O Devorador

Capítulo 184

O Devorador

Montis sentou-se com sua habitual postura estoica enquanto participava de outro evento político. Com o Império em paz e o resto do mundo afogado em conflitos, manter a unidade do Império Averloniano era uma prioridade. Por isso, os frequentes eventos sociais na capital permitiam que todos os diversos grupos dentro do Império se misturassem e interagissem. A distância gera desconfiança, as diferenças geram desconfiança, por isso esses eventos aconteceram.

Esses eventos celebram as diferenças entre as várias raças. Montis desviou o olhar do prato de volta para a apresentação no amplo espaço em frente à sua mesa. Este evento era um jantar com todos os membros da alta sociedade. Não era o típico evento interclasses para o qual uma ampla gama de cidadãos era convidada. Este era um evento para os líderes que detinham o verdadeiro poder no Império.

As mesas estavam dispostas em um padrão circular, todas voltadas para o círculo interno. Lá, os artistas eram obrigados a se apresentar, cada grupo exibia a beleza de suas respectivas culturas. Até uma delegação da Floresta Élfica comparecera, e pelo canto do olho ele podia vê-los observando com interesse. Os Elfos podem ser velhos, mas a separação e a queda dos Primogênitos eram ainda mais antigas. Os Elfos quase perderam sua própria língua antiga devido aos estragos do tempo, por exemplo, seu antigo nome era conhecido como Alvs, não Elfos.

No momento, um grupo de Mugummans estava realizando o que era conhecido como Dança da Água. As mulheres Mugummans giravam em belos arcos, suas longas mangas translúcidas esvoaçando como água. Era uma dança linda, que Montis adimiraria facilmente. Olhando para a Imperatriz, ele percebeu que ela também estava gostando muito.

“Parece que a Imperatriz está se divertindo.” Ordias disse à sua direita.

“Parece que sim, não é tão surpreendente, a Dança da Fênix Elísia tem muitas semelhanças”, respondeu Montis.

“Engraçado como uma dança de água e uma dança de fogo podem ter semelhanças.” Ordias afirmou com um sorriso de canto.

“Fogo e Água são mais parecidos do que você imagina. Ambos fluem elegantemente, só não exatamente da mesma forma.” Montis comentou, e Ordias assentiu em resposta.

“De fato, sempre há uma bela simetria neste mundo.” Ordias respondeu, sua idade transparecendo um pouco.

“Nunca pensei que você fosse do tipo que se deixa levar pela poesia.” Montis disse como uma pequena provocação.

“Ah, sabia, Grande General, que se pode tirar muitas coisas da arte e cultura do inimigo?” Ordias respondeu, e isso fez Montis hesitar. Pessoalmente, Montis sempre foi do tipo que examina transcrições jurídicas, livros de história e registros antigos de batalhas passadas. A arte nunca realmente o interessou, mas, por outro lado, Montis era mais próximo de um bebê em idade do que de Ordias. Então talvez ele simplesmente tenha escolhido o caminho mais eficiente para a excelência, ou pelo menos para a excelência relativa.

Montis ainda perdia frequentemente em partidas de estratégia contra seu colega mais próximo, Ordias Derenge. Ainda assim, alguém que valorizava a ordem tanto quanto Ordias gostar de arte era um contraste estranho por si só.

“Conte-me.” Montis disse, sempre ansioso para sondar a mente de um general tão experiente quanto Ordias. Afinal, sua reputação o precede, e ele não precisa de apresentação. Só seu nome inspirava visões de manobras magistrais, armadilhas astutas e cercos implacáveis. Ele só perdeu devido à força bruta que os Antigos podiam usar.

Você não conseguiria manobrar uma colmeia escavadora.

Você não podia prender um inimigo que tinha controle absoluto do ar.

Acima de tudo, não se podia cercar um Primogênito, o que era apenas oferecer um buffet, não uma demonstração de excelência estratégica.

“O que é arte, para mim, são as esperanças da cultura, suas ambições, os princípios que seguem e, acima de tudo, os ideais que muitas vezes não conseguem cumprir. Quando você sabe o que eles aspiram ser, sabe como vão agir.

Por exemplo, para o seu próprio povo, os Volerianos amam disciplina e cavalaria. Você adora guerra de manobra, despreza as lentas guerras estáticas de desgaste vencidas através de uma parede de escudos. Então, o que eu faço? Eu armo uma armadilha, e ofereço a carga perfeita contra nossa linha de trás, que está minada com bombas mágicas.

Ou talvez eu invada seu acampamento e encha sua água com estimulantes. Não nada para te deixar menos consciente, só algo para te deixar mais entusiasmado. Seus comandantes se sentirão mais confiantes ao ver o alto moral dos seus soldados. Então uso apenas ataques de sondagem, sondo e então recuo. Faço isso repetidas vezes. Eventualmente, em algum momento, sua formação bem ordenada cede quando um comandante de sangue quente ordena uma daquelas investidas que você tanto ama ou talvez você exagere um pouco além do esperado, deixando vocês em aberto.

Todos vocês amam o valor do combate, só preciso tentar ou negar a vocês. Tentação e frustração são ferramentas úteis para um exército tão rígido quanto o seu.” Ordias respondeu, e Montis assentiu compreensivo. O exército de Tralis foi perdido devido à sede de honra, glória e ao desejo pela própria Imperatriz.

Todo mundo sabe como isso terminou, considerando onde o próprio Montis estava sentado no momento.

“Então o que você sabe sobre os Mugummans?” Montis perguntou enquanto uma donzela Mugumman particularmente bonita passava por ele. Seus longos cílios batiam em sua direção enquanto ela girava em um gracioso turbilhão de membros e tecidos.

“Não muito, infelizmente. Os Mugummans sempre foram reclusos por natureza. Seu antigo mestre, O Moldador das Profundezas, era um dos Primogênitos mais reclusos, pelo menos é o que ouvi. Não sou velho o suficiente para conhecer completamente a Era dos Primogênitos em primeira mão, mas conheço os rumores.” Ordias disse enquanto tomava um gole de sangue do copo.

“E quais são esses boatos?” Montis perguntou curioso. Ao ouvir isso, Ordias segurou o queixo como se ponderasse em que ordem dizer.

“Bem, suponho que o mais interessante seja a origem compartilhada dos Naga e dos Mugummans.” Ordias disse.

“Origens compartilhadas?” Montis perguntou, a confusão colorindo sua voz.

“Sim, você conhece o Crowfather? Um aliado e confidente do Blade e, acima de tudo, uma dos amigos mais queridas do velho javali.” Perguntou Ordias.

“Eu cresci com essas lendas, mas quanto delas são exageradas, me pergunto?” Montis refletiu.

“Duvido que os exageros façam justiça a ele. Ainda sinto a mão do Blade ao redor do meu pescoço.” Ordias respondeu enquanto tocava suavemente seu pescoço.

“O Crowfather é um Ravenborn, não?” Montis insistiu.

“De fato, uma raça antiga e morta, a maioria pensaria que os Mugummans são seus descendentes. Especialmente considerando que ambos têm uma natureza aviária. Mas como os Ravenborn se tornaram os Mugummans?” Perguntou Ordias.

“Devolução{acho que aqui ele quis dizer algo como a Entropia Genética, que seria uma degradação do genoma, ou seja estão evoluindo só que de forma “atrofiada” por assim dizer, um bom exemplo é os serafins e os querubins}.” Montis respondeu.

“Quase, mas não muito, resumindo, eles fizeram um acordo com O Moldador das Profundezas. Os Ravenborn estavam morrendo, a única forma de sobreviver era melhorar a taxa de reprodução, mas tenho certeza de que você sabe o que acontece quando a população cai demais.” Ordias disse.

“Consanguinidade.” Montis afirmou.

“Exatamente, então os Ravenborn fizeram um acordo. Eles negociaram suas almas pelo futuro de seu povo. O Moldador das Profundezas era um habilidoso artesão da carne, não o melhor, é claro. Esse título pertence à Mãe Eterna. Mas O Moldador das Profundezas era definitivamente um dos melhores.

Então O Moldador das Profundezas queria sujeitos de teste e novos servos. Assim, o acordo foi feito: metade dos Ravenborn se tornaria serva e a outra metade seria livre e segura.” Ordias disse e Montis estreitou os olhos diante dessas palavras.

“Livre? Mas os Mugummans e os Naga servem ambos à grande serpente Serchax.” Montis afirmou.

“Ninguém disse que O Moldador das Profundezas jogaria limpo…” Ordias respondeu com uma risada.

“Os Primogênitos não são de confiança com nenhum acordo ou negociação Negociar com os deuses antigos é por sua conta e risco…”

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“Então você quer negociar?” Perguntei enquanto olhava para o chamado chefe de guerra à minha frente. Ele, como a maioria dos demônios da ira, tinha pele vermelho sangue e chifres pretos curvados. Honestamente, ele não parecia grande coisa. Ele só parecia um demônio um pouco mais forte, acho que era um pouco maior, mas de qualquer forma, qualquer um do meu grupo poderia esmagar ele no chão.

Até Rose, a conjuradora, provavelmente poderia parti-lo ao meio como se estivesse quebrando um graveto. Os demônios simplesmente não eram tão impressionantes quanto eu pensava. Ou talvez eu simplesmente tenha ficado forte demais… por outro lado, eu venho bebendo da Fonte Primordial como se fosse um copo de vinho gigante. Sim, não era exatamente puro. O suco primordial da felicidade já foi processado, mas o vinho também, então está funcionando muito bem.

Olhei para o grupo próximo de cadáveres queimados, que eram os azarados que tentaram me atacar. Eu não fiz nada com eles, Azatharine só interveio, e agora só havia estátuas de carvão em forma de demônio.

Desviei meu olhar para Rose, que estava sugando o sangue de um demônio se debatendo tão rápido que parecia que estava inalando. Mahaila apenas a encarava cansada enquanto transformava um demônio de corpo inteiro em um cadáver em segundos.

Quanto a Serchax… Ela estava apenas parada calmamente ao meu lado, claramente desinteressada em tudo ao redor. Talvez os demônios da ira simplesmente não fossem o tipo dela?

Falando em Demônios, tinha um gremlin de dois metros de altura aqui.

“E o que você poderia ter a oferecer. Eu poderia simplesmente matar todos vocês e seguir em frente.” Afirmei, e senti o lampejo óbvio de medo percorrer seu corpo.

“Você vai precisar de um guia, e eu sou um Chefe de Guerra, minhas palavras têm peso. Então tenho esta proposta: vou te servir, e em troca você me concede seu favor.” disse o demônio, e eu não pude deixar de soltar uma risada de nojo.

Esse exalava covardia.

“Aqui, eu pensei que os Demônios da Ira fossem guerreiros naturais. Vim aqui esperando um Chefe de Guerra, e o que encontro? Um covarde.” Rosnei enquanto me inclinava sobre ele, mostrando todas as presas longas que tinha.

“Somos guerreiros, mas vivemos para a luta, e lutamos apenas por nós mesmos. Só um tolo morre por uma causa maior.” respondeu o demônio.

“Palavras grandes para alguém que exala medo, se eu atacasse, tudo que você faria seria fugir.” Eu disse, e vi seus sinais vitais dispararem como se tivesse sido pego numa mentira.

“Um guerreiro luta.” mentiu o demônio prestes a morrer.

“Isso poderia ter sido muito mais convincente.” Respondi com um rosnado.

Ah, tanto faz.

“Mate-os.” Ordenei, e imediatamente o resto da minha colmeia saiu do chão e começou a massacrar os demônios.

Honestamente, até agora o Inferno tem sido bastante decepcionante. Apesar de toda a conversa sobre príncipes demônios, as coisas eram bem entediantes…

Aviso, ameaça significativa se aproximando Prepare-se para o combate Bem, isso é novo, fazia tempo que não ouvia essa voz na minha cabeça. Senti um arrepio percorrer minha espinha. Instantaneamente, acionei minha isca e me afastei rapidamente. O que atingiu minha isca foi tão forte que criou uma onda de choque poderosa o bastante para me jogar para trás.

Meu olhar instantaneamente se fixou no alvo e vi que ele tinha mais poder que Mahaila. Mas eu percebia que esse não tinha o talento bruto e a habilidade de combate que Mahaila possuía. Seu movimento, embora ensaiado, carece da eficiência e da leveza instintiva que Mahaila poderia manter.

Esse humanoide tinha uma cabeça embaraçada de cabelos castanhos desgrenhados que pareciam quase lã. Pelo que se passa pelos chifres curvos e ardentes na cabeça dele e pelos pés fendidos, eu suponho que fosse algum tipo de espécie humanoide parecida com um bode.

“Tobias.” Mahaila disse cautelosamente ao se colocar na minha frente, a atitude um pouco despreocupada que tinha antes havia sumido. Agora o que estava diante de mim era Mahaila, a Veloz, a Draconiana cuja reputação causava medo em seus inimigos.

“Ei, garota.” disse aquele chamado Tobias enquanto carregava aquele grande machado gigante no ombro. Escaneei o metal negro e notei algo. Era feita do mesmo material que uma espada e machado específicos da coleção de Mahaila. No machado, uma palavra simples estava gravada.

Bane “O que você quer?” Mahaila perguntou enquanto preparava suas espadas.

“Para ver se isso vale a pena apoiar.” Tobias disse enquanto apontava a lâmina para mim.

“Você está falando sério? Você vai lutar com ele agora?” Mahaila cuspiu de volta.

Enquanto eles conversavam, eu tinha deixado um isca para trás e estava me esgueirando devagar atrás dele. Minha invisibilidade era tão boa que nem mesmo Mahaila conseguia me detectar quando eu realmente queria me esconder. Claro que tive que correr em modo de “baixa emissão de éter” que me deixava mais lento, mas ainda conseguia me esgueirar de forma eficiente.

Sinceramente, eu não tinha interesse em fazer uma batalha dramática com esse cara. Pelo que ouvi nessa pequena discussão, tudo aquilo foi só uma grande fantasia. Esse tal Tobias queria algum tipo de prova boba de que eu valia a pena apoiar. Bem, se você conseguia perceber tudo isso só por um duelo, você era ou algum tipo de vidente estranho baseado em combate ou um idiota. Nesse ponto, eu estava mais inclinado para a segunda opção. Então, embora ele estivesse no caminho do portão, tudo o que eu realmente precisava fazer era tirá-lo do caminho.

“Quer brigar?” Mahaila desafiou.

Antes que Tobias pudesse responder, eu já estava girando no lugar, com a intenção de acertar ele com o rabo. Meu rabo bateu nas costas dele com força total e ele soltou um estalo estrondoso. O golpe o lançou para o céu, bem distante. Ele nem viu isso chegando…

Ocupado demais discutindo por nada.

“Obrigado pela distração.” Eu disse ao ver a expressão atônita no rosto de Mahaila.

“Bem, essa é uma forma de resolver isso.” Azatharine refletiu, apertando os olhos na direção em que eu lancei aquele idiota.

“Ele vai ficar bem… provavelmente…” Respondi dando de ombros. Então senti uma explosão de calor ao meu lado e me virei para olhar o rosto sorridente de Alastor me encarando.

“Bem, isso foi inesperado, eu jurava que você pelo menos tentaria lutar contra ele.” Alastor disse com um sorriso.

“Você vai me pedir para lutar?” Perguntei e vi um momento de incerteza percorrer seus sinais vitais.

“Bem, esse não era o plano.” Alastor disse casualmente.

“O quê, você pensou, que eu ia confiar em você para ter tudo em ordem?” Respondi com um sorriso enquanto me inclinava sobre ele.

“Ah não, eu quero jogar no seguro e se eu tiver que eliminar todo o Limbo para isso, que assim seja. Afinal, ninguém vai sentir falta deles.” Eu disse com um sorriso selvagem.

“Isso vai atrapalhar meu plano.” Alastor começou, mas eu apenas ri.

“Ótimo, quero ver o quão bem você se adapta. Se seu plano der errado no momento em que alguém fizer algo diferente, é um plano ruim.” Disse e Alastor levantou as mãos em rendição.

“Concordo…” Alastor disse, com seu melhor esforço, um sorriso vencedor. Eu percebi que ele queria dizer algo mais, e para o bem dele, era melhor que fosse algo bom.

“Considerando que houve uma mudança de planos…

Você quer um guia?”

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