
Volume 1 - Capítulo 39
Dominação do Abismo
Quando Soran terminou de embalar os pertences, a senhora misteriosa já estava retornando para a carruagem dela. Soran olhou para a senhora misteriosa, então se ajoelhou e perguntou:
— Vivian, o que ela te disse?
— Ela só perguntou a minha idade e se eu sei ler, está tudo bem, eu não disse a ela sobre a minha magia. — Vivian respondeu, de forma sincera.
Soran ficou aliviado após ouvir isso. Por Vivian ainda ser muito jovem, não era bom deixar os outros saberem que ela era uma feiticeira, ele não tinha nada contra a senhora da esquadra mercante, mas isso não significava que ele devia confiar completamente nela. Todos os magos e bruxos eram companheiros estranhos e anormais, o ressentimento entre ladinos e magos remontavam desde o passado, além disso, nenhum mago ou bruxo nativo eram pessoas simples. Todos eles tinham origens ou circunstâncias complicadas.
De qualquer forma, a esquadra mercante continuou viajando em direção à cidade Caminho Branco depois de todos estarem prontos.
Talvez pela curta conversa com a senhora, Vivian repentinamente teve vontade de aprender novas palavras. Soran pensava o mesmo, já era hora dela aprender o idioma comum usado nesse mundo, tirando os dragões, que conseguiam aprender todo tipo de conhecimento, inclusive idiomas, feiticeiros só conseguiam descobrir novos feitiços. Vivian conhecia cerca de 100 palavras até agora, mas como ela era uma garota esperta, ela poderia aprender novas palavras muito mais rápido do que Soran.
O problema era que Vivian preferia fazer coisas que gostava, após aprender novas palavras por um tempo, ela começou a bocejar sem parar.
Diferente de ontem, a esquadra mercante estava viajando mais lentamente hoje.
Vivian não parecia estar tão interessada em aprender novos vocabulários, no fim das contas, e ficou sonolenta após Soran a ensinar algumas dezenas de novas palavras. Ela resmungou um pouco, disse para Soran para continuarem depois, então começou a brincar com um dos brinquedos dado a ela por um dos mercadores. Em um único dia, Vivian conseguiu o carinho de quase, senão todos, os membros da esquadra mercante e recebeu alguns presentes e brinquedos.
Os mercantes deram uma variedade de coisas para ela brincar, enquanto a misteriosa senhora deu algo que não parecia ser para a idade dela: um baralho de tarô com desenhos delicados. Vivian gostou dele mesmo assim, visto que ela gostava de designs belos.
Dessa forma, metade do dia se passou. A esquadra encontrou grupos de gnolls e goblins no caminho, mas nenhum deles ousou atacar, pois havia muitas pessoas fortemente armadas na esquadra. Foi apenas quando outra comoção surgiu que a esquadra finalmente parou. Esperando ganhar mais Experiência de Abate, Soran caminhou em direção aos guardas da frente, mas ficou desapontado.
A esquadra mercante encontrou uma pessoa: um aventureiro solitário que vagava pela selva, sozinho.
Ele era um homem de meia-idade com roupas normais, tinha olhos castanhos, cabelo curto e uma feição quadrada. O aventureiro solitário estava com uma camisa simples feita de pano cinza, os braços envoltos em bandagens e equipado com cintas militares em suas pernas. Seu equipamento dizia que ele provavelmente estava praticando um estilo de combate especial ou técnicas como Grito de Guerra, uma habilidade que era similar ao Rugido do Leão do estilo de arte marcial Shaolin. Essa habilidade causava danos nos inimigos através das ondas sonoras advindas do grito de alguém.
Soran viu o homem a distância e notou que os guardas mercantes estavam falando com ele. Três gnolls estavam mortos próximo deles, todos tendo feridas fatais feitas claramente por punhos nus.
— Um mestre dos punhos? — Soran ficou bastante chocado após ver o homem de perto. Soran imediatamente juntou suas mãos e abaixou a cabeça. — O mestre está viajando sozinho?
O homem de meia-idade retornou o gesto respeitoso de Soran do mesmo modo, abaixando sua cabeça humildemente. Percebendo as ações de Soran, os guardas mercantes relaxaram um pouco.
O guarda líder perguntou em voz baixa.
— Quem é esse cara? Nossos homens o testemunharam derrotando os três gnolls com as mãos nuas, enquanto o resto dos gnolls fugiam.
Soran acenou e explicou.
— Ele deve ser um mestre dos punhos e um monge asceta. Essas pessoas tendem a viajar sozinhas para treinarem seus corpos e mentes.
Após entender o que o homem era, o guarda líder se sentiu menos tenso, pois os monges ascetas não eram pessoas más.
Mestre dos punhos era uma das classes avançadas de monges. Essas pessoas perseguiam o caminho do abandono completo do uso de armas e utilizavam seus corpos como arma de combate. A poderosa habilidade Soco de Uma Polegada estava disponível somente para as classes de Mestre de Punhos e Monge Divino.
Monges eram pessoas que normalmente preferiam viajar sozinhas na selva, pois eles queriam fortalecer suas mentes por meio de situações difíceis, além disso, eles podiam sentir o poder espiritual da liberdade, tranquilidade e das origens do mundo quando viajavam sozinhos em condições duras.
Os monges que escolhiam o caminho de um monge asceta também teriam que se submeter ao ritual de doar todas as suas propriedades aos pobres. Eles faziam mais doações do que os próprios ricos e viviam uma vida de pobreza, que fortaleceria sua força de vontade.
Nessa classe, se dependia muito da força de vontade. Monges ascetas eram imunes a maioria dos encantamentos e magias de efeitos mentais, além de terem uma força de vontade excelente, pois tinham desistido de todos os desejos materiais.
Poucos escolhiam perseguir o caminho de um monge asceta, que faziam um juramento sagrado, mas caso o quebrassem, sofriam uma reação severa. Se isso acontecesse, a força de combate deles cairia significativamente, além da força de vontade ser severamente danificada.
10% dos monges escolheriam o caminho do asceta, além disso, apenas 10% dos ascetas conseguiam avançar para a classe de Monge Asceta de fato. Se o monge descartasse todos seus itens e dinheiro, eles poderiam se tornar um mestre dos punhos e aprender grandes habilidades de todas as artes marciais, como o lendário Soco de Uma Polegada!
Sem precisar de qualquer arma ou equipamento de proteção, eles lutavam com seus punhos e instintos. Eles também tinham uma defesa mágica extremamente alta, sem mencionar suas aptidões muito únicas e habilidades que poderiam interferir diretamente com a energia elemental do mundo. Essas aptidões foram obtidas por vivenciarem situações infernais, apenas sobrevivendo com sua força de vontade.
Muitos ascetas desistiam na metade do caminho e se tornavam monges ordinários. Nem todos conseguiam suportar as tentações do mundo. Assim que desistiam, era muito improvável que eles fizessem outra tentativa.
Sendo assim, agora havia um membro adicional viajando junto a esquadra mercante. O monge era uma pessoa calada e nunca iniciava uma conversa. Não era nada fora do comum, pois muitos ascetas pretendiam ficar mudos e não falavam por anos.
Ao meio-dia, o monge pediu comida para a esquadra mercante e todos que passavam lhe provinham alguma coisa, no entanto, ele rejeitou carne e comeu apenas um pouco de pão preto e duro. Não era que ele não pudesse comer carne, mas ascetas tendiam comer as refeições mais básicas durante sua jornada para treinar, a menos que estivessem em circunstâncias especiais.
A jornada deles de cultivação poderia durar alguns anos, e a força deles aumentaria consideravelmente todas às vezes que eles completassem uma jornada. Muitos jogadores tentaram fazer o mesmo, mas eles simplesmente não conseguiam aguentar esse processo de punição, saindo para caçar monstros em busca de experiência para subir de nível.
Monges não eram raros no mundo. Seus métodos de cultivação foram aceitos por muitos atualmente, e alguns até fundiram esse estilo com o de santos da espada e criaram uma classe: Mestre das Armas.
A única diferença entre os dois era que os monges abandonaram as armas e afiavam seus corpos, enquanto os mestres das armas focavam em usar armas, como dito no nome, e alcançaram maestria nelas. Todos eles eram fortes em força de vontade, e até os sacerdotes imitaram seus métodos de cultivação e reforçarem sua fé.
O monge era uma pessoa bastante discreta e não falou com ninguém pelo caminho. Ele andou silenciosamente junto da esquadra mercante, rejeitando as ofertas de montar a cavalo ou viajar sentado em uma carroça. Apesar disso, ele mantinha o próprio passo e não ficava cansado, devido a sua excepcional estamina.
Quando a esquadra mercante parava durante a noite ou à tarde, ele não pedia uma tenda e não acendia uma fogueira, tudo que ele fazia era sentar-se de pernas cruzadas e se mantinha assim.
O segundo dia da jornada passou pacificamente, além de encontrar o mestre de punhos, nada de interessante aconteceu.
Quando Soran acordou no próximo dia, o monge ainda estava sentado como uma rocha. Alguns guardas mercantes estavam calados enquanto apontavam para o monge, mostrando expressões de surpresa, mesmo que eles tivessem passado pelo duro treinamento para serem guerreiros, o treinamento deles não foi tão extremo quanto esse. Apenas o guarda líder podia simpatizar com o monge, pois ele fez algo similar para virar um bárbaro do norte, onde tinha que se encharcar em água gelada para suprimir o poder selvagem e desenvolver a habilidade Fúria, e esse treinamento sempre o deixava meio morto.
Como ele não se moveu nem um pouco durante a noite, o monge estava coberto de orvalho e havia gelo em seus cílios e sobrancelhas. As pessoas finalmente entenderam o porquê de Soran ter um grande respeito pelo monge, isso era obviamente algo que apenas pessoas muito fortes poderiam fazer.
Monges comuns eram muito similares a guerreiros, a diferença era que ascetas levavam as coisas ao extremo e treinavam especialmente duro, forçando o potencial latente deles a emergir através das dificuldades.
Para referência, uma lorde demônio, conhecida como Rainha das Succubus, residia no Abismo. Muitas deidades não conseguiram resistir aos encantos mágicos dela, mas um Monge Lendário poderia só assoprar isso para longe, como poeira. Só para ilustrar o quão forte era a força de vontade deles.
O mestre dos punhos se separou da esquadra mercante ao meio-dia daquele dia. Como a esquadra se aproximava de uma pequena vila, significava que eles já estavam próximos do Caminho Branco e em aproximadamente dois dias alcançariam seu destino. Durante a jornada, ascetas evitavam cruzar locais lotados ou muito povoados e preferiam vagar pela selva, pois para eles as ações humanas eram vazias.
O monge planejava ir para as quedas gigantescas, ao noroeste, e cultivar sua força por um ano. O objetivo dele era despertar a habilidade Corpo do Vazio e buscar o gatilho e a oportunidade de se tornar um Monge Lendário, aprendendo a habilidade que todos os monges almejavam: perfeição.
Ele mal conversou com os outros e ninguém sabia seu nome, até mesmo depois que ele partiu. Contudo, por alguma razão, ele deu a Vivian um fino livro.
Não era nada como um livro que concedia a alguém alguma habilidade de arte marcial secreta, nada disso existia nesse mundo, em primeiro lugar. O livro que ele deu a Vivian tinha o título Proficiência em Mãos Nuas e Aprendendo o Soco de Uma Polegada. Similar ao Técnicas de Cortes Avançados e Buscando por Fraquezas de guerreiros, Fortalecendo e Usando Feitiços de Invocações de Forma Flexível de magos, Efeitos da Fé nas Magias Divinas de sacerdotes e A Poderosa Esperança da Fé de paladinos, esse era um livro que registrava as experiências do autor. Após seguir o método de treinamento mencionado nesse tipo de livro, alguém poderia obter aptidões adicionais.
Por exemplo, um ladino poderia melhorar a aptidão ‘destravar’ após ler o livro ‘Técnicas Especiais de Destravar Fechaduras’ e poderia até aprender a aptidão ‘Mestre em Fechaduras’, caso tivesse sorte.
O livro que o monge deu para Vivian registrava o método de treinamento que permitiria a alguém ganhar a aptidão e proficiência em Combate com mãos nuas, se ele seguisse os requisitos do treinamento. Caso progredisse ao próximo estágio do livro, a pessoa poderia se tornar um monge e até tentar aprender a habilidade Soco de Uma Polegada.
Contudo, como Soran poderia deixar Vivian virar uma monja? O treinamento era simplesmente muito duro, então, ele pegou imediatamente o livro e o colocou na bolsa multidimensional.
Vivian tinha o talento para ser uma feiticeira, então ela teria que virar uma feiticeira e viver confortavelmente, sem se importar em virar uma monja. Soran ficaria extremamente preocupado caso Vivian ficasse sozinha na selva, e o mais importante, ele não conseguiria deixar Vivian sofrer tanto sem necessidade.
…