Re: Blood and Iron

Capítulo 621

Re: Blood and Iron

Franklin Roosevelt encarou os papéis sobre sua mesa.

Havia se passado menos de três meses desde Bern. Menos de três meses desde que ele deu as costas para aquela mesa, convicto de ter jogado uma mão vencedora.

Agora, a mão estava bem diante dele: apenas ases e oitavos.

Todos os nomes que seus departamentos investigaram, prenderam, até executaram por traição e espionagem… inocentes.

A "evidência" que os derrubou? Forjada desde o começo.

Ele não podia admitir isso. Nem ao Congresso, nem à imprensa, nem mesmo ao seu próprio gabinete.

Isso o destruiria. Seu partido. Seu país.

Bruno tinha levado a armadilha por ele preparada e virou tudo do avesso, usando a própria mão de Roosevelt para varrer os últimos homens capazes de bloquear sua tomada silenciosa das indústrias, infraestrutura e alavancas de poder político dos Estados Unidos.

Roosevelt sabia disso. Podia até deduzir as empresas-fantasma e as subsidiárias offshore que agora detinham os ativos que antes eram americanos. Mas a prova? Essa era a parte que o matava. Não havia nenhuma.

Seu temperamento começava a se acender quando uma batida na porta interrompeu seus pensamentos.

"Senhor Presidente… O ex-presidente Hughes tem uma reunião marcada para às dez e meia. Deseja que eu rechedule—"

Uma voz grave interrompeu a assessora.

"Dê um passo atrás, moleque. Eu já estava nesta cadeira oito anos antes de você nascer."

A porta se abriu, e Charles Evans Hughes entrou, ainda com ombros largos, mesmo aos seus mais de setenta anos.

Ele não esperou convite, atravessou o tapete e se acomodou na cadeira do lado oposto a Roosevelt com toda a cerimônia de quem se senta à sua própria mesa de cozinha.

"Não precisa se levantar por minha causa, Franklin."

Roosevelt cerrava a mandíbula. Hughes era um de seus antecessores mais antipáticos, o homem que manteve a América fora da Primeira Guerra Mundial por completo, e, se os arquivos fossem confiáveis, tinha sido excessivamente próximo de Berlim durante o processo.

"O que você quer, Hughes? Além de uma visita sem aviso prévio?"

O velho estendeu a mão para um decantador de cristal, virou uma dose de conhaque importado, provou, fez cara de desagrado e trocou pelo rascunho de bourbon de origem desconhecida na cuia de couro em seu casaco.

"Ouvi dizer que você anda passando tempo com meu velho amigo de Tirol."

Roosevelt congelou. O nome não foi dito... não precisava ser. Os olhos de Hughes disseram claramente.

E ambos sabiam que o Salão Oval não era um lugar seguro para dizer certas coisas em voz alta.

"Aquele lá…" Hughes recostou-se, saboreando o bourbon. "Me venceu no xadrez aqui mais vezes do que posso contar. Sempre dez passos à frente. Faz Newton parecer um garoto da escola. Mas não é ciência que ele vive, é guerra… e política."

Roosevelt tirou os óculos, dobrando-os lentamente. "O que você está dizendo?"

Hughes deixou o frasco na mesa, enfiou a mão no bolso e colocou um pequeno cartão sobre a mesa. Sua voz estava quase cansada.

"Digo que, se você acha que fechou a jogada contra ele, já está em xeque-mate. Você só não percebe ainda."

Ele virou-se e saiu sem mais uma palavra.

Roosevelt olhou para o cartão por um longo momento antes de pegá-lo.

Não é seguro falar aqui. Os alemães têm olhos e ouvidos por toda parte. Memorize o endereço abaixo. Encontre-me lá à meia-noite. Queime este cartão quando terminar.

Seu primeiro instinto foi jogá-lo na lixeira. Hughes era um velho amarga e teatral.

Mas as últimas palavras antes de a porta se fechar retornaram a ele, e um frio se instalou no estômago.

Sua vista se eternizou na ficha do telefone de discagem rotativa preto no seu escritório. Imaginou a linha indo direto para um escritório em Berlim.

"Não," ele sussurrou. "Não pode ser…"

Memorizou o endereço, acendeu um fósforo e assistiu ao papel se curvar até virar cinza na bandeja.

Se Hughes estivesse certo, então os Estados Unidos, talvez o mundo dito livre inteiro, já estavam jogando as últimas jogadas de um jogo que nem sequer sabiam que tinham perdido.


A neve cobria espessa os pinheiros, abafando o mundo na quietude que fazia a cabana antiga parecer o último lugar habitado na Terra.

Não passavam linhas de energia até ela. Nem postes telefônicos. A única luz vinha do fogo que Hughes alimentava, as chamas crepitando como se aguardassem ansiosamente pelo próximo tronco.

Do lado de fora, homens do Serviço Secreto patrulhavam o perímetro escuro em casacos pesados, o sopro formando névoa na frios do ar.

Dentro, eram apenas dois presidentes: um aposentado, outro encurralado, e o cheiro de fumaça e pinho cru.

Hughes não ofereceu cadeira a Roosevelt. Simplesmente permaneceu de costas, com um poker na mão, empurrando brasas no fogo antes de dar um gole lento em um pote de vidro transparente.

O sabor forte de cachaça preenchia a sala.

"Está conectado, Roosevelt," Hughes disse finalmente, sem se virar.

Os olhos de Roosevelt se estreitaram. "O que está?"

Hughes então se virou, a luz da fogueira acentuando as linhas no rosto enrugado. "Tudo. O Escritório Oval. O Pentágono. O Capitólio. Todos os prédios governamentais, de D.C. às cortes federais na Califórnia. Quando percebemos, já era tarde."

Ele se aproximou da mesa, colocou o pote e se apoiou com as mãos.

"Os contratados que contratamos para instalar as linhas telefônicas, os sistemas de telégrafo, os cabos seguros, todos de propriedade dele. Ou de empresas controladas por ele. Concha dentro de concha."

Roosevelt sentiu o estômago ficar amarrado, mas não interrompeu.

"Cada ligação que você fez," Hughes continuou, com a voz baixa e firme, "cada conversa atrás de uma porta fechada, cada projeto de lei discutido no comitê, cada decisão sussurrada entre juízes, tudo foi transmitido, palavra por palavra, direto ao serviço de inteligência de Berlim." Ele fez uma pausa, deixando a informação pesar no ar. "E, de lá, direto para a sua mesa em Tirol."

O fogo crepitou alto na lareira, mas nenhum dos dois se mexeu.

"Eles sabem de tudo," Hughes disse. "Não só o que você fez. O que vai fazer. Até o momento em que decidir um movimento, ele já viu, planejou e decidiu como virar a seu favor."

Roosevelt respirou lentamente, a única pista de que tinha estado segurando o ar. "Você está dizendo que não há jeito de impedir isso?"

Hughes voltou ao frasco, deu mais um gole e sorriu, sem humor.

"Você não impede. Você trabalha sabendo que ele está ouvindo. Você conversa com o homem que quer que ele pense que você é, e age como o homem que ele não espera. Qualquer outra coisa…" Ele deu de ombros.

"Você é apenas mais uma peça no tabuleiro dele."

O vento uivava lá fora, sacudindo as persianas, e, pela primeira vez naquela noite, Roosevelt sentiu o calor da lareira como algo distante e inútil.

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