Re: Blood and Iron

Capítulo 723

Re: Blood and Iron

Os anos se passaram, e com eles a guerra que consumiu o mundo.

Na primavera de 1939, as armas silenciaram.

A França baixou a cabeça.

A Grã-Bretanha, despojada de sua marinha, de seu ouro e de seu orgulho, capitulou.

As bandeiras de rendição pendiam moles ao vento costeiro, e o Reich permanecia intocado pelo lado ocidental do Velho Mundo.

Pela primeira vez em décadas, Bruno von Zehntner não tinha mais nada para mandar.

Ele caminhava pelo pátio de sua propriedade na região dos Alpes, com as mãos entrelaçadas atrás das costas, ouvindo o som lento da água que escorria da fonte.

O último suspiro de inverno havia desaparecido, deixando o cheiro de terra descongelada e pedra aquecida pelo sol da manhã.

O mundo mudava ao seu redor, novamente, e na água parada via o reflexo de um homem que havia sobrevivido a quase todos que tentaram pará-lo.

Um rosto marcado, envelhecido, mas que não se curvara.

O cabelo dourado, que um dia brilhara sob as bandeiras de Berlim, agora se tornara prateado; os olhos que antes queimetavam como aço ao brilho do fogo tinham esfriado ao cinza do entardecer.

Nesse inverno, completaria sessenta anos.

E embora sua postura permanecesse nobre e firme, havia agora algo vazio por baixo, como o eco de uma catedral muito depois do término do hino.

Ele estudou seu reflexo em silêncio até que uma voz, familiar e carregada de nostalgia, se fez ouvir pelo pátio.

"Bruno von Zehntner… como eu vivo e respiro. Meu Deus, você mal envelheceu. Cheguei a imaginar que encontraria um velho relíquia cambaleando pelo jardim, e veja só, aqui está você, o mesmo príncipe que uma vez roubou meu coração."

Bruno se virou.

Lá, iluminada pela luz do sol que atravessava os arcos, estava a Princesa Victoria-Louise da Prússia, outrora a jovem radiante do corte do Kaiser, agora moderada pelos anos e experiência.

Um sorriso apareceu em seus lábios. "Parece que o tempo foi mais gentil conosco do que merecemos. A que devo a honra, Princesa?"

Ela riu, suave, sabendo. "Meu pai manda me trazer. Ele quer falar sobre uma possível união entre meu filho mais velho e uma de suas netas. Diz que você pode estar aberto à ideia."

Bruno levantou uma sobrancelha, meio incrédulo, meio divertido.

"Seu filho tem vinte e cinco anos. Por que ainda não encontrou uma noiva, ou não foi forçado a se casar?"

Victoria-Louise se aproximou, seu casaco deslizando suavemente pelos mosaicos.

Sua expressão carregava a arrogância natural de alguém acostumada ao poder, suavizada apenas pelo carinho.

"Porque, querido Bruno", ela disse com um sorriso suave, "o mundo mudou. Os velhos costumes desaparecem com nossa geração. Casamentos feitos na infância agora são relíquias. A maioria das casas nobres promete suas filhas ao atingir a idade, a homens já testados, homens com poder. Os seus netos mais velhos já estão maiores, e meu filho seria uma boa combinação."

Ele a observou por mais um momento, depois expirou pelo nariz, com um som cansado, mais de riso frustrado do que de humor.

"Muito bem. Converse com Heidi. Ela cuida da casa, e decidirá o que é melhor para nossa linhagem. Mas", seu tom virou uma ironia, "ela ainda pode guardar rancor de você. Você deixou bem claro seus sentimentos uma vez."

Um leve rubor cobriu as bochechas da Princesa.

Ela se lembrou da juventude ingênua, dos rumores sussurrados, do jeito que, por uma imprudência juvenil, tentou difamar seu bom nome.

Recuperando o que restava de compostura, inclinou a cabeça. "Então, vou ser cuidadosa. Foi uma honra vê-lo novamente, Bruno. Você tem meu respeito… e minha inveja."

Ela virou-se, o som de seus saltos desaparecendo no corredor até que o pátio estivesse em silêncio novamente.

Bruno permaneceu ao lado da fonte, observando as ondas que distorciam seu reflexo. Um suspiro suave escapou dele.

"Parece que até eu não consigo evitar que tudo mude. Mas enquanto a estrutura resistir, enquanto os ossos da ordem permanecerem, o espírito do velho mundo não voltará para assombrar minha linhagem."

Seu olhar vagou para oeste, além das cadeias de montanhas, além do mar, em direção a um horizonte invisível a olho nu, mas vívido em sua mente.

Do outro lado daquele oceano, repousava a única potência ainda intacta: uma nação de engenheiros e idealistas que se recusava a desaparecer.

Os Estados Unidos da América.

Ainda sob o comando rígido de Roosevelt, continuavam existindo como um vestígio de uma nova e fracassada fé, a devoção à liberdade sem disciplina, a liberdade sem lei. A mandíbula de Bruno se tensionou.

Ele tinha visto a corrupção se manifestar em sacrilégio na sua vida passada. Como os ideais americanos, disseminados com uma lâmina pelo mundo, tinham levado quase ao colapso total da ordem.

Como a sociedade decaiu, seus valores corrompidos, onde a degeneração era cultuada como virtude, e a virtude condenada como heresia.

Ele nunca permitiria que um destino assim recaísse sobre o mundo novamente.

Ele lutou toda a vida para evitar isso. Em tantas guerras e décadas de experiência, defendeu-se contra a decadência do pensamento iluminista.

E embora Roosevelt tenha surpreendido ao agir com decisão, salvando sua república por meio da tirania, ele sabia que a doença americana era mais profunda que a determinação de um só homem.

"Não", murmurou Bruno, "não pode se perpetuar. Não assim."

Ele caminhou até a borda do pátio, onde as montanhas se perdiam na névoa.

O aroma de pinho e neve distante preenchia o ar.

Para a maior parte da Europa, a guerra tinha acabado.

Para Bruno, ela tinha apenas entrado em sua próxima fase.

As armas estavam caladas, mas a verdadeira batalha, a guerra de ideias, de civilizações, ainda nem tinha começado.

O Reich havia destruído exércitos; agora, iria moldar o próprio mundo.

Ele pensou nos filósofos do Iluminismo, cujas palavras haviam inspirado repúblicas e revoluções.

Eram os arquitetos da decadência: homens que confundiam sentimento com força, que acreditavam que a razão poderia substituir a disciplina.

Seus seguidores em Washington ainda acreditavam nesse credo, convencidos de que a democracia poderia coexistir com a sobrevivência.

Ele sabia que não.

"Paz", disse em voz baixa, "nunca foi uma opção."

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