
Volume 4 - Capítulo 162
Life Hunter
O efeito oculto da Quinta Arte Negra, ‘Graça Final’, leva o conjurador e as mentes do alvo para um mundo espiritual onde o tempo flui consideravelmente mais rápido.
Karaskan olhou para si mesmo e viu que seus ferimentos haviam desaparecido. Seu entorno era uma zona de guerra “mortal”. Não era como um campo de batalha criado por magia. Era uma terra seca que sofreu ataques morteiros e bombardeios.
Cartuchos no chão, fumaça subindo no horizonte, trincheiras e sacos de areia, fogo e cadáveres e um céu estranhamente brilhante. Karaskan observou o cenário, em seguida, olhou para a frente, para o homem se misturando nesta paisagem.
Arima estava sentado lá, em alguns sacos de areia, fumando um charuto. Ele estava em sua forma humana e usava uma versão melhorada de seu casaco. Ele estava olhando para Karaskan com um rosto sem emoção. O deus devolveu seu olhar com um sorriso.
Arima se levantou e caminhou até Karaskan — Primeiro de tudo, deixe-me fazer você entender por que você vai morrer hoje… — Ele falou e deu um soco no estômago de Karaskan. O último tossiu e segurou o lado direito enquanto cambaleava alguns passos para trás.
Ele percebeu com aquele golpe que este mundo era especial. As habilidades físicas dele e de Arima não eram mais fortes do que um humano normal. O soco que ele tomou não foi nada mais do que um golpe feito por um humano para machucar outro.
Ele foi então socado na mandíbula, seguido por um chute nas costelas, um joelho no estômago… Cada vez que ele levava um golpe, fragmentos de memória entravam em sua cabeça e se ancoravam como se fossem as únicas memórias verdadeiras que ele deveria lembrar.
Quando ele caiu no chão depois de um soco final, Karaskan riu e tossiu um pouco de sangue ao mesmo tempo.
— Eu…vejo… — Ele murmurou enquanto cobria os olhos. — Entendi. Isso é realmente doloroso…
Arima bufou e sentou-se novamente. — Já que temos tempo, qual era o propósito de suas Sementes?
Karaskan riu e olhou para Arima com olhos estranhamente serenos. — Sabe, eu amei essa realidade no início.
— Esta realidade, hein? — Arima fez uma careta.
Karaskan riu. — Tenho certeza de que você já ouviu falar desde que passou por um Julgamento de Vida bastante agitado.
Arima ergueu uma sobrancelha e Karaskan sorriu. — O mundo é maior do que podemos imaginar. — Disse ele. — Eu estava lá, com Azes, Chronos, Odin e Gaia no nascimento desta Realidade. Nós estávamos presentes junto com os outros deuses dos diferentes planos e os Guardiões. Eu era um deus comum naquela época.
O Deus Louco disse com um sorriso imperturbável. — Eu não me tornei o ‘Deus Louco’ porque eu queria vingança ou algo assim. Afinal, eu sou um dos primeiros deuses, para o que eu iria me vingar? Eu tinha a mais alta autoridade, ninguém poderia me pegar antes que eu os pegasse.
— Quando foi? Que eu comecei a odiar este mundo… — Karaskan endireitou as costas e olhou para Arima com o rosto machucado. — Oh, não me entenda mal. Eu sou muito diferente de Azes. Ele está tentando consertar as coisas; eu só quero que elas desapareçam. Para mim, este mundo era muito feio, sem sequer levar em conta os deuses.
Enquanto ele falava, um esqueleto apareceu do nada ao lado de Arima. Os dois tinham exatamente a mesma altura e ‘forma’. Os olhos do esqueleto estavam queimando com uma chama vermelha, irradiando com fúria desenfreada. O sorriso de Karaskan ficou mais largo quando ele viu isso.
— De qualquer forma, você me perguntou por que eu criei as Sementes do Caos, certo? — Ele prosseguiu. — Acabei de lhe dar a resposta. Eu ainda era muito jovem e não sabia como enfrentar o ódio que eu estava sentindo por este mundo. Tudo era imperfeito, mesmo que houvesse um equilíbrio entre a luz e a escuridão, eu só via a feiúra.
— Ambos os lados foram incrivelmente estúpidos — Karaskan desprezou.
— Pessoas más? O que que quer dizer? Eles não valem nada. Matem-os.
— Boas pessoas? Quão bobo é isso? Eles só pioraram as coisas. Apague-os.
— Medo patético exercido por pessoas que não entendem o que realmente é. Você precisa de desespero para fazer os outros sentirem horror.
— Ninguém precisa de justiça ou regras exercidas por simplórios. O que as pessoas querem é justiça e imparcialidade.
— Nenhum desses tipos de pessoas poderia fazer algo tão simples.
— Quem decide se tornar mau precisa entender o que é estar no lado negro da moeda.
— Quem escolhe ser humano precisa saber o que é lutar na luz.
— As pessoas que matam por uma razão trivial e outras que legitimamente apreendem esses criminosos lamentáveis não entendem nada.
Karaskan olhou para Arima e Malum. — Tenho certeza de que você sabe do que estou falando. — Disse ele e Arima respondeu com silêncio. Mesmo Malum só podia grunhir.
— No final, aqueles desprezíveis não valem nada. Aqueles benevolentes não entendem nada. Se você me perguntasse o que é um mundo perfeito, eu responderia assim: ‘Um mundo onde o mal e o bem podem respeitar um ao outro pela simples razão de que o que eles estão fazendo não é inútil… esse é um mundo perfeito’.
— A escuridão e a luz nunca desaparecerão, não importa o que aconteça. O verdadeiro céu é puro absurdo, nada pode ser aliviado de suas trevas. O verdadeiro inferno é lixo, nada pode ser desprovido de luz. — Ele fez uma pausa.
—…Arimane, o propósito das minhas Sementes não era trazer destruição. Enquanto falamos, todos eles desapareceram porque Pandora finalmente foi aberta, mas seu objetivo original era encontrar pessoas “más” para matar e pessoas “boas” para “reeducar”.
— No seu caso, minha Semente não te atacou apenas por diversão. Ele viu em você um verdadeiro potencial para se tornar um verdadeiro portador de luz ou escuridão. — Disse Karaskan e riu.
— Não importa o que você diga, Arimane, você é humano. — Declarou Karaskan. — E agora, você é o mocinho enquanto eu sou o bandido.
Tanto Arima quanto Malum permaneceram quietos.
— Por causa de tudo isso, eu criei as Sementes para mudar o mundo. Então, vários milhares de anos depois, criei a caixa de Pandora usando as habilidades de Hefesto. Pandora agora vai construir um verdadeiro equilíbrio. Ele foi projetado para se espalhar para os outros planos e trazer a verdadeira natureza dos seres humanos. Somente aqueles cultivados pelo sangue valem a vida que este mundo lhes oferece. — Concluiu e suspirou.
— Agora, eu disse tudo o que você queria saber. Você pode fazer o que quiser.
— Tch… — Arima estalou a língua. Malum ficou em silêncio e não se moveu um centímetro. — Não preciso fazer nada. A ‘Graça Final’ já está em ação. Você vai morrer. Não importa se eu sair agora ou mesmo se eu mesmo morrer. Minha vingança foi realizada no segundo em que você foi atingido pela Quinta Arte. — Explicou ele e Karaskan franziu a testa.
— Você não notou? — Arima trocou o cigarro que tinha na boca por um pirulito e falou friamente com o Deus Louco. Ele levantou as duas mãos e as mostrou.
Karaskan inclinou a cabeça para o lado e olhou para suas próprias mãos apenas para ver que elas haviam de alguma forma desaparecido. Era a mesma coisa com seus pés.
— No momento em que subir à sua cabeça, você provavelmente experimentará a maior dor que sua mente é capaz de sentir. Na verdade, isso continuará até que você morra. — Explicou Arima e Karaskan bufou. Suas pernas haviam desaparecido na metade do caminho e ele agora era como um fantasma flutuando acima do chão.
— Entendo. Fascinante. A magia que você exerce é impressionante. — Ele proferiu calmamente, mas não pôde deixar de se sentir ansioso. Seu corpo estava lentamente desaparecendo e agora que ele sabia o que aconteceria quando chegasse à sua cabeça, ele se sentiu assustado pela primeira vez em milhares de anos.
—…Este lugar também interfere com a minha fortaleza mental… — Comentou ele quando notou o quão enfraquecida sua força de vontade estava — Você vai ficar lá? Assistindo?
— Claro, se não testemunharmos seu fim, isso não faria sentido. — Malum zombou dele e Arima fechou os olhos.
— Entendo, isso é justo. — Karaskan assentiu e seu pescoço começou a ficar transparente. — Deixe-me dizer uma coisa antes de eu ir. As ‘configurações de desova’ de Pandora funcionam assim; quanto mais forte for a aura acumulada em um lugar, mais forte será a Téra. E, sim, esses monstros são chamados de Téra. Um único deles é chamado de Téras.
— ‘Monstro’ em grego, hein? — Comentou Arima. — Que sincero.
— Claro; ‘monstros’, é exatamente o que eu espero que eles sejam. — Karaskan gargalhou quando seu pescoço finalmente desapareceu. — Neste momento, os deuses mais fortes estão todos reunidos no Inferno, o que você acha que acontecerá com essas auras maciças reunidas em um único lugar? Além disso, sua força será impulsionada pela Terra Original.
— Uma vez que você sair daqui. Prepare-se para uma batalha difícil…!! — Karaskan de repente fechou a boca e cerrou os dentes. No segundo seguinte, ele estava gritando tão intensamente que era possível interpretá-lo mal como o último grito de uma besta.
Ele vomitou e chorou sangue enquanto uivava de dor. Se ele ainda tivesse mãos, ele estaria se machucando. Não é apenas a dor física, mas suas memórias também estavam sendo cutucadas, alteradas e excluídas. Tudo isso significava atormentá-lo especificamente, trazer-lhe desespero, arrependimento e medo.
No final, ele estava completamente quebrado. Seus lamentos e gritos permaneceram audíveis mesmo depois que todo o seu corpo havia desaparecido. Quando a voz parou completamente, Arima abriu os olhos e estalou os dedos.
O mundo da ‘Graça Final’ começou a mudar. Os vestígios da guerra se dissiparam e a terra ergueu um enorme monte no lugar onde Karaskan havia morrido. A mesma coisa estava acontecendo no mundo exterior. Logo depois disso, uma cruz de madeira caiu do céu e foi plantada em cima dela.
—…Você não precisava fazer isso por aquela escória. — Disse Malum.
— É assim que funciona. — Arima retrucou enquanto contemplava o túmulo. A “Graça Final” inflige a maior dor para o criminoso alcançar o arrependimento. Em troca, ele garante que ele receba um túmulo indestrutível. — Ele se levantou e olhou para a cruz.
— Porque isso é arrependimento forçado… Deixe-me dizer-lhe, se ele tivesse vivido depois disso, ele não teria sido capaz de fazer o mesmo discurso que ele fez antes. Muito provavelmente, teria sido um pedido de desculpas sem fim. É assim que essa arte funciona. Isso é respeito por quem você desonrou. Misericórdia.
Malum rosnou. — Eu já sei disso. — Disse ele e saiu imediatamente depois. Arima olhou para o túmulo uma última vez e depois também deixou a ‘Graça Final’.
Lá, em um campo de batalha vazio, sob um céu brilhante, repousa o túmulo do Deus Louco.