota.
– Se não sabe lutar, que fique calado.
Os humanos são tão parecidos.
Ou então, Chung Myung não mudou nada em cem anos.
Enquanto ele ria com nostalgia, Baek Cheon falou com firmeza:
“Levante sua espada. Hoje vou te ensinar o que é ter modos.”
“Tem certeza?”
“Seu insolente!”
“Não, não! Não é isso… É que, sabe, agir só com base no temperamento…”
Chung Myung falou com um tom brincalhão, fazendo Baek Cheon franzir a testa.
“O que você quer dizer?”
“Não, é que eu estava preocupado. Se vazasse a notícia de que o Sasuk lutou com seu Sajil, isso poderia manchar sua reputação.”
Baek Cheon riu com desdém.
“Depois de tudo isso, agora quer apelar pra esse tipo de desculpa? Está enganado se acha que seus Sahyungs ou os anciãos vão te proteger. Talvez no futuro, mas neste momento, não há ninguém que possa te salvar. Quanto à minha punição, aceitarei depois.”
“Ohh, fazia tempo que eu não ouvia um discurso tão viril.”
Chung Myung assentiu com a cabeça.
“Mas eu tenho uma ideia melhor, quer ouvir?”
“… O que você está tramando?”
“Nada demais. Vamos apenas jurar uma coisa. Que nenhum de nós vai contar a ninguém o que acontecer aqui esta noite.”
“O quê?”
Chung Myung sorriu.
“Estou dizendo que, mesmo que eu apanhe, não vou contar nada pros anciãos ou pra qualquer outra pessoa. E o mesmo vale pra você: se perder, não pode correr e contar pra ninguém. Entendeu o que estou dizendo?”
Baek Cheon olhou para Chung Myung.
‘O que ele está tramando?’
Baek Cheon, após analisar a expressão de Chung Myung, falou com seriedade:
“Parece que está tentando escapar dessa situação, mas acha mesmo que vou cair num truque desses? Você–”
“Não, não é isso.”
Chung Myung suspirou, frustrado.
“Estou dizendo pra deixarmos de lado esse negócio de Sasuk, Sajil, seita e tudo o mais, e resolvermos isso de forma limpa. Sem ressentimentos depois. Não é melhor assim pra ambos?”
“…”
“Se fizermos esse juramento, aconteça o que acontecer, não vamos apelar para nossos superiores. Se eu quebrar minha palavra, pode me pedir qualquer coisa. O mesmo vale para o Sasuk. O que acha?”
Baek Cheon exibiu um leve sorriso.
“Tudo bem, parece que você tem um lado bem viril também. Se é isso que quer, então eu juro. Não vou contar a ninguém o que acontecer aqui.”
Do ponto de vista de Baek Cheon, não havia motivo para recusar aquela proposta.
A parte mais difícil de espancar Chung Myung seria lidar com os discípulos Un ou os anciãos. Não era óbvio que todos o protegiam? Então, se vazasse que Baek Cheon o atacou, isso só traria um mar de problemas.
Mas agora o próprio Chung Myung queria manter o assunto em segredo? Não havia motivos para recusar.
Ainda assim… Ele não conseguia ignorar uma estranha sensação no fundo do peito.
“Então está jurado.”
“Sim. E você fará o mesmo?”
“Sim. Eu também juro.”
“Então está resolvido, sem ressentimentos depois.”
Baek Cheon ergueu sua espada reluzente e apontou para Chung Myung.
“Eu admito que você é bem corajoso. Nesta luta, eu não sou seu Sasuk, nem você é meu Sajil. Vou usar esta luta para acertar todas as animosidades que carrego de você. E você também…”
“Luta?”
Naquele momento, uma voz sombria saiu da boca de Chung Myung.
Baek Cheon olhou para ele, confuso.
‘Huh?’
Foi então que percebeu.
Chung Myung estava sorrindo – mas, diferente de antes, era um sorriso perverso que distorcia suas feições em algo assustador.
“Lutar? Agora você está ferrado, seu desgraçado.”
Chung Myung bufou pelas narinas e avançou em direção a Baek Cheon.