
Capítulo 601
Re: Blood and Iron
O Palácio de Versalhes estava silencioso.
Não o silêncio solene de cerimônias ou de reflexão.
Mas a quietude opressiva de um mausoléu, onde até mesmo as paredes pareciam lamentar a perda recente.
O-general Charles de Gaulle permanecia sozinho em seu escritório particular, com os braços cruzados atrás das costas, seu reflexo longo e distorcido na janela embaçada pela chuva à sua frente.
Do lado de fora, Paris chorava.
Uma chuva incessante desenhava faixas na vidraça, como se os céus quisessem lavar a vergonha.
A Espanha havia caído.
E, com ela, a última esperança contra o inevitável.
Relatórios chegaram na madrugada. Não filtrados por diplomatas ou amenizados por assessores de imprensa.
Não, eram relatos crus, brutais, enviados direto do front, compilados pelos últimos agentes franceses em operação.
Barcelona havia capitulado sem um cerco prolongado.
O comando republicano havia se desintegrado.
Voluntários franceses haviam fugido ou se rendido.
As brigadas internacionais estavam desorganizadas. E a bandeira monárquica agora tremulava acima de todos os ministérios e avenidas na Catalunha.
O que doía mais do que a derrota… era o quão decisivas tinham sido todas aquelas ações.
Como eram limpas. Como eram eficientes.
Como alemãs.
De Gaulle virou-se do lado da janela e olhou para o grande mapa estendido sobre a mesa atrás de si.
Ele o observou por horas, enquanto França e seus vizinhos estavam desenhados em tons pálidos.
A fronteira já não o tranquilizava.
Ao norte: Bélgica e Países Baixos, ambos neutros em teoria, mas cada vez mais ligados a Berlim por comércio e acordos silenciosos.
Ao leste: Alemanha, ampliada pela anexação da Áustria, Luxemburgo, Liechtenstein e partes da Borgonha, que agora tinham fronteira direta com França através de Alsácia-Lorena e Borgonha.
Ao sudeste: Itália, outrora uma incógnita, agora firmemente dentro do bloco econômico alemão, tendo colhido os frutos da campanha na Espanha.
E, se a participação deles na Guerra Civil Espanhola era algo a se observar, também tinham se alinhado militarmente ao Reich alemão.
Isso era de se esperar após o casamento do príncipe herdeiro da Itália com Anna, filha de Bruno.
E agora, ao sul: Espanha, que antes era parceira, agora totalmente no campo alemão.
Não apenas politicamente, mas ideologicamente. Estratégica. Militarmente.
França estava cercada.
E Charles de Gaulle tinha plena consciência disso.
uma batida na porta interrompeu o momento.
Ele não se virou.
A porta se abriu de qualquer forma.
Era o marechal Alphonse Georges, com a chuva ainda reluzindo no casaco, o capote sob um braço. Ele hesitou no limiar.
"Você já ouviu?"
De Gaulle assentiu.
"Sente-se," ordenou de maneira seca.
O marechal obedeceu.
Ficaram em silêncio por um longo tempo.
Apenas o som rítmico da chuva e o leve zumbido do aquecedor elétrico quebriam o silêncio.
Por fim, Georges falou.
"Nossos analistas confirmam. Blindados pesados fornecidos pelos alemães lideraram o avanço pelos picos do oeste. Elementos da Legião Internacional reforçaram as unidades monárquicas, sim, mas ficaram na retaguarda. A ofensiva foi planejada, abastecida e executada por forças espanholas."
De Gaulle olhou fixo para o fogo, com voz baixa.
"O que significa que os alemães não precisam mais lutar as guerras eles mesmos."
Georges fez uma expressão de reprovação. "É pior do que isso. Criaram uma doutrina que pode ser exportada. Fidelidade política, disciplina militar, apoio econômico. Embale tudo direito, e qualquer monarquia ou império falho vira um Estado cliente."
"A Espanha nunca deveria ter caído," disse de Gaulle calmamente. "Ela devia sangrar, comprar-nos tempo, manter a atenção alemã no exterior enquanto nos reconstruíamos em casa."
"Você interpretou mal," disse Georges suavemente.
A mandíbula de de Gaulle se apertou. "Não. Nós interpretamos mal. Todos nós. Pensávamos que poderíamos guiar os republicanos para uma ordem mais branda, um aliado surgido da necessidade, não da ideologia."
Ele deu um passo à frente e tocou com o dedo o mapa.
Os Pirineus, agora pouco mais que uma lembrança.
"E agora estamos sozinhos."
Mais silêncio.
"América?" perguntou Georges.
De Gaulle balançou a cabeça. "Roosevelt enfrenta revolta em casa. Apostou na Espanha e perdeu. Não arriscará outro confronto agora. Ainda mais com os caixões chegando da Espanha e das Filipinas."
"Os britânicos?"
"Ainda fingem que podem apaziguar o Reich com diplomacia e acordos comerciais. Falarão contra, emitir-ão declarações. Mas não marcharão para a Espanha. Não depois de tudo isso."
Georges se inclinou para frente. "Então, o que fazemos?"
De Gaulle fixou o olhar nas linhas vermelhas e azuis cruzando o mapa, com a voz vazia.
"Vamos nos preparar para seguir sozinhos."
Mais tarde, naquela noite, o presidente francês se apresentou diante dos jornalistas, com o rosto talhado em mármore.
Ele não falou diretamente sobre a Espanha.
Em vez disso, discursou sobre "soberania", "dever" e "o grande fardo da civilização em um mundo em chamas".
Prometeu que a França nunca cederia, nunca se renderia, nunca se ajoelharia diante da tirania ou do totalitarismo.
Convocou o povo francês a manter-se firme, a acreditar na República, a perseverar.
O aplauso foi cortês.
Mas o silêncio que se seguiu foi mais alto.
Nessa noite, enquanto a tempestade rugia além das muralhas do Élysée, de Gaulle escreveu uma frase no seu diário:
"As sombras se alongam, e o círculo se fecha. Não temo guerra. Temo a irrelevância."
Ele fez uma pausa e acrescentou:
"Haverá um acerto de contas. A única dúvida é quando, e se enfrentaremos isso com a espada em punho ou com as mãos vazias levantadas em protesto inútil."