Re: Blood and Iron

Capítulo 697

Re: Blood and Iron

Versailles já não ecoava mais com a sofisticação dos pés reais ou as conversas ociosas dos cortesãos perfumados.

Os grandes salões estavam alinhados com guardas alemães vestidos com uniformes camuflados, carregando fuzis de assalto.

As bandeiras do Reich tinham substituído a tricolor.

Do lado de fora, os jardins estavam estranhamente silenciosos, nenhum passo de turistas, nenhum cochicho de amantes.

Apenas o zumbido de motores blindados ao longe e o som ritmado das botas ordenadamente marchando.

Dentro da Galerie des Glaces, três homens estavam sentados sob os murais dourados que celebravam a glória de Lucas XIV:

Wilhelm II, o imperador envelhecido da Alemanha, sentado com a expressão de um senador romano triunfante.

Bruno von Zehntner, vestido como um oficial de campanha, e silencioso, de pé atrás de seu Kaiser como uma espada prestes a ser desembainhada.

E ao centro, usando um casaco azul real feito sob medida, bordado com lírios dourados e uma faixa prateada cruzando seu peito, estava Henri d'Orléans, o recém-coroado Rei Henrique VI da França.

Seu rosto carregava uma expressão que era mistura de orgulho e desconforto, como se a coroa encaixasse com facilidade demais, e isso por si só já a tornava suspeita.

Bruno falou primeiro.

"O exército precisa ser desmantelado."

Henrique piscou. "O exército francês?"

Bruno fez uma leve cabeça. "Você não vai precisar dele. Não do jeito que existia antes."

O Kaiser riu suavemente e fez um gesto com o porta-cigarros.

"O que Bruno quer dizer, Majestade, é que o exército da república nunca foi seu. Era deles. Uma máquina construída para preservar a república... não a coroa."

Bruno continuou,

"Vamos aproveitar o que for possível. Armamento leve, veículos de reconhecimento, aviões de ligação, navios de patrulha. Para a gendarmaria e na defesa interna. Mas nada de artilharia de campanha. Nada de tanques pesados. Nada de bombardeiros estratégicos. Nada de submarinos. Esses serão... realocados. Para inspeção. Para nossa segurança coletiva."

Henrique olhou para suas mãos de luvas. "E os homens?"

"Aqueles fiéis à monarquia," respondeu Bruno, "serão mantidos. Avaliados. Re treinados. Re equipados sob uma nova doutrina."

"E os fiéis à república?"

Houve um silêncio longo.

Wilhelm II virou-se para uma janela, observando a bandeira imperial da Alemanha ao lado, onde antes tremulava a francesa.

A voz de Bruno foi baixa.

"Alguns vão emigrar. Outros irão... resistir. O restante será incentivado a abraçar uma educação mais clássica."

Henrique engoliu o nó na garganta. A coroa que usava parecia mais pesada a cada minuto.

Bruno levantou-se e caminhou até o centro da sala, onde havia um mapa dourado da Europa sob uma camada de vidro.

Ele tocou na França com o dedo de luva.

"Você não é apenas um rei renascido, Henrique. Você é o símbolo da nova ordem. França renascida das cinzas e do aço. Chega de liberdade. Chega de confusões parlamentares. Chega de bandeiras vermelhas nas ruas. A Coroa volta com a espada às costas. E eu pretendo fazer com que isso permaneça assim."

Wilhelm sorriu de lado. "O rei da França já não está mais só. Agora, ele está ao lado de irmãos. Com imperadores. Com reis, e príncipes..."

Henrique finalmente levantou o rosto. "E, ainda assim, meu país está ocupado."

Bruno virou-se e fixou olhar nele.

"Ocupado, sim. Mas não enslavo. Comande bem, Henrique, e os franceses aprenderão a te respeitar mais do que amaram alguma vez a República. Essa é a língua da sobrevivência neste novo mundo."

Ele fez uma pausa. Depois, em voz baixa:

"Se você não governar com força… eles vão voltar."

A palavra "eles" pairou no ar como fumaça do cigarro de Wilhelm. Todos sabiam quem ele queria dizer.

Henrique permaneceu em silêncio por um longo tempo.

Quando falou, foi com a resignação cansada de alguém que entrou na própria prisão dourada.

"Então, vamos começar."

Bruno assentiu, deu um passo à frente e entregou o primeiro decreto, já impresso e encadernado.

Edito Real I: Reorganização da Gendarmeria Real e da Segurança Armada do Reino da França.

As canetas já estavam na mesa. O trono não tinha volta. O novo Reino nasceria não em mármore, mas em cinzas.

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Sob os ossos fragmentados da República, numa adega cheia de fumaça, em algum lugar perto de Tours, uma dúzia de homens se reunia em volta de uma mesa de madeira torta.

O ar estava carregado de suor, cigarros e do medo que surge quando a história fecha uma porta.

Uma bandeira tricolor, gastos, manchada de fuligem e buracos de bala, pendia atrás deles.

Um homem, uma figura magra, bigoduda, com traços agudos e olhos ainda mais afiados, permanecia no centro.

Coronel Philippe Leclerc, leal a de Gaulle, à França antiga.

Ele bateu forte a mão na mesa.

"Vamos para a Grã-Bretanha. O General pode estar morto, mas as alianças que ele criou ainda são fortes. Outras nações vão precisar de nós se quiserem montar uma força na terra dos franceses! Ainda há tempo… se nos movermos esta noite."

Um oficial mais velho e careca sacudiu a cabeça. "E quantos vocês vão levar? Vinte homens? Trinta? Os alemães controlam portos, ferrovias, o céu. Seremos devorados como ratos antes de cruzar o Loire."

"Então, lutamos pra sair."

"E morrer como idiotas?" outro retrucou. "Bruno destruiu o exército. A Força Aérea está sendo desfeita. Versailles agora tem um rei. Um rei, pelo amor de Deus."

Um jovem, não mais que vinte anos, inclinou-se para frente. As mãos tremiam enquanto acendia outro cigarro.

"Talvez… talvez devêssemos esperar. Ver como fica a nova França. Esse Henri d'Orléans… não é Napoleão. Pode ser um fantoche… mas é francês. Não um príncipe alemão. Nem um invasor estrangeiro. Talvez seja melhor ceder do que resistir."

O olhar de Leclerc era como gelo.

"É assim que a tirania sobrevive. Bons homens convencendo-se de que ceder é sabedoria."

"Mas por que estamos lutando?" alguém murmurou. "A República morreu. O povo vibra quando chegam os caminhões de comida, com comida estampada com a Águia Negra da Prússia. Já vi homens trocarem seus broches tricolores por cocares monarquistas, só para manter as lojas abertas. Talvez o povo queira um rei de novo. Muitos de nós ainda lembram o que aconteceu quando os alemães nos deixaram à solta em 1916…."

Uma silêncio pesado caiu sobre a mesa, como um pano de funerária.

Do lado de fora, o rufar distante de meio tanques ecoava pelas ruas.

Botinas alemãs. patrulhas da Gendarmaria Real.

A França, renascida, não com liberdade, igualdade, fraternidade, mas com lei, ordem, estabilidade, hierarquia e a bandeira dos reis retornados do exílio.

Um homem, mais velho que os demais, finalmente sussurrou:

"Se partirmos… talvez sejamos poupados. Se lutarmos… talvez sejamos martirizados. Mas se nada fizermos… se nos rendermos… então a história vai nos esquecer. E nossos filhos usarão coroas não de ouro, mas de correntes pintadas com as cores da monarquia."

A vela piscou.

Leclerc assentiu lentamente. "Que a história nos lembre. Como homens que ficaram à sombra de tronos… e não se curvaram."

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