Re: Blood and Iron

Capítulo 436

Re: Blood and Iron

Do outro lado do Atlântico, uma tempestade se formava perto do Rio Grande — rio que servia como uma barreira natural entre os Estados Unidos e o mundo latino além dele. Conflitos fronteiriços tinham se intensificado nos últimos anos, sendo o mais notorioso a invasão de Pancho Villa, que se atreveu a liderar incursões em território norte-americano.

Porém, nesta linha do tempo, os Estados Unidos não eram a potência militar-industrial global em ascensão que começaram a parecer na segunda metade do século XIX. As ambições de Teddy Roosevelt de criar um Império Americano de projeção mundial foram abortadas, sufocadas por seus sucessores mais isolacionistas.

Mais uma vez, o eleitorado preferira a retirada à expansão. Enquanto os mercados americanos reabriram com cautela para o mundo, suas colônias no exterior eram cada vez mais vistas como relíquias onerosas — especialmente com as preocupações internas crescendo na fronteira mexicana.

Ironicamente, foi após os Jogos Olímpicos de Berlim, e a resolução do conflito entre húngaros e romenos, que até os setores mais isolacionistas do governo dos EUA começaram a sentir o peso da irrelevância. O mundo seguia em frente — e sem eles.

Esse era o núcleo do orgulho americano: a ilusão de que algum dia foi equivalente aos impérios europeus. Não era — pelo menos até 1945, quando um mundo pós-guerra diferente permitiu que a América surgisse das cinzas praticamente intacta.

Mas aqui? Em 1918?

Os Estados Unidos eram mais uma província isolada do que até mesmo a Rússia. Cheios de potencial, sim. Mas ainda uma vasta adolescência desajeitada — forte fisicamente, inexperta na alma.

No entanto, esse potencial estava prestes a entrar em combustão.

As Filipinas, sob controle dos EUA, enfrentavam duas ameaças imminentes. Primeiramente, o Império do Japão, que conquistou grande parte do Sudeste Asiático durante a Grande Guerra e agora olhava com fome para as ilhas. Em segundo lugar, a crescente onda de sentimento revolucionário internamente.

A Insurreição nas Filipinas tinha terminado há menos de vinte e cinco anos — mas suas brasas ainda ardiam. Com as colônias britânicas e francesas ao redor do mundo em chamas, falar em uma nova revolta em Manila já não era mais teoria.

Porém, desta vez, as coisas eram diferentes.

O Pacífico estava inundado de armas excedentes após a guerra. Contrabandear armamento para as Filipinas não era apenas possível — era inevitável. E, logo, os clamores por liberdade poderiam se transformar novamente em aço e fogo.

De longe, Bruno observava. Pensativo. Silencioso.

Do seu ponto de vista, só havia duas possibilidades decorrentes dessa inevitabilidade. Uma insurreição de grande escala poderia fazer os Estados Unidos recuarem de suas possessões no Pacífico — ou, se ele tivesse azar, a guerra poderia forçá-los a militarizar, industrializar e se tornarem a ameaça que Bruno lembrava de sua antiga vida.

De qualquer forma, seus planos estavam engessados. Com a descolonização na Mittelafrika já em andamento, Bruno mal podia condenar levantes anticoloniais em outros lugares — especialmente enquanto financiava um deles às escondidas. O risco de ser descoberto superava qualquer recompensa.

E assim, só lhe restava permanecer na sua sala, olhando o globo próximo à esquina da mesa. Ele o girou lentamente, como se tentasse prever o futuro a partir de seu eixo. Uma longa exalação escapou dos seus pulmões.

Depois, ele abriu uma gaveta e retirou uma pasta marcada com uma aba vermelha.

Dentro, tinha uma fotografia. Pancho Villa, com um rifle na mão, sorrindo como um rei bandido. O homem que levou o Exército dos EUA à Revolução Mexicana — uma guerra que já vinha desde 1910.

Bruno conhecia bem o que a história reservava: um lento colapso do México em caos fracionado. Mas também sabia que o Grupo Werwolf da Alemanha — seus mercenários paramilitares secretos — não poderia agir unilateralmente nas Américas. Não sem provocar a Doutrina Monroe e a força total da retaliação americana.

Ainda assim... opções existiam. Bruno, no fim, estendeu a mão até a gaveta do escritório onde encontrou uma garrafa de vodka, presente do próprio Tsar na sua última visita à Rússia. Já estava quase na metade.

Nesses anos, essa batalha teria sido resolvida em uma semana. Agora, já se estendia por meses, talvez quase um ano, com apenas vestígios da cor clara do líquido desaparecendo lentamente.

Mas se havia uma hora certa para beber algo forte, essa hora era agora. Bruno abriu seu mini frigorífico no escritório, que usava para manter suas bebidas geladas.

Pegou alguns cubos, colocou-os com cuidado no copo e completou com vodka. Depois de um gole, degustando a bebida limpa, fresca, tão suave que parecia água, Bruno pegou o telefone rotatório na mesa. Discou um número que sabia de memória — mas que nunca usava.

Ela tocou. Uma vez. Duas vezes. No quinto toque, uma secretária atendeu. Bruno se apresentou rapidamente. Verbalizar sua identidade já era suficiente para silenciar uma sala inteira.

E isso se confirmou, pois a linha ficou em silêncio absoluto do outro lado. Momentos depois, ouviu uma voz que não reconhecia — mas que sabia pertencer ao Presidente dos Estados Unidos.

"Fiquei surpreso em ouvir de você. Pelo que minha delegação informou, você não tinha interesse em falar conosco enquanto estávamos em Berlim. Então... qual o motivo do seu telefonema?"

Bruno não usou rodeios. Sua voz estava fria, direta.

"Estava curioso para saber o que planejava fazer a respeito da violência ao sul das suas fronteiras."

"Porque, se o preço for justo, conheço um grupo de profissionais capazes de acabar com essa situação — do jeito que você preferir."

Houve silêncio do outro lado.

Uma longa pausa.

O Presidente nunca imaginara que Bruno von Zehntner iria ligá-lo pessoalmente — muito menos na linha privada do Salão Oval.

E certamente não esperava que ele oferecesse uma solução mercenária para uma guerra que Washington já planejava — com relutância, relutância e plena consciência do desastre de imagem que viria após.

Mas isso?

Isso era fora do comum. Limpo. Dissoñível. E assustadoramente conveniente.

"Continue," disse o Presidente.

E assim, Bruno prosseguiu.

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