
Capítulo 309
Re: Blood and Iron
A viagem de trem de Berlim até a Transilvânia foi longa, mas prazerosa. Os filhos mais novos de Bruno e Heidi haviam nascido apenas alguns anos antes do início da guerra. E os últimos anos também não foram exatamente sem frutos.
Bruno e Heidi já tinham oito filhos, e presumi-se que, ao retornar para casa na próxima viagem, haveria um nono. A mais velha, é claro, era Eva, seguida por Erwin, que atualmente era o herdeiro de Bruno, e, por fim, Elsa, a mais jovem do primeiro grupo de filhos.
Depois vinham os três garotos do meio, chamados Josef, Heinrich e Wilhelm. Logo depois, duas meninas, Anna e Erika. Erika, que tinha nascido neste último ano, era a mais nova dos filhos de Bruno e Heidi.
Considerando que Bruno não tinha estado em casa na maior parte dos últimos dois anos, sua presença na vida dos filhos mais jovens foi bastante limitada. Isso criou uma divisão bem evidente entre eles, especialmente porque os filhos mais velhos haviam passado a maior parte da vida convivendo com o pai em casa.
Eva, Erwin e Elsa estavam agarrados ao pai, com medo de que, no momento em que ele desaparecesse, nunca mais voltassem. Eles estavam cientes do preço em sangue alemão que fora pago para vingar seus aliados austríacos, e da realeza que Deus havia consagrado como legítima governante de Österreich.
Já os filhos mais novos eram muito mais distantes, quase não conhecendo seu pai de fato na curta memória que tinham, e por isso sentiam-se mais intimidados por sua presença. Embora, para eles, ele fosse um pouco mais familiar do que um estranho, sua ausência devido ao timing ruim da guerra fazia com que não se sentissem confortáveis perto dele.
Ou pelo menos era assim nas primeiras semanas após a volta vitoriosa de Bruno dos Bálcãs. No entanto, após os meses em que ele ficou em casa e a longa viagem de Berlim até Bran, uma pequena cidade da Transilvânia onde ficariam morando durante a estadia na região, Bruno começou a ficar muito mais próximo de seus filhos mais novos.
Por fim, a família chegou a um monumento histórico: um castelo de uma época distante, que carregava um legado significativo. Pois, veja bem, o lendário Castelo de Bran foi residência da dinastia Tepes, ou seja, do infame Vlad o Empalador, que serviu de inspiração para Drácula.
Em outras palavras, esse era o castelo de Drácula, onde Bruno e sua família ficariam hospedados. Afinal, a Transilvânia não possuía um palácio moderno onde eles pudessem residir durante a permanência na Hungria.
Quando tiraram as bagagens do carro, viram as bandeiras da Áustria-Hungria ondulando numa mastoint, com as cores da Transilvânia pouco abaixo. E, vendo aquele azul, vermelho e amarelo brilhando ao vento de primavera, Bruno teve uma súbita ideia.
De direito, agora, ele tinha a capacidade de formar sua própria casa nobre, ou melhor, uma filial cadete da casa de seu avô: a Casa Von Zehntner-Siebenbürgen. Siebenbürgen é o nome alemão da Transilvânia.
Essa bandeira ao longe inspirou uma ideia para criar seu próprio brasão de armas. Ele pensou em usar um escudo com as cores da bandeira da Transilvânia ao fundo, e, sobre ele, acrescentar o sigilo de sua família: um águia negra, com bico, patas e garras douradas, olhos brancos e língua vermelha.
A águia também possuía um Kleestängel dourado, uma espécie de escudo sobre o peito, com um trevo em cada lado. Para quem quiser um exemplo, pode pesquisar as águias de Tirol ou de Brandemburgo.
Depois, pensou em colocar um escudinho menor no peito da águia, que abrigaria a bandeira da Divisão de Ferro — um fundo preto com um crânio branco, típico da era do Freikorps em sua vida passada, formando um símbolo de força e resistência.
Deveria ainda colocar uma coroa dourada na cabeça da águia, segurando um cetro com uma de suas garras e, na outra, um orbe. Na verdade, ao pensar nisso, Bruno se perguntou: isso significava que o Kaiser austríaco tinha basicamente concedido a ele um status de monarca, capaz de criar suas próprias honrarias oficiais?
Ele precisaria conversar com Franz Joseph antes que o velho morresse, pois, se fosse verdade, Bruno talvez tivesse alguma autonomia, semelhante à monarquia federal alemã. E, nesse caso, criaria uma cadeia de condecorações e ordens de mérito para si.
Enquanto refletia sobre esses planos no pátio, Bruno percebeu que, quando a Áustria-Hungria finalmente desmoronasse, nos próximos anos, ele poderia ter o direito de ser o soberano independente da Transilvânia, o que poderia colocá-lo em conflito com o próprio Kaiser.
Sem dúvida, isso complicava tudo. Além das terras na Rússia que possuía, talvez precisasse criar várias filiais cadetes de sua avó para que seus três filhos mais velhos governassem. Mas isso era uma questão para outro momento. Bruno percebeu isso quando Heidi o puxou pelo braço e o trouxe de volta à realidade.
"Que castelo encantador, embora modesto. É aqui que iremos ficar?"
Bruno acenou positivamente, segurando a mão de Heidi e beijando a palma dela delicadamente, tranquilizando-a de que ali realmente seria seu novo lar.
"Com certeza! Talvez você não perceba, mas há uma história maravilhosa escondida entre essas paredes antigas. Já foi lar de um dos monstros mais notórios da história. Agora, vamos nos familiarizar com o lugar por enquanto. Ainda há muito a fazer para cuidar da região, e tenho certeza de que, quando a guerra começar, poderei melhorá-lo de diversas maneiras!"
Heidi não sabia que aquelas eram as paredes que Vlad, o Empalador, uma vez chamara de lar, e também não se importava tanto com histórias tão antigas. Ela só tinha vontade de estar num castelo de verdade, e não num palácio moderno.
Era quase como voltar ao passado distante e revivê-lo sob sua própria perspectiva. E, ao passear pelos corredores do castelo, era exatamente essa a sensação que Heidi tinha, assim como alguns de seus filhos, especialmente os mais novos, que criavam histórias mirabolantes sobre cavaleiros, princesas, trolls e dragões.
Bruno ouviu tudo isso e riu levemente, voltando sua atenção para eles.
"Heidi, não encha a cabeça das crianças com bobagens. Estamos na Transilvânia, aqui há vampiros! Na verdade, este é o castelo que Drácula um dia chamou de lar!"
Até o rosto de Heidi ficou pálido ao ouvir essas palavras, e ela olhou para o marido como se ele estivesse pregando uma piada cruel, até perceber que ele falava sério — já tinha dito momentos antes que aquele castelo era residência de um dos monstros mais infames da história. Sua voz ficou quase tremula de medo, e ela implorou ao amado que explicasse a situação.
"Amor… Você não…"
Bruno, claro, se aproximou, segurou o queixo delicado da mulher e, com uma expressão arrogante, deu de ombros e saiu andando, deixando-a preocupada.
"O quê? Não me diga que tem medo de vampiros, meu amor? Relaxa, posso garantir que Drácula não foi uma figura histórica de verdade. O personagem dele foi apenas uma inspiração na figura de alguém que governou esse castelo. Por mais sádico que fosse, já está morto há muito tempo, pode confiar nisso."
"Olhe só para você. Você fica até adorável quando fica assustada. Pode até parecer gostoso…"
As últimas palavras de Bruno tocaram uma ferida na esposa, que fez um bico enquanto ele atravessava uma porta escura, como se sumisse nas sombras ao seu lado.
"Bruno, isso não tem graça!"
Porém, Bruno permaneceu em silêncio, continuando a caminhar na escuridão, tentando criar uma aura de mistério aterrorizante. Até que, cerca de cinco segundos depois, tropeçou numa parede que não conseguiu ver por causa da pouca luz do castelo, e, ao bater com tudo, soltou uma série de palavrões, apertando o pé de dor.
"Filho da…"
Heidi tentou segurar a risada, lembrando que os filhos mais novos estavam escondidos ao seu lado, e interrompeu Bruno antes que ele dissesse algo mais grave.
"Língua, querido!"
Então Bruno saiu de trás da sombra, fingindo que nada tinha acontecido, e insistiu em pegar velas na vila assim que possível.
"Heidi, seja uma querida e peça para nosso pessoal buscar algumas velas. Parece que ficaremos sem luz por um tempo…"
Heidi não resistiu e soltou uma risada, pensando que Bruno tinha feito aquilo para assustar ela e as crianças com uma história assustadora sobre o castelo. Ela prometeu passar as ordens aos empregados que tinham vindo com eles, para que ajudassem na estada na Transilvânia.
"Vou passar a mensagem…"