Retorno da Seita do Monte Hua

Capítulo 117

Retorno da Seita do Monte Hua

Chung Myung subiu até o Pico do Lótus e olhou para o céu. 

Agora já não havia mais necessidade de esconder seu treinamento, mas subir ali acalmava sua mente, provavelmente porque esse treino já havia se tornado um hábito. 

Depois de permanecer olhando o céu por muito tempo, Chung Myung virou a cabeça e contemplou o Monte Hua. 

“Hmmm.” 

Ele havia superado a primeira montanha. 

Mas ainda não estava satisfeito. 

“Ainda temos um longo caminho pela frente.” 

Embora entendesse que a impaciência gera erros, ele secretamente começava a se sentir impaciente. 

O desenvolvimento dos discípulos de terceira classe não era lento. Se continuassem naquele ritmo, um dia se tornariam guerreiros que ninguém ousaria ignorar no mundo. 

Mas isso ainda estava em um futuro distante. 

No momento, o Monte Hua não passava de uma seita fraca. 

“Então é isso que significa liderar.” 

Chung Myung sentia um peso tremendo sobre os ombros. Agora, os discípulos instintivamente viriam procurá-lo sempre que algo acontecesse. Isso também havia ocorrido inúmeras vezes no passado, mas havia uma diferença clara entre a forma como seus sahyungs o viam antes e como os sahyungs atuais o viam agora. 

“O sahyung também deve ter tido momentos difíceis.” 

Não era difícil empurrar as costas de um líder para frente. No entanto, mesmo apoiado, era preciso coragem extrema para assumir a dianteira. 

No passado, Chung Myung acreditava estar liderando o Monte Hua. 

A figura mais conhecida do Monte Hua era o Santo da Espada da Flor de Ameixeira, e foi sua presença que garantiu a supremacia do Monte Hua. 

Mas será que Chung Myung realmente liderava a seita? 

‘Não.’ 

Seu peito doeu levemente. 

Naquele tempo, se tivesse entendido o que entendia agora, talvez o destino do Monte Hua teria sido diferente. Talvez não apenas os descendentes da seita, mas também seus sahyungs poderiam ter sido salvos. 

Apesar de saberem que marchavam para a morte, todos seguiram em frente calmamente, com um sorriso. 

“Pensamentos inúteis.” 

Chung Myung balançou a cabeça. 

O passado já estava decidido. O que importava agora não era se apegar a ele, mas viver o presente usando o passado como guia para construir um futuro melhor. 

E para fazer isso… 

“Mais do que tudo, eu preciso ficar mais forte.” 

Esse era o único caminho para não perder tudo de novo, como no passado. 

Chung Myung sabia. 

O mundo das artes marciais é implacável. 

Acordos? Claro, existem. Lealdade? Também. Mas essas coisas não passam de privilégios que os fortes concedem aos fracos. Quem não possui força não tem a oportunidade de decidir os termos de um acordo, muito menos o direito de falar em lealdade. 

Os discípulos do Monte Hua provavelmente acreditavam já ter experimentado a crueldade e a indiferença do mundo. Eles podiam pensar que o Monte Hua já havia sofrido tudo o que havia para sofrer em seu declínio. 

Mas isso não é verdade. 

Cedo ou tarde, aprenderiam. Eles tinham sido protegidos por esse imponente Monte Hua e pelos feitos realizados pelos antigos da seita. 

Mas tudo aquilo chegaria ao fim. 

O Monte Hua voltaria a se expor ao mundo. Quando isso acontecesse, eles enfrentariam crueldades que nunca tinham visto antes. 

‘Não tenho a intenção de carrega-los no colo e ficar os protegendo o tempo todo.’ 

Chung Myung precisava criar um lugar em que pudessem confiar e se apoiar, fosse no Monte Hua ou nele próprio. 

Sentando-se de pernas cruzadas, fechou os olhos e inspecionou sua base. 

Ele podia ver. 

Seu dantian havia crescido até o tamanho de uma pequena fruta. Comparado ao seu dantian anterior, era como uma gota no oceano. 

Mas estava crescendo. 

De maneira lenta, porém consistente. Passo a passo. 

As artes marciais do Monte Hua eram metódicas. 

Um estilo honesto, que permitia alcançar o cume avançando firmemente, superando cada montanha com os próprios pés. 

Não havia atalhos. Apenas dar um passo após o outro, sem parar. 

‘Eu vou ficar mais forte.’ 

Cresceria não como o antigo Santo da Espada da Flor de Ameixeira, mas como o Chung Myung do presente. 

Ele ficará mais e mais forte. 

‘E um dia, superarei “ele”, o Demônio Celestial.’ 

Uma jornada interminável em direção à perfeição marcial. 

Chung Myung ergueu lentamente a cabeça e olhou para cima. 

– Nossas flores de ameixeira já floresceram? 

Os cantos da boca de Chung Myung se curvaram levemente. 

“Ainda não.” 

Mas… 

“Um dia, elas florescerão.” 

Um dia, quando as flores de ameixeira realmente florescessem na espada de Chung Myung, não apenas o Monte Hua, mas todo o mundo seria tomado pelo seu perfume. 

Chung Myung se levantou de um salto. 

“Não se preocupe, sahyung.” 

Chung Myung sorriu. 

“Afinal, eu sou o Chung Myung.” 

Foi uma declaração sutil, como se fosse uma promessa para si mesmo. 

Chung Myung desceu lentamente a montanha. 

“Hmm?” 

Enquanto descia, ele sentiu o aroma de ameixeira trazido de algum lugar e sorriu levemente. 

“É primavera.” 

As flores de ameixeira estavam florescendo. 

Com o aroma de ameixeira acariciando suas narinas, Chung Myung continuou sua descida com passos leves. Sua silhueta refletia a figura de alguém que continuaria silenciosamente a cuidar do Monte Hua. 

O tempo seguiu fluindo sem cessar, e o Monte Hua, que havia abraçado Chung Myung, começava a trilhar um novo caminho. 

As flores floresciam de novo, e mais uma vez. 

As flores de ameixeira floresceram duas vezes e murcharam. 

Os anos fluíram como água em um riacho. 

𓆩❀𓆪 𓆩❀𓆪 𓆩❀𓆪 𓆩❀𓆪 𓆩❀𓆪 𓆩❀𓆪 

Vilarejo de Hua-Um, Shaanxi. 

Alguém carregando sua bagagem entrou no vilarejo movimentado. 

“… Aqui é Hua-Um?” 

Era um homem. 

Não, sua aparência lembrava mais a de um garoto do que a de um homem. Ele olhou ao redor com uma expressão um tanto atônita. 

“Este é o lugar certo?” 

O que via parecia tão diferente das memórias que possuía. 

O Hua-Um que conhecera no passado era um lugar pequeno, algo entre um vilarejo e uma cidade. Não era subdesenvolvido e tinha uma história próspera, mas não havia nada de notável e até parecia meio sombrio. 

Agora, porém, não era diferente de uma cidade movimentada. 

Claro, não se comparava às grandes cidades em escala. Mas a palavra “vilarejo” parecia sem sentido diante das novas construções alinhadas nas ruas principais e das lojas lotadas de clientes. 

‘Será que vim para o lugar errado?’ 

Então, ele perguntou a um transeunte: 

“Com licença? Aqui é Hua-Um?” 

“É sua primeira vez aqui?” 

“Não. Não é minha primeira vez. Estive aqui uma vez, uns dez anos atrás, eu acho. Porém, parece tão diferente de antes.” 

A pessoa que respondeu arqueou as sobrancelhas com um ar de superioridade: 

“Se faz dez anos que não vem, então faz sentido estar confuso. Até quem volta depois de um ou dois anos fica chocado.” 

“Ah… Então este é realmente Hua-Um.” 

“Sim, é estranho já que mudou tanto, mas este é o mesmo Hua-Um que você conhecia.” 

“Obrigado. Mas… Por que o vilarejo mudou tanto?” 

“Por quê? Tudo graças ao Monte Hua.” 

“Huh?” 

“Você não conhece o Monte Hua? O Monte Hua? A Seita do Monte Hua?” 

“Ah, não. Eu conheço. Claro que conheço o Monte Hua.” 

O homem, Wei Soheng, assentiu rapidamente. 

Se você dissesse aos habitantes de Hua-Um que não conhecia o Monte Hua, eles não o tratariam como um ser humano. Para eles, o Monte Hua era mais que uma seita. 

Era seu orgulho e confiança, sua família. 

“Aliás, eu vim para visitar o Monte Hua.” 

“Oh? É mesmo? Então é um convidado. Venha, se tiver alguma pergunta pode me fazer, eu respondo.” 

O rosto do homem de meia idade iluminou-se assim que ouviu que ele estava visitando o Monte Hua. 

“O que quis dizer quando falou que Hua-Um mudou por causa do Monte Hua?” 

“Exatamente o que disse. Hoje em dia, a influência do Monte Hua alcança os céus! Não ouviu que sua reputação está se espalhando por toda parte?” 

‘Não. Pelo que sei, sendo eu de fora, não é tanto assim…’ 

Mas ele não conseguiu se forçar a dizer aquilo ao homem à sua frente. Seu olhar parecia dizer que se ele menosprezasse o Monte Hua mesmo que um pouco, ele explodiria em fúria. 

“C-Certo.” 

“Ultimamente, cada vez mais pessoas vêm visitar o Monte Hua. E como passam por Hua-Um, veja só, o vilarejo está lotado, não está?” 

“Sim.” 

“Onde há gente, há dinheiro. Então, naturalmente, o lugar mudou.” 

“… É uma mudança e tanto.” 

Hahaha. Tudo graças ao Monte Hua. Você deve saber também, não é? Na conferência contra a Zhongnan, dois anos atrás, o Monte Hua esmagou aqueles bastardos.” 

“Eu sei.” 

Essa era uma história que agora todo o mundo conhecia. 

O Monte Hua, antes considerado caído – não, até mesmo esquecido – de repente interrompeu a ascensão da Seita Zhongnan, que vinha ganhando força nos últimos anos. Com uma seita tão renomada sendo humilhada, a notícia naturalmente se espalhou como relâmpago pelo mundo. 

Os humanos adoram as desgraças alheias. Sendo um caso de vergonha sobre uma seita famosa, não havia motivo para não se falar sobre isso. 

A notícia viajou rápido, correndo milhares de quilômetros, e todos discutiam sobre o que acontecera com a Seita Zhongnan. Agora até crianças nas ruas conheciam a história. 

Havia quem chamasse de Conferência do Dragão Caído, porque a Seita Zhongnan, que ascendia aos céus, foi derrubada. 

“A Seita Zhongnan. Veja bem, não qualquer seita, mas a Seita Zhongnan. Você imagina quão alto a reputação do Monte Hua subiu depois daquele incidente? Não consigo nem estimar quantas pessoas vieram ao Monte Hua desde então.” 

“Entendo.” 

Wei Soheng assentiu. 

Ninguém entendia aquelas palavras melhor do que ele. Afinal, estava ali justamente por causa da mudança de status do Monte Hua. 

Se os rumores daquela conferência não tivessem se espalhado, Wei Soheng jamais teria cogitado vir até ali. 

“Mas há uma coisa um pouco decepcionante.” 

“Huh?” 

O transeunte fez uma expressão levemente aborrecida. 

“Já se passaram dois anos desde então. Algo precisa acontecer agora.” 

“Ahh…” 

“Bem, um gigante não se move tão facilmente. Não existe aquela lenda da Daepung que descansou mil anos antes de voar milhares de quilômetros com um único bater de asas? Talvez o nosso Monte Hua seja assim também.”

 

Era uma afirmação que carregava um enorme orgulho pelo Monte Hua. 

Ao ver aquilo, Wei Soheng pensou que muita coisa havia mudado. 

Não era apenas a aparência que havia mudado. 

Quando visitara este lugar no passado, parecia desprovido de vitalidade. Mas agora, o povo de Hua-Um estava vibrante e cheio de vida. 

“Se pretende visitar o Monte Hua, arrume um lugar para passar a noite. O sol logo vai se pôr e, se começar a subir agora, terá de escalar no meio da noite. É melhor começar a jornada amanhã de manhã.” 

“Sim. Obrigado pelo conselho.” 

“Claro.” 

O ancião acenou com a mão e se afastou, enquanto Wei Soheng murmurava: 

‘Mudou tanto.’ 

O vilarejo prosperara apenas porque a seita havia conquistado um pouco de fama. Ele começava a entender por que todos, fossem pessoas ou seitas, estavam dispostos a arriscar a vida pela fama. 

Wei Soheng ergueu a cabeça e olhou para o Monte Hua. 

Ao observar o vilarejo transformado, algo se tornou claro: o Monte Hua atual era diferente do Monte Hua que ele conhecia. 

Então… 

‘Preciso conseguir a cooperação do Monte Hua, não importa o que aconteça.’ 

Wei Soheng encarou o Monte Hua com olhos determinados. 

– O Monte Hua certamente nos ajudará. Vá até lá e peça ajuda. 

‘Espero que o julgamento do meu pai esteja correto.’ 

Wei Soheng mordeu o lábio e rapidamente seguiu para dentro do vilarejo. 

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