Assassino Atemporal

Capítulo 501

Assassino Atemporal

(Planeta Vorthas, Exatamente Fora da Arena de Treinamento, Ponto de Vista de Dupravel)

Sentado silenciosamente sobre uma rocha desgastada, Dupravel mantinha a postura ereta, as mãos cruzadas sobre os joelhos, sua presença completamente imóvel, como se também fosse uma parte daquela pedra.

O sol da tarde estava alto no céu, pintando o espaço com um tom de azul claro, que combinava perfeitamente com suas novas vestes cinza e azul, além de sua máscara branca.

Para quem estava acostumado a ver o líder do Esquadrão das Serpentes Negras usando sempre preto, essa mudança fazia com que fosse menos suspeito de sua verdadeira identidade. No entanto, Valterri não era um daqueles que se deixava enganar facilmente.

Sentado na sombra de uma grande árvore não muito longe dali, Valterri observava o homem mascarado com atenção, seus olhos afiados se estreitando de suspeita, que só aumentava com o tempo.

Havia algo profundamente estranho nesse chamado novo guarda chamado 'Víbora'.

Ele não agia como um guarda pessoal. Nem de perto.

Andava como um espectro, cada passo tão leve, tão silencioso, muito mais parecido com um assassino caçando sua presa do que com um protetor leal em serviço.

Nunca verificava o perímetro ao chegar em novos locais, nunca estudava as saídas, nunca se posicionava entre seu mestre e possíveis ameaças.

Não revistava visitantes em busca de armas escondidas, não questionava rostos desconhecidos que se aproximavam de Leo, e não fazia esforço algum para proteger seu mestre de olhares furtivos, olhares investigativos ou desafiadores oportunistas.

Não reagia quando Leo estava vulnerável, não buscava linhas de atiradores, nem sequer fingia estar tenso em momentos de alto risco.

O homem não tinha instinto de protetor. Só o de predador esperando o momento certo.

E isso irritava Valterri.

"Você viu a execução daquele escroque, Dupravel, recentemente, Víbora?" Valterri perguntou casualmente, a voz carregada de uma falsa facilidade que disfarçava o veneno por baixo.

"O filho da puta morreu como um cão. Que o Senhor Dragão Sombrio seja louvado por ter feito justiça."

"Embora, na verdade... quase prefiro que ele não tivesse morrido." Valterri sorriu de forma sombria, observando qualquer reação.

"Gostaria de ter sido eu quem o derrubasse. Aquele babaca levou meu pai de mim, sabia?"

Dupravel lentamente desviou o olhar das nuvens para baixo, fixando os olhos nele sem dizer uma palavra.

"Tinha uma conta a ajustar com ele. E agora que ele se foi, nunca mais vou ter a chance de arrancar o coração dele com minhas próprias mãos."

Todo mundo na execução vibrava de alegria como idiotas. Mas eu? Eu não me sentia feliz. Estava vazio.

Porque nenhuma justiça fingida consegue substituir a satisfação de matar seu inimigo com as próprias mãos."

Valterri inclinou-se um pouco para frente, analisando sua postura, seus olhos, sua respiração.

Mas não houve resposta.

O homem mascarado permaneceu em silêncio, sua atitude ininteligível.

"Ouvi dizer que soltaram o filho dele," Valterri acrescentou num tom ameaçador. "Ninguém sabe onde, mas se eu conseguir pegar as pistas dele... bem, vamos dizer que essa seria uma conversa interessante."

Fez um gesto de estrangular alguém, seu sorriso cheio de crueldade.

E foi aí que Dupravel finalmente respondeu.

"Espero que, por seu próprio bem, você nunca o encontre."

Seu tom era calmo. Frio. Repleto de uma autoridade que só se conquista após anos no comando.

"Pois, ao contrário do sangue de merda que você tem, aquele menino carrega o potencial de um Monarca.

E se ele for até metade da serpente que seu pai foi, você vai morrer tão miserável quanto seu pai morreu... sufocado pelo arrependimento."

As narinas de Valterri zigzaguearam ao ouvir, e embora soltasse um escárnio, uma ponta de apreensão escapou de seu rosto.

"Mais do que linhagem, é preciso ter sangue frio para ser um verdadeiro guerreiro." Ele retrucou, desviando o olhar, enquanto "Claro", Dupravel respondeu, a palavras por trás da máscara praticamente audíveis.

"Continuo dizendo isso pra mim mesmo. Quando aqui você está, servindo a um garoto metade da sua idade, só por causa do sangue que corre em suas veias.

Se linhagem não importa, por que você nunca tentou se tornar o Dragão?"

Deixou as palavras no ar, cada sílaba cortando mais fundo.

"Ou o quê... não consegue?"

Aquietação que se seguiu foi sufocante.

Valterri abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.

Dupravel revelou o núcleo dessa hierarquia, e não havia nada que Valterri pudesse dizer para contestar.

"Por que você se importa tanto com esses criminosos?" Valterri questionou, sua voz agora mais suave, menos venenosa. "Você fala como se os conhecesse. Com paixão, até. Dá a impressão de que aquele menino é seu próprio filho."

Dupravel trocou um último olhar com ele, depois bufou e virou o rosto para o céu.

"Você tem razão, Escudo do Dragão. É preciso mais do que linhagens para se tornar grande."

"É preciso visão. É preciso disciplina. É preciso saber onde sua força é mais bem aproveitada."

E o seu presente... o seu presente não tem nenhuma dessas qualidades.

Você não consegue enxergar além de sua própria vingança mesquinha. Pensa em centímetros enquanto os outros pensam em reinos.

Essa conversa foi uma perda de ar."

Ele se levantou lentamente, o vento levantando as pontas de seu manto enquanto se virou.

"Então sugiro... até o dia em que aprender a pensar como um homem e não como um cão, saia da minha frente."

Valterri ficou em silêncio por um longo tempo, após Dupravel se afastar, suas mãos cerradas contra as coxas enquanto olhava para a terra.

Amargo. Essa foi a única palavra que descreveu o gosto que ficou na boca.

Porque, por mais que odeiasse, o idiota mascarado tinha razão.

Ele estava servindo a um menino metade da idade dele.

Passou anos perseguindo o espectro de um homem que não existia mais.

E gastou sua força na uma inimizade que não levava a lugar algum.

Dupravel estava morto.

Ele tinha assistido a tudo com os próprios olhos. Ouvido o estalo de um osso. Visto a luz desaparecer do olhar daquele demônio.

Era o fim.

Talvez fosse hora de finalmente passar adiante.

Rangeu os dentes, inclinou a cabeça para trás, fechou os olhos e deixou o calor do sol de Vorthas queimar seu rosto, como se pudesse queimar também o peso de tudo que acabara de dizer.

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