
Capítulo 46
A Protagonista Feminina Realmente Te Ama
Sophie acreditava que a vida de todos era como uma peça de teatro, cada pessoa interpretando seu próprio protagonista, com temas variados e personagens diferentes surgindo.
Neste momento, ela se sentia como um palhaço!
Refletindo sobre as palavras que ela havia atirado contra o colega de classe, que agora estavam sendo repetidas para ela, Sophie teve uma espécie de epifania.
Era evidente que a perseguição dele não era motivada por segundas intenções, mas simplesmente para lembrá-la de que ela havia deixado sua carteira para trás.
Sua hipersensibilidade e o gatilho incontrolável de sua escuridão interior haviam provocado uma reação defensiva.
Assim como o objetivo que ela havia estabelecido para si mesma: manter os homens afastados desde o início.
Mas e agora?
Ouvindo-o repetir suas próprias palavras quase literalmente...
Era extremamente embaraçoso, verdadeiramente mortificante!
Até mesmo sua persona, geralmente impecável, parecia incapaz de suportar o constrangimento que se espalhava rapidamente.
Se ao menos ela pudesse desaparecer em um buraco, mas ela precisava recuperar sua carteira...
O que fazer... Hmm?
De repente, uma ideia atingiu Sophie.
Em vez de responder a Sam, ela simplesmente fechou os olhos.
Sam foi pego de surpresa. Do que se tratava aquilo?
Ele já tinha visto pessoas enfiarem a cabeça na areia, mas nunca ninguém fingindo ser cego no ato. Será que ela ainda queria sua carteira de volta?
Mas então, Sophie abriu os olhos repentinamente, parecendo olhar para Sam em pânico.
Ela então olhou timidamente em volta, com as bochechas coradas, e com uma expressão completamente diferente, ela se virou para ele.
"Hum... moço bonito, eu deixei minha carteira aqui com você?"
Sam percebeu claramente a mudança drástica em seu tom e expressão.
O que estava acontecendo? Seria possível que Sophie tivesse uma personalidade performática, num momento uma beleza fria e cansada do mundo, e no próximo, uma típica garota vizinha [1]?
Sam franziu a testa ligeiramente. Ela estava fingindo ter amnésia na frente dele?
"Que carteira? Não sei do que você está falando. Isso é uma nova maneira de começar uma conversa?"
Sophie não ficou brava, mas, em vez disso, falou com Sam com certa dificuldade.
"Ah... desculpe pelo que aconteceu antes, a culpa foi minha. Eu fico um pouco ansiosa quando estou sozinha à noite, o que me deixa excessivamente cautelosa. Eu disse algumas coisas que foram demais, e sinto muito mesmo por isso..."
Embora seu tom fosse um pouco estranho, ela pelo menos reconheceu seu erro.
De fato, Sam não era do tipo que guarda rancor.
Mesmo quando Louis frequentemente pegava dinheiro emprestado dele para jogos ou equipamentos virtuais, desde que estivesse dentro de um limite razoável, Sam estava sempre disposto a ajudar.
Mas o comportamento de Sophie deixou Sam um tanto intrigado.
"Eu entendo os sentimentos de uma garota que mora sozinha... Mas por que você acharia que eu precisaria puxar assunto com você?"
Observando o olhar cético de Sam, Sophie piscou, parecendo um pouco atordoada.
A atitude anterior de superioridade que a fazia parecer inacessível havia desaparecido, substituída por uma simplicidade repentina. Ela parecia quase ingênua agora.
Sam concluiu que mulheres bonitas são realmente criaturas enigmáticas.
"Uh... porque tem muitos que fazem isso. Talvez eu tenha ficado um pouco irritada, então reagi precipitadamente. Além disso, não estava em um bom dia hoje, sabe, aquela época especial do mês para uma garota, você entende, certo?"
Sophie corou enquanto piscava para Sam.
Por alguma razão, Sam sentiu arrepios por todo o corpo com aquele olhar.
De seu comportamento particularmente distante e resistente para subitamente parecer um tanto sedutora, a mudança foi drástica demais, não foi?
Ele percebeu claramente que Sophie não era exatamente normal. Quanto a que tipo de anormalidade, era difícil dizer. Será que ela seria parecida com Angel e os outros?
Então, Sam decidiu não se aprofundar. Quem sabe que outras complicações poderiam surgir? Melhor terminar por aqui antes que qualquer prompt estranho do sistema ou mensagens bizarras chegassem.
Portanto, Sam pegou a carteira branca de Sophie e a colocou no balcão.
"Verifique se falta alguma coisa. Só para deixar claro, a loja tem câmeras, e eu não poderia ter tirado nada dela."
Sophie pegou sua carteira, mas não verificou imediatamente o conteúdo. Em vez disso, ela piscou e olhou para o crachá de Sam em seu peito.
"Ah, eu naturalmente confio em você. A propósito, você é o Sam, certo?"
Sam olhou para Sophie com curiosidade e assentiu.
"O que houve?"
"Bem... poderíamos trocar informações de contato? Eu moro perto e eu..."
Antes que Sophie pudesse terminar, sua expressão mudou novamente, revertendo ao seu comportamento frio anterior.
Sam estava completamente confuso. Ele ainda não tinha entendido a situação, e de repente ela estava pedindo seus detalhes de contato.
O rosto de Sophie ficou mais frio, mostrando até um toque de raiva sem nome.
Então ela olhou para si mesma, deixando Sam perplexo.
O que está acontecendo?
Isso é algum tipo de arte performática? Estamos num palco?
Sophie respirou fundo, como se estivesse ajustando suas emoções, e então disse:
"Desculpe, não sei o que deu em mim agora há pouco. Disse algumas coisas estranhas. Peço desculpas pelo incidente de hoje."
Sam ainda estava intrigado: "O que está acontecendo aqui..."
Inesperadamente, a garota à sua frente olhou para ele com ferocidade, seu desdém claro em seus olhos.
"Embora eu tenha sido a ofensiva desta vez, a mensagem continua a mesma. Nós não nos conhecemos esta noite, não teremos nenhum relacionamento no futuro, e mesmo que nos esbarremos na escola, somos apenas estranhos."
Depois de dizer isso, ela abriu sua carteira e tirou algumas notas, pensando por um momento.
Mordendo o lábio, ela colocou relutantemente uma nota no balcão e então se virou para sair.
Deixando Sam para trás, perplexo, ele pegou a nota.
"Isso deveria ser uma compensação? Ou uma gorjeta?"
Ele riu e balançou a cabeça.
"Mão de vaca, hein? Bem... pelo menos não envolve nenhum relacionamento complicado."
Depois que Sophie saiu, Sam apenas ficou parado no balcão, esperando seu turno terminar.
Ele ainda não sabia os segredos de Sophie, apenas tinha suas suspeitas. Sem nenhum prompt de sistema ou mensagens estranhas, isso indicava que Sophie não era particularmente significativa para ele no momento.
Então, por enquanto, manter distância parecia ser a melhor linha de ação.
Assim que voltou para casa, Sophie estava no meio de um conflito interno.
"Você é louca, não é? Pedir a Sam suas informações de contato? Você está caidinha?"
"Mas ele é realmente bonito... e gentil também. E desta vez, foi você quem estava errada, não foi? Ele só queria devolver sua carteira, e você o injustiçou..."
"Isso é uma evitação razoável de risco! Desta vez pode ter sido sobre a carteira, mas e da próxima? Você pode garantir que todas as vezes, todos vêm com boas intenções?"
"Mas ainda assim, ele genuinamente parece uma boa pessoa! E tão bonito. Irmã, eu nunca vi um cara tão atraente, uaaaaa."
"Uaaaaa o quê! Cala a boca. Você mal falou com ele e já acha que ele é uma boa pessoa. Você esqueceu toda a dor de antes?"
"Mas... mas eu só tenho um pressentimento, sabe? Irmã, minha intuição geralmente é certeira."
"Certeira, nada! Desperdiçando meus $10, aaaaaah!"
Abraçando seu travesseiro, o rosto de Sophie era um retrato de angústia.
Embora ela estivesse sozinha em seu quarto, a conversa tinha os tons distintos de duas pessoas.
De repente, Sophie sentou-se em sua cama, encarando seriamente a parede vazia à sua frente.
"Sophia, estou falando sério. Nunca, jamais se apaixone por um homem. Eles só usarão seu amor para te machucar. Você pode me prometer isso?"
Então sua expressão vacilou.
"Mas irmã... e se for você quem se apaixonar por um cara primeiro?"
A expressão de Sophie tornou-se desdenhosa.
"Mesmo que fosse o fim do mundo, eu não me apaixonaria por um homem. E como poderíamos nós, com nossas circunstâncias, estar em um relacionamento como os outros? Você esqueceu?"
"Mas... e se nós duas gostássemos da mesma pessoa?"
Instantaneamente, as bochechas de Sophie ficaram vermelhas.
"Loucura! Gostar do mesmo homem? De jeito nenhum! Homens são o pior!"
"Mas irmã... nossa orientação sexual não é a questão, não é inevitável..."
"Nunca. Eu serei vigilante por você. Contanto que você resista, eu nunca gostarei de mais ninguém."
"E se eu for a primeira a me apaixonar por um cara? Se isso acontecer, não importa o quanto eu goste dele, eu abrirei mão dele por você, irmã."
"E se for você primeiro?"
"Se for você primeiro... então eu vou tentar gostar do homem que você gosta. Então, irmã, você deve me permitir compartilhar, ok?"
O rosto de Sophie mostrava hesitação, dúvida e uma raiva indescritível.
Ela respirou fundo.
Com a cabeça erguida em orgulho, seus olhos cheios de desdém.
"Eu aceito essa aposta. Vou provar para você que nem toda garota precisa gostar de alguém para passar pela vida. Apenas ter você é o suficiente para mim, e ter a mim é o suficiente para você."
"Irmã, você não tem medo do inesperado?"
"Inesperado? Não existem acidentes. Apaixonar-se significa doar tudo, ficar vulnerável na frente da outra pessoa. E eu, Sophie, sendo absolutamente racional, não posso e nunca irei doar minhas emoções."
[1] - *Girl-next-door*: Termo em inglês para descrever uma garota com uma aparência acessível, amigável e natural.