Re: Blood and Iron

Capítulo 778

Re: Blood and Iron

A lâmpada sobre a escrivaninha de Bruno lançava um brilho âmbar suave, quase não alcançando as bordas do vasto escritório.

Além das janelas altas, Innsbruck dormia sob uma camada de névoa, alheia ao fato de que, do outro lado do Atlântico, uma nação descobria seu diagnóstico terminal.

Bruno recostou-se em sua cadeira de couro, uma mão envolvendo um copo de bourbon do Kentucky, a própria bebida preferida de Roosevelt, adquirida há décadas por uma ironia poética.

O gelo tilintava levemente enquanto ele o mexia, ouvindo o Gabinete Oval através de um canal que nenhum oficial de inteligência americano jamais tinha localizado.

Ele já tinha visitado aquela sala várias vezes no passado, e agora Roosevelt ocupava seu trono de poder.

Alguns de seus fios tinham sido encontrados, mas isso pouco importava. Ele deixara tantos caminhos que poderiam rasgar as paredes pedra por pedra e ainda assim nunca chegariam às raízes.

Nesta noite, a linha carregava apenas a respiração ofegante de Roosevelt.

Depois vieram os papéis. A mudança. A incredulidade.

E, por fim, o silêncio, pesado e carregado.

Bruno colocou o copo na mesa e discou o número privado que só líderes mundiais, e um príncipe alemão, haviam tido.

A linha tocou uma vez.

Duas vezes.

Três vezes.

Então:

"O que é isso?! Você tem alguma ideia do que —"

A voz de Roosevelt parou de repente no momento em que Bruno falou.

"Então", disse Bruno calmamente, "você finalmente entendeu."

Um silêncio absoluto preencheu a sala de ambos os lados da linha.

Bruno continuou, a voz firme, quase gentil:

"Cinco governos surgiram e caíram desde que sua nação percebeu que eu tinha colocado uma mão em sua maquinaria. Por trinta anos esperei que alguém, qualquer um, entre vocês, visse o formato do meu plano. Metade da minha vida desperdiçada na cegueira de vocês, e meus melhores anos…."

Deixou as palavras assentar.

"Imagine minha decepção, Franklin", disse Bruno suavemente, "que mesmo agora… você ainda precise perguntar por quê."

A ficha de Roosevelt rangeu na sua mãos, enquanto ele apertava o receptor com força.

Bruno permitiu-se uma risada baixa, fria, sem alegria, sem malícia. O som de um caçador ao final de uma armadilha que se fecha exatamente como planejado.

"Hughes descobriu apenas uma das minhas táticas", disse calmamente. "Você limpou um terço dos meus ativos quando se autoproclamou ditador. Ainda assim, acreditou, de verdade, que isso acabaria comigo?"

Uma pausa. Pesada. Asfixiante.

"Um mago nunca revela todos os seus segredos."

A respiração de Roosevelt tremia audivelmente.

"Você… está ouvindo mesmo agora?" ele sussurrou.

Bruno sorriu, não com amabilidade, não com crueldade, mas com um conhecimento profundo.

"Tenho ouvido desde que sua República ainda era jovem, e achava-se invencível."

Ele colocou seu bourbon de lado, com um tilintar preciso.

A próxima pergunta de Roosevelt saiu de sua garganta com visível dificuldade.

"Por quê?"

Bruno fechou os olhos por um momento. Não por tristeza… mas por algo mais silencioso. Mais velho.

"Por que você?", murmurou Bruno. "Por que seu povo? Por que sua nação?"

Ele respirou lentamente.

"Uma pergunta tão simples… e uma resposta que você não sobreviveria."

A voz de Roosevelt triscou.

"Diga mesmo assim."

Bruno soltou um suspiro suave, quase de luto.

"Você lembra da Cassandra?", perguntou. "A prophetisa amaldiçoada não porque errou, mas porque via uma verdade que os mortais não suportariam."

A respiração de Roosevelt ficou entrecortada.

"Você", continuou Bruno, "não pôde suportar a verdade que carrego."

Então, o tom de Bruno mudou. Ele se endireitou na cadeira, com as costas rígidas, o olhar distante.

"Mas isso não importa, Franklin. Você já perdeu."

Roosevelt fez um som, entre uma respiração e um soluço.

"Você não é mais presidente", disse Bruno. "Você é um animal encurralado. E qualquer caçador que se preze sabe que não se ataca imprudentemente uma criatura que foi levada a esse ponto de desespero."

Ele deu a Roosevelt um instante para sufocar sob a verdade.

"Então, que história você vai contar ao seu povo agora?", perguntou Bruno. "Que mentira vai usar para anestesiar o orgulho deles? Que ficção vai criar para acalmar uma nação que só hoje descobriu que está morrendo?"

Roosevelt tremeu.

Depois, Bruno falou, em um tom mais baixo, envelhecido, quase mítico:

"Deixa eu te perguntar uma coisa, Franklin."

A linha fez um zumbido.

"Se você soubesse, com absoluta certeza, que seu vizinho um dia iria à sua casa… quemimar tudo até virar cinzas… assassinar sua família não uma, mas duas vezes… e depois salgar a terra de modo que nada pudesse germinar novamente…"

A voz de Bruno caiu num sussurro reverente.

"…você esperaria ele atacar?"

Roosevelt não conseguiu responder, não porque se recusasse, mas porque de repente entendeu que não poderia.

"Ou", prosseguiu Bruno suavemente, "passaria todas as horas desperto planejando sua derrota bem antes que ele fosse capaz de levantar a mão?"

A linha ficou silenciosa, quase mortal.

Então, Bruno pronunciou as palavras que Roosevelt se lembraria pelo resto da vida:

"Algumas feridas, Franklin, não pertencem a esta vida."

Uma leve badalada seguiu-se enquanto Bruno levantava seu copo novamente.

"E alguns inimigos", acrescentou, "não merecem uma terceira chance."

Roosevelt engoliu em seco, a garganta apertada.

A voz de Bruno mudou mais uma vez, deixando de ser a de um estrategista ou caçador, para parecer algo mais antigo, mais eterno.

"Meu Pai Celestial me colocou neste mundo por um motivo", murmurou Bruno. "Não pretendo conhecer a vontade dele. Apenas a carga que Ele colocou sobre meus ombros."

Roosevelt ficou imóvel, a mistura de descrença e terror tomando conta.

"Um homem nas minhas condições não tem o luxo de escolher outro caminho", disse Bruno. "Você lamenta que eu o tenha ferido… mas não entende."

Sua voz se tornou rígida, cristalina e fria.

"Fazer nada seria cometer o maior pecado de todos. Ficar parado sabendo no que sua República se tornaria… Quais pecados ela cometeria neste mundo… Isso me condenaria muito mais do que qualquer coisa que tenha feito nesta vida."

Roosevelt sentiu a sala inclinar, a realidade escorregando.

Bruno colocou seu copo vazio na mesa, com uma calma cirúrgica.

"Não escolhi isso por maldade, Franklin. Recebi um dever da providência, do destino, dos céus mesmos, se você acredita nessas coisas."

Uma pausa.

"E vou cumpri-lo até o fim."

Um clique suave.

A linha caiu.

Roosevelt ficou paralisado, a mão ainda no receptor, incapaz de respirar, incapaz de se mover. Não sabia se tinha conversado com um louco… ou com um profeta.

Mas conhecia a verdade.

Seja qual fosse Bruno…

A América não sobreviveria a ele.

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