
Capítulo 60
Ator Magnata em Hollywood
Park City, Utah, janeiro de 2010. O ar frio da montanha castigava as bochechas dos visitantes enquanto apressavam-se pelas ruas salpicadas de neve, a antecipação pelo Festival de Cinema de Sundance vibrando no ar. Acomodado em um saguão de hotel aconchegante, Lucas, um jovem ator com uma emoção nervosa pulsando em suas veias, encontrava-se frente a frente com Cary Porter, um designer dos sagrados salões da Dolce & Gabbana. A tensão na sala era palpável.
Cary, impecavelmente vestido de preto, mal disfarçava um lampejo de desdém. Vincent, o agente sempre otimista de Lucas, pigarreou e ofereceu um sorriso conciliador. "Sr. Porter, não há necessidade de julgar o livro pela capa. Lucas pode parecer um novato, mas acredite, ele está destinado a ser uma superestrela." Ele deu um tapinha no ombro de Lucas em um gesto silencioso de encorajamento.
Em resposta, Cary e seu assistente trocaram um sorriso cúmplice. "Um futuro superestrela?" Cary arrastou as palavras, sua voz escorrendo ceticismo. "Sr. Smith, você tem uma imaginação e tanto."
As bochechas de Lucas ficaram escarlates, e até mesmo Vincent vacilou sob o sarcasmo glacial.
Tanto Lucas quanto Vincent sentiram um leve desconforto. Mas Vincent, sempre o diplomata, apenas sorriu. "Humilhação não está na pauta, Sr. Porter. Estamos aqui pela sua expertise. Lucas precisa de um guarda-roupa digno do festival."
Os lábios de Cary curvaram-se em um sorriso predatório. "Claro, Sr. Smith. Vamos ver se o rosto do seu 'ator desconhecido' consegue vestir D&G."
O quarto privativo de Cary transbordava com araras de ternos sob medida, cada um um testamento ao luxo da alfaiataria.
Os olhos de Lucas percorreram a diversa gama de roupas masculinas, esperando encontrar algo adequado para o festival. Então, Cary, uma figura talhada em gelo e veludo, finalmente dignou-se a notar Lucas. Com um movimento de seu pulso imaculadamente cuidado, ele puxou uma peça de roupa. Ela cintilava, uma cascata de lantejoulas capturando a luz como neve caindo. Era uma criação audaciosa, um tecido brilhante entrelaçado com fios de ouro, mais adequado a uma bola de discoteca do que a um festival na montanha. "Bem, que tal este?" Cary arrastou as palavras, sua voz afiada como um estilete. "Este com certeza fará você brilhar."
O sorriso de Lucas vacilou. Vincent, seu agente, um homem com um brilho perpétuo nos olhos, franziu a testa. "O senhor está falando sério, Sr. Porter?" ele perguntou, sua voz educada, mas firme. "Um terno de lantejoulas em Park City? Em janeiro? Parece... impraticável para o clima de Park City, para dizer o mínimo."
Os lábios de Cary curvaram-se em um sorriso que não alcançava seus olhos. "Sr. Smith, vestir um rosto desconhecido tem seus desafios. Às vezes, uma peça de destaque é a única maneira de ser notado."
Lucas sentiu um leve desconforto. "Rosto desconhecido, hein?" ele disse, sua voz surpreendentemente firme. "Toda estrela que o senhor veste já foi um rosto desconhecido, sabia?"
O sorriso de Cary vacilou por um momento, substituído por um lampejo de irritação. "Bem filósofo, não é?"
Vincent deu um passo à frente, sua voz tensa. "Sr. Porter, não foi isso que combinamos. Lucas merece respeito, esteja ele na lista A ou não."
Cary jogou a cabeça para trás e riu, um som áspero e discordante que arranhava o ambiente elegante. "Respeito? Sr. Smith, eu visto estrelas, não aspirantes. Se tivesse me trazido ao menos um C-lister, talvez eu tivesse me importado. Mas ele? Ele é notícia de ontem antes mesmo de chegar à primeira página." ele arrastou as palavras. "Mas não tenho tempo para debates existenciais, Sr. Smith. Se você precisa de roupas para um ator da lista D, há outros designers na cidade."
Vincent deu um passo à frente, seu sorriso diplomático agora forçado. "Sr. Porter, acho que podemos—"
"Receio que minha generosidade tenha limites, Sr. Smith," Cary interrompeu, sua voz fria como o ar da montanha. Ele então se virou para Lucas, "Nós só vestimos estrelas, querido. Talvez tente sua loja de segunda mão local da próxima vez."
Lucas e Vincent trocaram um olhar silencioso, uma linguagem de frustração compartilhada e desafio latente. Sem uma palavra, eles se viraram e saíram, deixando o designer sozinho em seu mundo brilhante e frio. Lucas sabia que Cary havia tentado quebrá-lo, reduzi-lo a uma nota de rodapé na grande história de Sundance. Mas, diante do desdém do designer, um fogo acendeu-se dentro dele. Ele poderia ser um rosto desconhecido, mas não deixaria ninguém apagar sua luz. Este Sundance, ele prometeu, seria seu primeiro passo para fora das sombras, e ele não precisaria de lantejoulas para fazê-lo brilhar.
Deixando o domínio gélido de Cary, Vincent lançou um olhar preocupado para Lucas. "Sinto muito, Lucas," ele disse, sua voz carregada de arrependimento. "Eu não esperava tanta... aspereza da D&G. Realmente decepcionante."
Lucas, no entanto, ofereceu um sorriso tranquilizador. "Não precisa se desculpar, Vincent. Na verdade, a pequena tirada dele me fez perceber algo." Ele fez uma pausa, um brilho de travessura em seus olhos. "Talvez eu não precise de um designer afinal."
Vincent ergueu uma sobrancelha, intrigado. "O que você quer dizer?"
Lucas, munido de seu conhecimento futuro, sentiu uma onda de confiança. Ele sabia sobre as tendências vintage que estavam voltando, sobre a moda sustentável em ascensão e sobre o fator "cool" de achados curados em brechós. "Há uma loja de roupas vintage em Park City que tenho em mente. Encontraremos algo único, algo com alma, que me caia melhor do que qualquer roupa de Cary."
Vincent riu, um toque de surpresa pairando em seus olhos. "Um brechó? Você está realmente levando a sério o conselho daquele designer, não está?" ele provocou, tentando aliviar o clima.
Lucas riu, a lembrança da monstruosidade cintilante de Cary ainda fresca. "Ah, eu não seria pego morto usando algo das garras frias e brilhantes dele! Acredite em mim, Vincent, um achado de brechó bem escolhido terá cem vezes mais personalidade do que qualquer terno de designer D&G superfaturado de Cary." Ele acrescentou, "aquelas lantejoulas que Cary estava empurrando poderiam cegar alguém nesta nevasca."
A lembrança da monstruosidade cintilante arrancou um bufo de Vincent. "Certo, certo," ele riu, balançando a cabeça. "Cegar-nos e nos dar arrepios. Quem diria que a moda poderia ser tão aterrorizante?"
O ar frio da montanha rodopiava em torno de Lucas e Vincent enquanto eles navegavam pela movimentada Main Street.
Lojas vintage e cafés aconchegantes alinhavam a rua, suas vitrines adornadas com luzes de fada cintilantes e manequins excêntricos. O aroma de café torrado e doces recém-assados misturava-se com o toque do ar de inverno, criando um banquete sensorial.
Lucas parou, seu olhar atraído por uma fachada de canto escondida.
Ao passarem pela porta rangente, foram recebidos por uma sinfonia de cheiros e texturas. Jaquetas de couro vintage pendiam ao lado de araras de camisas estampadas, jeans desbotados misturavam-se com suéteres de tricô grossos e uma caixa de chapéus.