
Volume 5 - Capítulo 226
Life Hunter
— Quem chamou? — Duas vozes penetraram com força na mente de Arima. Essas vozes eram exatamente as mesmas e foram redigidas de forma idêntica. Os olhos de Arima se estreitaram quando ele sentiu a maior dor de cabeça que já teve. Os três ao seu redor também sofreram o mesmo.
— Que diabos é isso? — Noturno quase caiu no chão enquanto segurava sua cabeça. — Essa deveria ser a voz deles?
Arima grunhiu.
— Não é — ele olhou para as sombras estranhas que saíam dos círculos. Não estava claro, mas não parecia algo orgânico. Na melhor das hipóteses, parecia algo como uma escultura inacabada com buracos por toda parte.
— Eu nem tenho certeza se eles deveriam ter vozes. É apenas um som sintético feito para se comunicar com os seres humanos.
Ele explicou a Noturno e seus olhos brilharam vermelhos quando ele começou a analisar as duas auras. Depois de um momento, as duas figuras que haviam sido convocadas finalmente falaram novamente.
— É você… — O Deus disse e notou o outro ritual destinado ao Diabo. — Como você ousa chamá-lo na minha presença? — O Deus pronunciou e o reino da alma de Arima tremeu. Este último até tossiu sangue, mas seus olhos nunca pararam de olhar para os dois Criadores.
— Você é um seguidor do mal? Devo matá-lo? — A voz de Deus perguntou sem emoção e o outro monstro interveio com sua própria aura.
— Você é tão mesquinho agora que quebraria as regras e mataria um humano? — O Diabo falou e o rosto de Arima fechou ainda mais. Seus olhos já estavam vermelhos. Ele nem precisava olhar para saber que o estado de seus três companheiros também estava piorando. Ele acenou com a mão sem demora e os expulsou do reino de sua alma.
— Esper- — Layla não conseguiu nem dizer algo antes de ser transportada junto com Karma e Noturno.
— Você não tem o direito de falar, Caluniador. Em breve vou te matar também.
— Não me diga que você acha que pode me derrubar, Orador?
As duas criaturas falaram uma com a outra, ignorando totalmente a presença de Arima. Ele ainda os observava silenciosamente, mas seus olhos estavam se fechando.
‘Que se dane… Não serei capaz de acompanhar esse ritmo.’ Arima cerrou os dentes e soltou sua aura.
Os dois Criadores ficaram em silêncio e se concentraram nele novamente.
— Para lutar contra o extremo… você tem que se tornar o extremo você mesmo — ele murmurou e a natureza de sua aura mudou.
***
Malum estremeceu.
— Eu odeio isso — ele murmurou e Shakti, que estava andando na frente dele, se virou. Ela olhou para ele enquanto comia uma maçã com caramelo.
— Qual é o problema?
— Nada — Malum balançou a cabeça e passou por ela. — Eu me sinto tão pequeno. Toda vez, eu tenho medo de um homem que deveria ser meu alter ego virtuoso. Sério, eu não posso nem me chamar de seu ‘eu’ sombrio neste momento. — ele proferiu e Shakti arregalou os olhos em confusão.
***
— O que é você? — Deus perguntou. — Eu não me lembro de criar nada como você. Você até matou meus Guardiões.
— Nem eu. Eu nunca produzi uma coisa tão má — o Diabo seguiu.
Ambos estavam olhando para Arima. Ele tinha matado tudo dentro dele. Seus olhos estavam ainda mais vazios do que quando ele enfrentou Layla. Toda a sua presença passou por uma transformação drástica. Este novo estado permitiu-lhe resistir à terrível pressão das criaturas que ele estava enfrentando.
— Um ser vivo sem emoções; tal coisa é impossível — afirmou Arima com uma voz arrepiante. — Porque isso não é nada além de um monstro — declarou ele e seus olhos projetaram dois pentagramas. — Mas eu posso me tornar um para lutar contra vocês.
— Esses olhos… — O diabo reagiu ligeiramente. — Entendo agora por que você nos convocou. Você está tentando entender o que somos.
Deus ficou em silêncio.
A expressão de Arima mudou gradualmente. Sua compostura sem emoção se transformou em loucura. Seus lábios se curvaram em um sorriso louco e seus olhos se tornaram os de Angra Mainyu. Ele estava mudando de um extremo para outro. Ele olhou para os Criadores com sua íris dupla e os dois pentagramas se dividiram em quatro.
Naquele momento, os Criadores finalmente começaram a se sentir apreensivos.
— Eu só tenho uma coisa a dizer para vocês — disse ele. — Vocês nunca mais conseguirão governar esta existência. Eu vou matar todos aqueles que vocês enviarem. Recolham suas forças e sumam.
— Nós somos seus criadores. Mesmo que você seja uma anomalia que não conseguimos detectar, você é uma simples variável. Se você nos forçar a agir pessoalmente, podemos até apagar o mundo inteiro e começar de novo — respondeu o Diabo.
— Você acha que não pode ser derrotado? — Arima apertou os olhos.
— Não fomos feitos para sermos pisoteados ou derrotados. Angra Mainyu tentou e falhou miseravelmente. Você não terá sucesso. Não podemos ser derrotados por um mortal. Nós nascemos para fazê-los e estamos destinados a fazê-los infinitamente. Você não será capaz de quebrar o ciclo. Eu sou o Orador, ele é o Caluniador. Nós sempre estaremos aqui, você sempre estará vivendo sob nossa vigilância e nunca será capaz de nos alcançar — respondeu o Deus.
— Você também é mortal — Arima zombou e o Deus não respondeu. Arima olhou para os dois pela última vez. — Já consegui o que eu queria. A próxima vez que nos encontrarmos será no dia da sua queda — afirmou ele e quebrou os dois círculos com sua aura. Os Criadores não podiam mais se preocupar em falar e saíram sem dizer mais nada.
Arima ficou parado por alguns minutos e seus olhos voltaram ao normal. Ele tossiu mais sangue e sua expressão também voltou ao normal. Ele limpou o sangue e fez uma careta.
— Isso é mais difícil do que imaginei. Parecia que eu estava interagindo com algo que não deveria existir. Como se eu estivesse enfrentando um paradoxo… — Ele murmurou para si mesmo. — É uma chance que eu consegui resistir matando minhas emoções. Não teria sido possível sem esse legado — ele criou um espelho e olhou para seus próprios olhos. Ele suspirou e tirou os óculos.
Logo depois, alguém apareceu dentro de seu reino da alma e o chutou. Ele não esperava isso e voou por alguns metros. Ele pousou e olhou para cima com um rosto inexpressivo.
— Por que você fez isso? Você poderia ter me esbofeteado ou algo assim… mas um chute? Sério?
— Não me importo! — Layla estufou as bochechas. — A culpa é sua.
Noturno e Karma chegaram em seguida e balançaram a cabeça impotentes. Arima gemeu e se sentou. Ele cruzou as pernas e apoiou o queixo na mão.
— Você descobriu alguma coisa no final? — Noturno veio até ele e sentou-se também. Layla e Karma seguiram.
— Bem, a primeira coisa que aprendi é que eles são fortes demais para serem encontrados — Arima encolheu os ombros. — Eu escutei a voz sintética deles e quase fiquei inconsciente, resistindo ao poder que ela carregava. Bem, eu também estava usando Natus, e eu poderia dizer que sua mente sozinha seria forte o suficiente para matar todos os seres humanos.
— Isso é… assustador — Layla comentou e Arima riu.
— É, mas, em última análise, ainda consegui descobrir o que estava procurando quando chamei os dois. Eu realmente não descobri o que eles eram ou onde eles estavam, mas agora eu sei como posso vencer contra eles — disse ele. — Em primeiro lugar, o que eu estava analisando não eram eles diretamente.
Karma inclinou a cabeça.
— O que era, então?
— A maneira como eles estavam falando comigo — respondeu Arima. — Simplesmente isso. Eu me concentrei em como eles estavam me enviando sua aura, mente e voz através desses círculos. Inicialmente, pensei que era o tipo de formação mágica que conectaria círculos idênticos e permitiria a comunicação entre os detentores, mas eu estava errado — ele desenhou o círculo mágico que havia obtido das memórias dos Guardiões e dos Pilares. — Esses círculos não são nada mais do que faróis. É por isso que não é uma formação complexa. Então, o que eu fiz é bastante óbvio. Segui o caminho percorrido pelas mentes dessas criaturas com Natus e acabei percebendo que elas estavam falando comigo com a ajuda de alguma coisa.
— ‘Alguma coisa’? — Noturno fez uma careta. — Você não sabe o que é?
— Eu não sei — Arima assentiu. — Eu não consegui nem determinar onde estava. Para ser exato, parecia estar em toda parte. Então, cheguei a uma conclusão. Eles estavam falando comigo através do que você poderia chamar de “coração” desta Realidade. Talvez eu esteja certo, talvez não, mas se você assumir que o poder deles vem principalmente das realidades, não é um palpite muito exagerado.
Noturno meditou e Layla ergueu a mão.
— Você pode colocar de volta seus óculos?
Arima olhou para ela com os olhos mortos e tossiu desajeitadamente.
— Desculpe, eu só pensei que realmente combina com você toda vez que você explica algo… — Ela baixou a voz no final. — Então, uma pergunta real desta vez; você disse ‘corações’. Isso significa que você descobriu como usar as realidades para si?
Arima olhou para ela com um rosto inexpressivo e suspirou antes de colocar os óculos. Os olhos de Layla brilharam e ele recomeçou.
— Eu não descobri, mas pelo menos agora eu tenho uma maneira de me ligar a esses corações — disse ele e esfregou o queixo. Na verdade, tenho uma ideia de como ele é usado — ele levantou um dedo. — A maior pista para isso é que os Criadores precisam ter as Realidades sob seu domínio para empregá-las. Embora eles sejam os que deveriam tê-las feito… Isso é estranho, certo? A partir disso, eu posso chegar a algumas teorias. Primeiro de tudo, onde é que esse coração deveria estar? Isso é algo físico ou é apenas uma ideia? Nesse caso, o que precisamos entender é como interagir com ele. Agora, se você adicionar a condição de ter as Realidades conquistadas; eu diria que o fator são as pessoas.
— Pessoas? — Layla ficou perplexa e Noturno fechou os olhos para pensar.
— Então, basicamente, os habitantes da Realidade têm que reconhecê-lo como seu Rei ou algo semelhante? — Ele assumiu e Arima sorriu.
— Exatamente. A chave para controlar os corações das realidades é o que as pessoas pensam. Se todos eles pensarem que eu deveria ser o líder deles, isso me permitirá controlar a essência das Realidades — revelou ele e olhou para Layla. — Por exemplo, Lilis era uma deusa nascida naturalmente das crenças de bilhões de pessoas. Todos esses pensamentos se reuniram em um e criaram uma deusa — disse ele e Layla olhou para si mesma com uma expressão pensativa. Além disso, lembre-se do que Raylein nos disse. Realidades, além das Mães, são criadas quando pessoas suficientes têm pensamentos correspondentes — riu Arima. — É engraçado como os mortais podem ser poderosos quando trabalham juntos, não é?
Ele se levantou e guardou os óculos mais uma vez. Ele olhou para cima e olhou para o oceano acima de sua cabeça.
— De qualquer forma, é hora de criar esse caminho para outras realidades.
— Hã? Você vai fazer isso aqui? — Noturno também se levantou e exclamou.
— Claro — afirmou Arima. Ele abriu as asas e sorriu. — Aquele oceano que você vê lá em cima não é apenas uma decoração. Essa é a parte mais profunda da minha alma. Agora, é hora de mergulhar — disse ele e voou.
…