
Capítulo 158
Assassino Atemporal
(Ghost Sleep — Perspectiva de Leo)
A névoa fria e incolorida do sono dos fantasmas voltou a envolver Leo enquanto ele flutuava sem rumo dentro da memória fragmentada de sua linhagem.
Porém, diferente das visões anteriores, esta não começava com o caos ou a violência habituais.
Ao contrário: abriu-se com o ritmo dos passos ressoando por um corredor de concreto mal iluminado, suas paredes sem tinta, granuladas e trincadas, enquanto as luzes do teto piscaravam de forma irregular.
Leo pairava silenciosamente acima do chão, observando uma mulher correr pelo corredor estreito, por um momento pensando em como aquela foi a sua primeira visão com uma ancestral feminina.
Seu cabelo escuro, longo, atrás, caía lambido e desgrenhado, enquanto sua respiração era pesada e desesperada.
Ela não usava armadura como uma guerreira — ao invés disso, vestia um casaco jeans simples, manchado de sangue, cujo emblema no ombro já havia se desbotado há muito tempo.
Apesar da urgência, foi o rosto dela que despertou algo dentro de Leo.
As feições gentis, tensionadas pelo medo, mas recusando-se a se quebrar, pareciam dolorosamente familiares. A forma de sua mandíbula, a cicatriz sutil sob o olho esquerdo, o jeito de suas sobrancelhas franzirem com determinação — tudo isso raspava contra as paredes da memória vazia de Leo.
— Por que… por que olhar para ela parece… errado? Não, não errado — familiar, — pensou Leo enquanto uma dor aguda apertava seu peito.
Seu corpo tremeu levemente, embora não tivesse forma física dentro do sonho. Não era reconhecimento — pelo menos, ainda não — mas não havia como negar o vínculo que florescia, frágil, porém profundamente enraizado, à medida que ele se via incapaz de desviar o olhar.
A mulher não estava sozinha. Um homem de meia-idade, de barba espessa, corria ao seu lado, empunhando um rifle automático dilapidado. Seus passos eram pesados, mas firmes, como se estivesse acostumado a carregar a arma em batalha há muito tempo.
Mais atrás, seguiam mais três — duas meninas e um menino, todos parecendo ter a mesma idade de Leo.
Os rostos deles brilhavam brevemente sob a iluminação precária, mas seus olhos queimavam com determinação, e, em alguns casos, com medo quase invisível.
— Eles estão segurando Leo na enfermaria três! Precisamos virar à esquerda na próxima rua! — o garoto gritou sem fôlego, liderando o grupo.
Enquanto isso, Leo, ainda invisível, estremecera ao ouvir o nome.
— Leo…? —
Sua sobrancelha se franziu.
— Meu nome? Isso é comigo? Ou… Leo é só mais um ancestral? —
O pensamento o incomodou.
Não era estranho. O sono dos fantasmas sempre lhe mostrara fragmentos do passado, pedaços da história angustiante da linhagem. Nomes se repetindo através das gerações não eram impossíveis.
E ainda assim… a forma como os olhos da mulher, cheios de esperança e desespero, pareciam ecoar seus próprios medos silenciosos — a forma como cada passo dela gritava urgência, como se recuperar quem estivesse na frente fosse tudo para ela —
A leve temperatura que ele sentia apenas ao observá-la — fazia-o sentir-se seguro de que aquilo não era apenas visualizar as velhas memórias de seus antepassados.
Não era só mais um ‘Leo’.
Desta vez… algo lhe dizia que poderia ser realmente ele.
— Cuidado— — ela gritou, mas já era tarde demais, pois um deles lançou um feitiço explosivo que empurrou todo o grupo para trás.
— BUUUM! —
Um estouro ensurdecedor veio do canto do corredor, fazendo o grupo inteiro voar como fantoches de pano.
A cena se quebrou por um instante na visão de Leo, transformando-se em borrões caóticos enquanto poeira e detritos enchiam o ar.
A mulher foi jogada ao chão, seu rosto bonito e gentil agora sujo de poeira e fumaça enquanto tossia violentamente deitada.
Ela não era uma guerreira. Não tinha força suficiente para se levantar após um golpe tão leve, mas tinha coragem. Apesar de não conseguir ficar de pé, lutou para se sentar, checando o bem-estar do grupo.
Quando sua visão se estabilizou, ela avistou duas das figuras mais novas — o menino e uma das meninas — engajados em um combate corpo a corpo brutal, com espadas colidindo contra dois guardas com armadura preta.
Faíscas saltavam enquanto aço contra aço, ambos os jovens lutando desesperadamente para ganhar tempo.
A mulher se debatia no chão, tremendo enquanto tentava empurrar seu corpo para cima. Mas, no instante em que sua mão tocou seu lado, ela congelou.
Sangue.
Um calor escuro e úmido pintou seus dedos enquanto seus olhos se arregalavam de choque. A explosão havia lançado estilhaços profundamente em seu abdômen, e o ferimento não era superficial.
— Meu Deus… meu senhor… — ela murmurou, segurando o choro. Por um instante, vacilou — mas então, reunindo forças, levantou-se novamente.
De algum modo, vendo-a sofrer assim, vendo-a agarrar seu lado enquanto respirava com dificuldade, todo o ser de Leo tremeu.
Uma pressão se formou dentro do seu peito.
Seus olhos se estreitaram, e uma fúria indescritível irrompeu nele, destruindo até mesmo [Indiferença do Monarca], deixando o amortecedor emocional passivo inútil diante da tempestade que se formava internamente.
— O que é isso—?! — Leo se questionou, sabendo que já tinha enfrentado coisas muito piores e que não podia ser só a visão a desencadear tanta emoção.
Ele já tinha visto a morte.
Ele já tinha entregue a morte.
Mas isso — essa fúria — parecia diferente. Mais quente. Mais selvagem. Sem controle.
— Eu nem a conheço… então por que—? —
Mas, mesmo tentando convencer-se, a visão dela rangendo os dentes, lágrimas quase contidas, levantando-se apesar da dor, fez algo profundo nele se partir.
E então—
— Eu preciso… salvar o Leo… preciso salvar meu filho — ela sussurrou para si mesma, arrastando o corpo adiante mesmo com o sangue pingando no chão de metal sob ela.
Ao ouvir essas palavras, a respiração de Leo ficou presa.
Elas o atingiram como um martelo.
E, num instante —
As memórias retornaram.
As bordas desbotadas se aguçaram.
Os fragmentos se encaixaram.
A infância brincando nas ruas iluminadas pelo sol, as refeições quentes preparadas pelas mãos trêmulas dela, as noites em que ela o embalava para dormir, as canções suaves que ela cantarolava quando ele estava doente.
Ela não era só alguma mulher qualquer.
Ela era sua mãe.
Elena Skyshard.
E as outras…
O homem de meia-idade com o rifle — seu pai.
O jovem — seu irmão.
A mulher bonita com a espada — sua cunhada.
E a outra garota de macacão manchado de óleo — sua namorada.
— É minha família. —
Leo ficou lá, congelado no ar, incapaz de respirar enquanto a realidade o esmagava.
— É… minha família. —
As lágrimas ameaçaram escorrer, mas ele as reteve.
Sem poder fazer outra coisa, só pôde assistir enquanto Elena, sem fraquejar, avançava, deixando um rastro fino de escarlate atrás de si, passo a passo doloroso, enquanto o grupo dobrava a próxima esquina.
Mas o que os aguardava a seguir fez o coração de Leo afundar ainda mais.
Porque, ao entrar no próximo corredor, seus problemas pareciam só piorar, enquanto dezenas de soldados com armaduras pretas e rifles apontados — expressões escondidas atrás de viseiras — se preparavam para o confronto.
— Não podem vencer tanta gente— — pensou Leo, o pânico tomando conta.
Instintivamente, ele avançou, desesperado para romper a força que o prendia naquele estado fantasmagórico.
— Deixe-me entrar! DEIXE-ME ENTRAR! — gritou, mas por mais que se esforçasse, seus membros continuavam imateriais, como fumaça.
Incapaz.
Só pôde gritar silenciosamente enquanto o grupo que agora lembrava como sua família se preparava para uma batalha sem esperança.
E, na tentativa desesperada de manifestar-se, de alcançá-los, a realidade o arrancou —
— e ele acordou.
*ESGARGALO!*
Ofegando, encharcado de suor frio, suas mãos cerravam-se com força suficiente para machucar, os dedos já sangrando.
Seu peito arfava rapidamente enquanto ele fixava o olhar vazio no teto do dormitório.
Lágrimas escorriam silenciosamente pelas faces.
Finalmente, lembrou-se.
Finalmente, soube.
— Eles estavam em busca de mim —