
Capítulo 587
Assassino Atemporal
Assassino Atemporal Volume 6: A Segunda Grande Traição
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"A traição não nasce nas sombras, mas na luz da confiança.
Uma faca nas costas dói só porque uma vez aquela mão foi usada para te segurar firme.
Os traidores mais cruéis nunca são os estranhos na sua porta, mas os irmãos com quem você jantou, os pais que você honrou, os amantes que juraram lealdade eterna.
E quando a traição acontece, não é um ato isolado, mas uma reescrita da própria história, pois o que antes era verdade vira mentira, o que era sagrado se torna profano, e os nomes dos culpados e inocentes se trocam nos registros da memória.
No final, traição não é apenas quebrar laços.
É o nascimento de uma nova ordem, forjada das cinzas da confiança."
— Arquivista Lyrren Dey, Sobre a Natureza da Fé e da Traição, Edição do 12º Ciclo
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(Planeta Ixtal, A Floresta Perdida, POV de Soron e Kaelith, há 2500 anos)
*Riacho*
*Assovio*
Por alguns momentos, o único som no campo de treinamento no quintal era o zumbido suave das cigarras e o balançar lento das folhas contra as paredes do castelo de Ixtal.
As duas luas overhead lançavam sua luz pálida sobre o terreno, iluminando o círculo de luta em prata, enquanto dois irmãos se enfrentavam com lâminas desarmadas, o ritmo da respiração firme, mas os olhos afiados.
De um lado estava Kaelith, com postura calma e equilibrada, como alguém que já lutou essa batalha mil vezes e venceu todas.
No outro, Soron, com energia inquieta correndo pelas veias, lábios comprimidos numa linha fina enquanto tentava esconder o sorriso que tentava escapar.
Seu pai estava sentado na pedra de um banco na borda do campo, uma perna cruzada sobre a outra, queixo descansando suavemente sobre a mão.
Ele não parecia um governante, nem o assassino mais temido que o universo já conheceu, mas um pai observando seus filhos aprenderem a moldar seu destino.
"Kaelith," sua voz veio baixa e calma, firme como água corrente, "ajuste sua postura. Você está confiando demais, e a confiança excessiva é a primeira rachadura em qualquer fortaleza."
Kaelith ajustou-se prontamente, firmando mais os pés no solo, a lâmina segurada com nova precisão.
"Soron," continuou o pai, mudando de olhar, "pare de tentar forçar a passagem. Use a cabeça. Você não é mais forte nem mais rápido que Kaelith, mas também não está desarmado."
Soron assentiu rapidamente, os olhos brilhando, como se aquelas palavras tivessem lhe dado licença para tentar algo ousado.
O combate recomeçou.
Kaelith foi o primeiro a agir, sua lâmina acendendo em uma risca de fogo negro enquanto sussurrava a palavra, [Chama Sombria].
O ar vibrava com calor, a própria grama sob seus pés torcendo e escurecendo, enquanto ele abaixava a arma numa arcada decisiva, buscando terminar a luta antes que começasse.
Soron levantou sua própria lâmina, também envolta de [Chama Sombria], faíscas voando ao colisão das armas, o fogo imbatível se chocando com seu igual.
*ZING*
A força ressoou no pátio, sacudindo as estatuetas de treino de madeira próximas.
"Muito devagar, Soron," murmurou Kaelith, avançando com golpes implacáveis, cada movimento treinado, cada corte sem margem para erro.
Sempre foi o mais forte, o mais firme. Desde há dezesseis anos, quando começaram a treinar juntos, a vitória sempre foi seu direito de nascimento, mas, ultimamente, a distância entre eles começou a diminuir enquanto Soron amadurecia.
*BATERIA DEFESA*
*EMPURRÃO*
Soron fez uma careta, defendendo mais um golpe, até que seu corpo se turvou em velocidade repentina ao invocar [Reforçar], os braços e ombros inchando com uma rajada de força que o permitiu empurrar Kaelith para trás.
Por um suspiro, acreditou que tinha o impulso em suas mãos, até que Kaelith respondeu na mesma moeda, aprimorando as pernas, escorregando para o lado com uma agilidade impossível, e desferindo outro golpe flamejante contra a defesa de Soron.
"Previsível," sussurrou Kaelith, faíscas dançando entre eles enquanto as lâminas travavam.
Mas Soron só sorriu, dentes cerrados, olhos brilhando com algo que seu irmão ainda não tinha visto nele antes.
Ele se desvencilhou, recuando, e de repente avançou com tudo. Seu corpo parecia sumir na névoa, invocando um movimento que ele tinha acabado de aprender, chamado [Passo do Esquecimento].
Para Kaelith, seu irmão tinha desaparecido na brisa da noite, o brilho fraco do calor e do fogo sendo engolido pelas sombras.
Kaelith virou o corpo, com a lâmina erguida, tentando adivinhar a ilusão, mas se enganou, pois Soron não veio de cima, mas de trás.
*CORTADA*
Soron atacou com precisão, a lâmina baixa, varrendo na direção do lado exposto de Kaelith, que girou para se defender, mas a hesitação mais sutil, o único suspiro de descrença — que seu irmão tinha finalmente conseguido surpreendê-lo — o custou caro.
Seu bloqueio veio com um atraso de fração de segundo, e a arma de Soron tocou firme contra suas costelas.
O som ecoou como um trovão nos ouvidos de Kaelith, enquanto ele era empurrado para trás com um corte superficial.
*FSSHHH*
Seus pés escorregaram na areia enquanto ele olhava para seu irmão com incredulidade.
"Ganhei! Finalmente ganhei do irmão mais velho!" Soron gritou, rindo de alegria exausta, abaixando a arma e começando a rir como se não houvesse amanhã.
Em dezesseis anos, Kaelith nunca tinha perdido uma luta contra o irmão mais novo, pois dia após dia, ano após ano, treinava mais duro, acertava mais rápido, se defendia melhor, aguentava mais tempo.
Soron sempre tinha conseguido alcançar, sempre chegava perto, mas nunca conseguia pegar. Mas naquela noite, à luz prateada das luas gêmeas, ele conseguiu. Ele tinha vencido.
Porém, Kaelith não sentia ciúmes. Ainda não. Não havia mágoa ao abaixar a espada, nem ódio ao ouvir a risada do irmão ressoar pelo campo. Pelo contrário, sentia uma estranha sensação de orgulho por Soron ter, enfim, ultrapassado seus limites.
E então, seu pai se levantou.
O som de seu aplauso lento e deliberado ecoou pelo campo, cada palmada mais forte que o zumbido das cigarras, mais forte que o balançar das folhas, mais forte que a incredulidade pulsando no coração de Kaelith.
Ele caminhou até o centro do campo de luta, seu robes arrastando na grama, sua presença preenchendo o círculo com uma gravidade que nenhum dos irmãos pôde resistir. Parou diante de Soron, pousando uma mão calejada no ombro do filho, e então o abraçou com força.
"Você, Soron," disse o pai, com uma voz quente que Kaelith nunca tinha ouvido antes, "tem potencial para me superar algum dia, meu filho. Hahaha!"
A risada foi plena, espontânea, verdadeira. O orgulho nos olhos dele brilhou como fogo, feroz e implacável.
Foi nesse instante, enquanto Kaelith estava a alguns passos, ainda com a lâmina na mão, o suor esfriando na testa, que algo dentro dele se quebrou.
Seu pai nunca tinha lhe dito essas palavras. Nunca. Por mais que treinasse até as mãos sangrarem, por mais que derrotasse Soron, por mais horas dedicado a aperfeiçoar cada movimento, cada postura, seu pai nunca lhe falou que ele poderia ultrapassá-lo.
Soron o tinha vencido uma vez. Uma única vez em dezesseis anos. E, por aquele único triunfo, foi abraçado, elogiado, elevado além da razão.
O peito de Kaelith se apertou ao baixar o olhar, enquanto o riso do pai ecoava em seus ouvidos como zombaria. Ele se forçou a ficar em silêncio, a engolir a amargura que subia pela garganta, mas as palavras ficaram gravadas no âmago de seu ser.
Por que não eu?
Por que nunca eu?
Naquela noite, ele não disse nada. Foi embora do campo de treinamento com a cabeça baixa, a lâmina arrastando levemente na grama, enquanto o riso do pai e a alegria do irmão ecoavam atrás dele. Mas, no fundo, a primeira semente de ciúmes foi plantada.
Era pequena naqueles dias, quase imperceptível, mas existia. Uma raiz de inveja, enroscando fundo na terra de sua alma, esperando os anos passarem e as tempestades chegarem.
E, quando finalmente floresceu três séculos depois, após incontáveis incidentes, produziu o fruto da traição.
A Grande Traição.
Na forma de Kaelith tirar a vida do pai, mudando para sempre o curso da história e do Culto.