
Capítulo 210
Mago Prismático Genial
#210. Onde Retornar (1)
Uma capela silenciosa banhada pela luz do sol.
— Solitaire, aconteceu algo de especial na paróquia ultimamente?
O Bispo Cardio tirou uma Bíblia antiga e outros objetos litúrgicos de sua mala, colocou-os sobre o altar e perguntou:
Solitaire, parada à frente com a cabeça baixa, respondeu:
— Sim, Bispo. Foram dias de paz.
— Você teve um trabalho árduo. Deve ter ficado sobrecarregada cuidando de tudo em meu lugar enquanto eu me habituava à rotina.
— Não. Apenas fiz o que deveria ser feito.
O Bispo Cardio sorriu gentilmente diante da humildade de Solitaire.
— Sinto-me verdadeiramente abençoado. Vivo minha vida de fé ao lado de alguém tão capaz e fiel como você há tanto tempo. Nossa convivência já é longa, não é?
— Sim. Dez anos. Conheci o senhor quando eu tinha doze anos, no centro de treinamento da sede principal.
— É verdade. Naquela época, você era uma discípula e eu apenas um padre. Mas agora, com o passar de tanto tempo, ao ver como ambos mudaram, sinto algo novo.
— Não, Bispo. Não creio que nada tenha mudado.
A voz firme de Solitaire fez Cardio erguer a cabeça.
Solitaire também levantou o rosto e encontrou o olhar de Cardio.
— O que quer dizer com isso?
— A fé inabalável do Bispo não mudou nem um pouco desde então.
— Haha, era isso que queria dizer. É verdade. Minha fé não mudou. Desde que entrei para a igreja, o rumo da minha vida tem sido focado unicamente na doutrina.
— Em termos de pureza de fé, não há ninguém em toda a igreja que supere o Bispo Cardio.
Solitaire enfatizou a frase "pureza de fé".
— Haha, é elogio demais. É claro, é verdade que não sinto vergonha da minha fé.
Cardio parecia feliz.
Talvez por isso ele não tenha notado que Solitaire sorria, mas seus olhos não demonstravam o mesmo.
— A reunião na sede foi produtiva?
— Não é fácil. Espero que cada paróquia se esforce mais na busca pela santa. As nuvens negras que cobrem o céu continuam a crescer.
Após mais algumas palavras, o Bispo Cardio desceu do altar e virou-se em direção à porta da capela.
— Sinto muito por não poder dedicar mais tempo a você, tenho muito trabalho acumulado. Nos vemos amanhã na reunião.
— Sim. Até amanhã.
Creck — batida!
Solitaire, que encarava a porta por um tempo com um semblante que perdera o sorriso, virou a cabeça e falou, olhando para as cortinas perto da janela:
— Cada palavra foi uma mentira. Exatamente como você disse.
Uma parte da cortina ondulou com mana verde, e um garoto com dois camaleões na cabeça surgiu.
Ray estava usando sua magia de furtividade em potência máxima, com camuflagem dupla auxiliada pelos espíritos.
Solitaire, com o olhar momentaneamente desviado, esqueceu o que pretendia dizer e mudou de assunto.
— Mas... é realmente incrível. É a primeira vez que vejo um espírito com meus próprios olhos. Eles até têm a aparência de animais que nunca vi antes.
— Eu disse que são camaleões.
— Um camaleão, entendo.
— Dizem que é um animal comum na floresta.
— Hum? A floresta é um lugar real?
— Segundo Greene, sim. Eu nunca estive lá.
Durante toda a conversa, Solitaire não conseguia desviar os olhos dos espíritos.
— Posso tocar?
— Talvez? Os nomes deles são Sal e Pimenta.
— Esse é um nome bem peculiar. Hum...? É o nome que conheço?
— Se estiver falando do tipo de tempero usado em carne seca, então sim.
— Que nome feito às pressas.
— Não fui eu quem deu esses nomes. Foi um elfo muito descuidado.
Ao toque de Solitaire, os dois camaleões mudaram para a cor do ambiente e depois voltaram ao normal.
Solitaire, que repetia os mesmos movimentos com uma expressão curiosa, suspirou baixinho e retornou ao assunto original.
— ... Então o Bispo Cardio também estava disfarçado assim. Os Sétimos Padres e eu trabalhamos com ele na área do 30º Setor. É realmente vergonhoso que ninguém tenha notado que ele é um espião por dez longos anos.
Ray comentou, observando o profundo desprezo que Solitaire sentia por si mesma.
— Ainda assim, não há outros espiões na paróquia do Setor 37 além de Cardio.
— Um mal menor em meio a tudo isso.
Cardio era a única figura na catedral que possuía anéis misturados [1].
[1] - Referência à mana ou aura que indica a natureza distorcida ou corrompida de alguém.
Os resultados do interrogatório indutivo de Solitaire mostraram que não havia ninguém em contato com Cardio.
— Acho que as outras paróquias provavelmente são semelhantes. Mas o problema é... a sede, que pode ser chamada de escritório central da igreja.
— Você esteve na sede recentemente?
— A última vez foi há 10 anos. Não visitei desde que me formei no centro de treinamento de lá. Pelo que me lembro, não havia ninguém na sede com a fé distorcida...
Solitaire hesitou.
Ela mencionou que, durante seu tempo como estagiária, não conseguia controlar seus olhos para ver a verdade e acabava julgando involuntariamente a fé de todos que encontrava.
— ... Mas dez anos se passaram desde então. Não posso garantir que a sede não tenha sido corrompida e mantido sua pureza.
Ray, que estivera perdido em pensamentos por um momento, deu sua opinião.
— Se a liderança da ordem religiosa foi tomada pela Sociedade do Amanhecer Nambit, então qualquer ordem dada pela sede deve ser vista como uma ordem deles.
— Exatamente. Há pouco, Cardio disse para aumentar o número de pessoas designadas para a busca pela Santa.
A Sociedade do Amanhecer da Luz do Sul e a Igreja do Sol.
Esfera azul e sol artificial.
Uma esfera azul que emite uma luz sombria e escura, e uma santa que pode soprar luz permanente em um sol artificial.
Parecia haver uma pista, mas ela simplesmente não estava lá.
— Como está progredindo a busca pela santa?
— É simples.
O que Solitaire tirou do peito foi um pequeno pedaço de pedra tão branco quanto a neve.
— Terranote.
— Isso mesmo. É o material que compõe o sol artificial. A busca pela Santa é conduzida visitando o setor e deixando as pessoas segurarem pedaços disso em suas mãos.
Solitaire continuou sua explicação calmamente.
— Como sabe, até não-magos possuem mana fluindo em seus corpos. É apenas uma quantidade minúscula, mas ainda é mana. E o tipo de mana varia de acordo com a constituição inata de cada um. Segundo a revelação, se alguém que cumpre as condições de uma santa segurar o Terranote, uma luz incrível de uma cor específica irá irradiar.
— ... ...
Eu sabia o que a pequena quantidade de mana fluindo pelo meu corpo significava.
A mana contida no recipiente representa as emoções momentâneas.
A mana contida no anel reflete a disposição do personagem no momento em que o anel foi criado.
Por causa disso, a mana contida em cada anel muda continuamente.
Mas.
A pequena quantidade de mana fluindo pelo corpo poderia ser dita como aquela que revela as tendências inatas e permanentes daquela pessoa.
Em outras palavras, pode-se dizer que representa a essência daquela pessoa.
— Que cor de luz será emitida quando uma santa segurar o Terranote?
— Eu também não sei. Só ouvi dizer que é uma cor de luz que qualquer um que a veja não pode deixar de sentir. É o verdadeiro brilho do sol.
Ray relembrou as condições da santa que ele ouvira de Solitaire antes.
A coisa mais importante é ter uma mente que possa cuidar de tudo no mundo incondicionalmente.
Que cor de mana uma pessoa com tal personalidade teria em seu corpo?
Algo me fez lembrar de algo.
Primeiro, continuei com a próxima pergunta.
— O que acontece se encontrarem uma santa?
— Há um sol artificial em cada paróquia. No momento em que a santa for encontrada, todos serão recolhidos e derretidos no forno. Eles serão transformados em um sol artificial gigante e finalmente lançados.
— Para o céu?
— Sim. Ele subirá alto no céu, o firmamento, e espalhará a luz brilhante que a santa do sol injetou no mundo. As nuvens negras desaparecerão e uma chuva límpida cairá. A vegetação florescerá novamente, e os animais que partiram retornarão.
Enquanto falava, o rosto de Solitaire tornou-se vago, como se estivesse em um sonho.
— Isso também é o que Deus diz?
— Sim. Está tudo escrito na Bíblia.
— Entendo.
— Se tiver a chance, recomendo que participe do culto, Ray.
— Já ouvi algumas vezes. Não tenho muito interesse.
Solitaire encarou os olhos de Ray por um momento.
Então, de repente.
— Ouvi dizer que algo assim aconteceu recentemente.
Ela abriu a boca de forma significativa.
— O quê?
— Durante o culto, uma voz veio do fundo da sala dizendo que Deus é um ser sombrio. Quando os criminosos foram capturados, todos negaram ter dito tal coisa. No entanto, quando os vi cara a cara, descobri.
— ... ...
— Os fiéis capturados no local eram inocentes. Eles não proferiram tais palavras blasfemas.
Houve silêncio.
Ray, refletido nos olhos de Solitaire, olhava fixamente pela janela.
— É você, Ray?
— Não sou eu.
— Olhe nos meus olhos.
— Você pegou a pessoa errada.
Tump. Tump. Tump.
Solitaire caminhou em direção à janela e tentou fazer contato visual com Ray.
Mas a cabeça do garoto já havia virado para o outro lado.
— ... ...
— ... ...
Estático novamente.
Vapt!
No momento em que a sacerdotisa irritada rapidamente pegou a maça pendurada em sua cintura.
— Surgiu algo urgente. Preciso alimentar Kelly, Nero e Lato. Vou na frente.
O garoto já havia aberto a porta da capela e estava deixando o local.
Ranger — Bum!
— Um ser sombrio! Um ser sombrio! Como pode dizer uma coisa dessas!
Ray se afastou da capela, ouvindo os gritos se tornarem mais distantes.
O que eu deveria dizer?
Mesmo Solitaire, que raramente expressa suas emoções, parece ser sensível quando se trata de religião.
Quanto tempo se passou desde que deixei a catedral e caminhei pela rua?
Ranger.
Um sedã preto parou ao meu lado.
O rosto de Philip apareceu pela janela rapidamente abaixada.
— Layah! Entre! Este não é o momento de ficar aqui assim! Está pronto! Está pronto!
— Concluído? O quê?
— O que mais poderia ser? Nossa casa! Nossa mansão!
— Ah.
A construção de um anexo em um dos terrenos da mansão.
Ultimamente, tive tantas coisas em que pensar e tantos eventos ocorreram que acabei me esquecendo disso por um tempo.
— O que está fazendo! Apresse-se! Vamos!
Philip saiu do carro e empurrou Ray, que ainda estava pensando, para o banco de trás como se estivesse sequestrando-o.
Ray estava tão absorvido pelas emoções coloridas correndo para o recipiente de seu amigo que cedeu sem muita resistência.
— Senhor! Pise fundo! Pise fundo!
O sedã correu pela rua e parou em algum lugar depois de passar pelo portão da mansão.
Quando abri a porta e saí, a primeira coisa que vi foi uma longa fila de crianças.
— É o Ray!
— Rainim chegou!
As crianças estavam espalhadas em uma agitação.
O cenário escondido foi revelado.
O que estava diante dos meus olhos era uma mansão branca com um exterior limpo que brilhava sob a luz do sol.
Embora tivesse menos de um terço do tamanho do edifício principal, era superior em luxo e grandiosidade.
— O que acha, Raya? Sempre esteve coberta por entulhos de construção, então é a primeira vez que você vê, não é?
Philip insistiu para que ela respondesse, seu rosto incapaz de esconder sua empolgação e emoção.
— Espero que goste.
— ... ...
Ray sabia que um dos sonhos de longa data de Philip era ter uma casa própria.
Construir e operar um hotel no Setor 49 também fazia parte desse desejo.
— Foi por isso que deixei toda a construção para o Philip após o primeiro projeto.
Foi uma forma de consideração, mas o resultado foi mais agradável do que eu esperava.
Gostei do exterior limpo, e a forma da mansão mostrava, por fora, que os vários espaços foram divididos eficientemente de acordo com seu uso.
Acima de tudo, agora havia um lugar para onde eu poderia retornar sempre que quisesse.
A luz refletida na mansão branca deslumbrante ofuscou os olhos do garoto.
— O que acha? O que achou da mansão?
— ... É legal. É deslumbrante.
Um leve sorriso apareceu nos lábios do garoto.