
Capítulo 214
Tornando-se um Mago da Escola de Magia
“Se a gente atear fogo...”
Os estudantes do Tigre Branco murmuravam entre si. Parecia que estavam realmente levando a sério as palavras de Gainando.
“Esqueçam isso, idiotas. Se a biblioteca pudesse ser fechada porque um calouro ateou fogo, já estaria destruída há muito tempo,” disse Jijel, de modo contundente. Os estudantes do Tigre Branco demonstraram claramente a decepção.
No entanto, Gainando não desistiu.
“E se aumentarmos o fogo? Não funcionaria se Yi-Han fizesse isso?”
“Ei, Gainando. Você acha que Wardanaz é um dragão ou algo do tipo?”
“Estudantes, realmente não devemos atear fogo na biblioteca,” interveio a Professora Garcia, claramente tensa pela conversa imprudente dos alunos.
Os alunos acenaram com a cabeça em concordância.
“Claro, Professora.”
“Não vamos realmente atear fogo.”
“Vocês não devem mesmo fazer isso. Podem acabar na Sala de Castigos, mesmo nas férias.”
“...”
“Nós realmente não vamos atear fogo, juro.”
O medo de ficar confinado na Sala de Castigos durante as férias era uma ameaça mais eficaz do que qualquer outra, dissuadindo até mesmo o aluno mais radical de cogitar acender fogo.
“Isso é sério,” pensou Yi-Han, perdido em contemplação.
Surpreendentemente, os professores tiverem sido cautelosos em limitar o uso dos livros da biblioteca até então, mas parecia que isso iria mudar. O problema não era apenas que as aulas ficariam mais difíceis e o material de estudo aumentaria.
Em Einroguard, apenas entrar na biblioteca e pegar um livro já era um desafio. Encontrar um livro próximo à entrada exigia tempo, quanto mais os que ficavam mais no interior.
“Não poderíamos simplesmente sair e comprá-los?”
Enquanto alguns livros raros de magia eram exclusivos da biblioteca da academia de magia, alguns certamente poderiam ser comprados do lado de fora. Se ao menos abrissem o portão principal!
“Professora, por favor, entre.”
Professor Garcia, pensando em adiantar a aula de hoje antes que os alunos desanimassem ainda mais, chamou outra professora para dentro.
“Um mestiço de espírito?”
Os olhos de Yi-Han brilharam ao perceber uma aura semelhante à dos espíritos na professora que se aproximava. Não era incomum encontrar mestiços de espíritos, de anjos ou de demônios entre os alunos, então não seria exceção ter um professor com sangue misto.
“Mas não parece ser um espírito, porém.”
“Professora Parsellet Krair, mestra em magia de adivinhação.”
“!”
Magia de adivinhação.
Era um dos campos mais intrincados e difíceis da magia.
Embora Yi-Han tivesse ouvido falar muito sobre outras magias durante sua estadia na mansão da família, seu conhecimento sobre a magia de adivinhação limitava-se a fragmentos breves.
-Uma maga de adivinhação foi chamada para resolver o roubo do Colar de Rubi da família Jojeon. Usando moedas para adivinhação, eles especularam a localização do colar…-
-Você já ouviu dizer que aqueles mercadores exigentes pegaram suas bolsas de moedas de ouro e se ajoelharam diante do mago? Tudo isso, apenas para uma única adivinhação.-
-Dizem que uma maga excepcional de adivinhação sabe o que ela vai comer no almoço assim que acorda pela manhã.-
-O talento exigido para a magia de adivinhação é inteiramente diferente do necessário para outras magias. Somente uma intuição brilhante serve como farol.-
Embora não tivesse compreendido plenamente a natureza da magia, Yi-Han ficou profundamente intrigado pela magia de adivinhação.
“Magos excepcionais de adivinhação são bastante populares, não é mesmo?”
Magos que podiam alterar a realidade conforme a sua vontade eram temidos e reverenciados no império, mas entre eles, magos excepcionais de adivinhação recebiam um respeito extraordinário.
Toda pessoa teme um futuro incerto.
Quem não respeitaria alguém capaz de prever o futuro?
Yi-Han não nutria o desejo de dominar o futuro, porém desejava poder dizer: “Eu sou um mago de adivinhação”, em vez de admitir ser um mago negro, o que, sem dúvida, lhe renderia mais estima.
-Eu sou um mago de adivinhação.-
-Oh! Um grande mago chegou à nossa vila! Será que você pode prever o futuro do meu filho?-
-Eu sou um mago negro.-
-...Ei, os portões do cemitério estão trancados, certo?-
“Professora Krair?”
Ao ser chamada pela Professora Garcia, a Professora Krair, perdida em pensamentos, acenou com a cabeça.
“...Professora, pedi que viesse hoje com uma atitude sincera.”
“É isso. Mas o futuro é imprevisível, não é?”
“Professora, eu de fato solicitei.”
Havia firmeza na voz da Professora Garcia. Os olhos da Professora Krair brilharam, e, de repente, sua expressão mudou.
“Ah, sim. Magia de adivinhação. Eu estava marcada para lecionar sobre isso.”
“...Múltiplas personalidades?!”
Yi-Han ficou surpreso com a aparência sincera da Professora Krair, como se ela tivesse se transformado em outra pessoa.
“Bem, não é tão incomum assim.”
Professores costumavam ter traços de personalidade múltipla, em graus variados. Só que os traços da Professora Krair eram particularmente acentuados.
“Por favor, cuide de mim. Eu sou Parsellet Krair, mestiça banshee, e me especializo em magia de adivinhação.”
“Estamos ansiosos pela sua orientação, Professora!”
Os alunos saudaram em coro.
A Professora Krair, incomodada pelo cabelo comprido que a atrapalhava, sacudiu a cabeça para afastá-lo.
“Alguém sabe sobre Jundaer Dolphram?”
Asan, sentado ao lado de Yi-Han, ergueu a mão e exclamou: “Um grande mago que lançou as bases da magia de adivinhação do império!”
“Inteligente. Você sabe se Jundaer Dolphram cometeu suicídio no ano 131 do calendário imperial?”
“Uh… Não?”
“Guarde isso. Gostaria de saber se alguém conhece Keltan Inan, discípulo de Jundaer Dolphram.”
Yi-Han reconheceu o nome. Vários alunos, incluindo a princesa e até Gainando, ergueram as mãos. Yi-Han ficou surpreso.
“Você sabe sobre Keltan Inan?”
“Yi-Han, ele é a carta-chave do meu baralho.”
“Ah, desculpe. Não soube porque o jogo sempre chega ao fim antes dele sair.”
Gainando, ofegante e com os olhos marejados, lançou um olhar de descontentamento a Yi-Han, que pediu desculpas diante do semblante genuíno de frustração.
“Não é que você não possa... é apenas um jogo de acaso.”
“Certo? Certo? Não tem nada a ver com habilidade, não é?”
“Talvez. A magia de adivinhação pode ajudar.”
Enquanto falavam, outro aluno respondeu no lugar dele. A professora Krair assentiu.
“Bem feito. Mas você sabia que Keltan Inan cometeu suicídio no ano 241 do calendário imperial?”
“...Não? Não estava… desaparecido?”
“Desaparecido? Pense nisto. Se os registros de um mago de adivinhação mencionam desaparecimento, estar desaparecido ou contato perdido, suponha suicídio. Agora, como acabei de dizer... Jundaer Dolphram, o grande mago que lançou as bases da magia de adivinhação do império, cometeu suicídio no ano 131. Seu discípulo, Keltan Inan, seguiu no ano 241. Agora é a sua vez de aprender magia de adivinhação.” [1]
“...”
“...”
‘Isso parece mais frio do que na semana passada.’
Yi-Han não pôde deixar de admirar a capacidade da professora de gelar a academia com apenas algumas palavras, mais eficaz do que o próprio Rei Gigante de Gelo.
Apesar do aviso, a palestra da Professora Krair não era particularmente perigosa nem difícil.
De fato, comparada às aulas de outros professores, esta era um pouco mais fácil.
Em vez de se envolver em ações ou desviar de ataques, tudo o que tinham que fazer era ouvir a explicação.
“Na verdade, a adivinhação é uma habilidade que até pessoas não-magé podem executar até certo ponto. Um aluno que chega à sala de aula sem ter comido pela manhã sabe que ficará com fome ao fim da aula. E um professor que, mesmo diante do pedido da Professora Garcia, chega à sala com uma atitude preguiçosa sabe o que lhe acontecerá após a aula.”
“Professora Krair, os alunos podem entender errado.”
Advertida pela Professora Garcia, a Professora Krair falou com mais cautela.
“A adivinhação envolve usar informações do passado para julgar o futuro. O que torna a adivinhação de um mago especial é a capacidade de obter e considerar informações que as pessoas comuns podem perder, até mesmo informações das quais o próprio mago pode não estar ciente.”
Segundo a professora, a magia de adivinhação era amplamente dividida entre prever o futuro próximo e o futuro distante.
Prever o futuro próximo, isto é, alguns segundos adiante, era bem intuitivo, preciso e relativamente fácil.
Contudo, adivinhar o futuro distante, várias horas ou mais à frente, era uma magia difícil, repleta de incerteza e enorme esforço para o mago.
“Aí. O que vocês sentiram com isso?”
Asan ficou surpreso quando perguntaram.
“Uhm… A magia de adivinhação é profunda e infinita, exigindo dedicação sem fim?”
“Não. Se não quiser enlouquecer, fique apenas em prever o futuro próximo. Especialmente se alguém pedir para você fazer isso. Continue tentando prever o futuro distante, e você acabará como Jundaer Dolphram, Keltan Inan ou Pheljun Zega.”
“Professora, nunca ouvi falar de um mago chamado Pheljun Zega...”
“Ele está morto, então você não saberia. Então hoje vamos tentar prever o futuro distante.”
”???
Yi-Han ficou perplexo.
Os outros alunos pareciam compartilhar da mesma confusão, inclinando a cabeça.
Contar a eles para não preverem o futuro distante?
A Professora Krair foi severa.
“Se eu não disser para vocês não fazerem isso, vocês não são magos. É melhor desmaiar bem aqui, na minha frente, tentando prever o seu exame final, do que cuspir sangue e desmaiar sozinho.”
“...”
“De fato.”
“O que você quer dizer com ‘de fato’?!”
Asan ficou pasmo ao ver Yi-Han acenar com a cabeça, como se tivesse entendido.
O que era aquilo…!
‘Não é uma forma de ser cuidadoso?’
Um círculo mágico apareceu diante dos alunos, com uma disposição desordenada de pedras de várias cores.
Segundo a Professora Krair, quanto mais habilidoso fica um adivinho, mais ele encontra um método de adivinhação que lhe convém.
Claro, os calouros, sem esse conhecimento, escolheram a adivinhação com pedras, o método mais fácil.
“Segurem a pedra, entoem o feitiço e, em seguida, joguem-nas suavemente. O objetivo é ver o que vocês estarão fazendo em um dia.”
“Não deveríamos conseguir saber o que acontecerá em um dia?”
Gainando sussurrou. A Professora Krair falou de forma impassível.
“Dizem que um mago hábil de adivinhação sabe o que vai comer no almoço ao acordar pela manhã. Um dia de antecedência é um futuro distante. Chega de tolice e… joguem!”
Kruruk-
O som de pedras sendo arremessadas e de feitiços lançados ecoou ao redor.
“Pedras de várias cores, mostrem-me a mim mesmo amanhã.”
“Pedras vermelhas, azuis, verdes. Mostrem-me a mim mesmo amanhã…”
Os alunos que primeiro lançaram os feitiços olharam, boquiabertos, para as pedras dispersas e, em seguida, inclinaram as cabeças.
“Acabou?”
“Se não vier nenhuma imagem à mente, é falha. Você precisa visualizar algo.”
“Podemos tentar de novo?”
“Claro.”
A Professora Krair sorriu levemente.
Naquele momento, um aluno que acabara de falar rolou no chão.
Thud!
“Tosse…!”
“Ver o futuro tem um preço. Perder apenas parte da mana é barato demais.”
“Mas eu não vi nada?”
“Isso mesmo. Você não viu nada, então foi só isso. Se tivesse visto algo, nem conseguiria gemer.”
“...”
Os alunos que estavam prestes a balançar seus bastões começaram a hesitar, o medo, aparentemente, tomando conta.
Por mais tentadora que fosse a magia de adivinhação, neste momento parecia mais um feitiço suicida.
“Foi bem, não foi? Professora Garcia?”
“Você poderia ter sido mais delicado, mas… você deu um aviso adequado. Bem feito.”
“É preciso ser tão duro para fazer com que os alunos fiquem realmente cautelosos. A magia de adivinhação tende a induzir vômito de sangue se aprendida sozinha… Espera! O que você está fazendo?!”
A Professora Krair chamou Yi-Han com firmeza.
Ele estava tentando adivinhação pela segunda vez, mesmo já tendo tentado uma vez e após ver outro aluno desabar.
Tal conduta indicava ou um aluno ousado ou alguém embriagado pelo próprio talento e entrando na arrogância.
Yi-Han hesitou antes de responder.
“Achei que isso seria… suficiente.”
“Suficiente? Os magos que acabaram mortos também acharam que era suficiente. Professora Garcia, uma poção!”
“Isso deve estar bom até aqui…”
“?!?”
Ao ver a professora Garcia, geralmente tão bondosa, demonstrar indiferença a uma questão diretamente ligada à vida de um aluno, a Professora Krair ficou horrorizada.
Sem dúvidas, era um presságio do fim do mundo.
[1] Explicação: Isto se assemelha às citações de David L. Goodman: “Ludwig Boltzmann, que passou grande parte da sua vida estudando mecânica estatística, morreu em 1906 por sua própria mão. Paul Ehrenfest, dando continuidade ao trabalho, morreu de modo semelhante em 1933. Agora é a nossa vez de estudar mecânica estatística”. – David L. Goodman “Estados da Matéria”.