Assassino Atemporal

Capítulo 489

Assassino Atemporal

(Mercado Sunsteps, ponto de vista do Décimo Segundo Ancião)

Existem momentos na vida em que a gente deseja poder voltar atrás e fazer diferente.

Momentos que se obsessivamente revê em silêncio, perguntando-se o que teria mudado se tivesse reagido mais rápido, lutado com mais força ou simplesmente escolhido um caminho diferente.

E há momentos na vida pelos quais se se prepara anos a fio, ensaiando mentalmente cada palavra, cada movimento, na esperança de que, se o destino trouxer aquele cenário de novo, eles consigam acertar desta vez.

E este aqui, era um desses momentos para o Décimo Segundo Ancião.

Desde a morte de Noah, ele revia aquele dia sem parar, assombrado pela imagem do melhor amigo ficando para trás enquanto ele fugia.

Naquela época, ele não tinha respostas, nenhuma estratégia que pudesse ter salvado os dois. Mas as coisas eram diferentes agora. Porque agora… Dupravel tinha uma fraqueza óbvia, que todo o universo conhecia.

Seu filho, Darnell.

E essa era a única carta que ele não tinha há trinta e dois anos, quando Dupravel estava no auge da sua ferocidade.

*Mudança*

Num piscar de olhos, o Décimo Segundo Ancião mudou sua aparência, transformando-se numa réplica quase perfeita de Darnell Nuna, até os lábios tremendo e a expressão de ansiedade no rosto.

"Pai… você veio me salvar?" perguntou, a voz trêmula e carregada de pânico, imitando o tom de Darnell com uma precisão assustadora.

Enquanto via seu rosto, Dupravel congelou.

Apesar de ter testemunhado a transformação, de saber com certeza absoluta que aquilo não podia ser seu filho, aquela voz e aqueles olhos ainda cortaram o peito dele como uma lâmina.

"Pai… eles me colocaram lá em cima. Me amarraram ao lado do Dragão, tipo escudo de carne. Esses Cultistas… são cruéis," choramingou o Décimo Segundo Ancião, colocando desespero em cada sílaba.

E Dupravel hesitou.

Não porque acreditasse nisso. De jeito nenhum.

Mas porque, naquele milésimo de segundo, onde lógica colidiu com memória e o instinto foi_dominado pelo medo paternal, ele não conseguiu ignorar a fagulha de possibilidade, o fio de dúvida, de que tudo aquilo fosse um ardil elaborado pelo Cult para fazer ele matar o próprio filho com as próprias mãos.

*Segurar*

Seus dedos ficaram tensos ao redor da empunhadura da espada, os olhos se estreitaram em conflito.

Ele sabia que aquilo não era real.

Sabia que era um isca.

E ainda assim… não conseguiu atacar o Décimo Segundo Ancião.

Então virou as costas para o dublê e lançou-se novamente contra Veyr, seu corpo desaparecendo em mais uma nuvem de fumaça, surgindo de bolsões irracionais de espaço ao redor de Veyr.

*Estalo*

*Bloqueio*

*Bloqueio*

Para seu crédito, Veyr conseguiu manter sua posição com perfeição.

Depois de lutar recentemente contra Leo, um demônio da velocidade, ele se conscientizou das brechas na própria defesa e melhorou um pouco desde então.

E embora Dupravel tivesse vindo com força brutal, de modo quase insano, de alguma forma, a força parecia controlável para Veyr, como se estivesse lutando contra um oponente Transcendente, e não um Lorde.

*Confronto*

*Investida*

*Parada*

Nos próximos dez segundos, as lâminas deles colidiram repetidamente, o som do metal rangendo contra o metal, enquanto Veyr segurava firme, desviando cada golpe preciso de Dupravel com uma concentração calma.

A praça do mercado havia se transformado em um campo de batalha, com pedras rachadas sob os pés e uma névoa de fumaça serpenteando pelo ar como cobras à espreita.

Dupravel lutava com a frieza implacável de um assassino, sua lâmina se movendo com uma graça perturbadora, que o fazia parecer mais um espectro do que um homem.

Ele pisava em pedaços de espaço distorcido, fechando lacunas e reaparecendo no meio de um golpe, sua pequena espada cantando arcos de morte no ar.

Porém, Veyr o acompanhava, quase um passo atrás, confiando não na velocidade, mas na previsão e no timing. Ele não precisava ser mais rápido que Dupravel, só suficiente para sobreviver até a chegada do reforço.

*Zumbido*

* Explosão*

De repente, um [Disparo de Vento] atingiu a pedra ao redor dos pés de Dupravel, quase errando a perna dele.

O Décimo Segundo Ancião, ainda na forma de Darnell, estava a uma certa distância, com as mãos brilhando com mana residual ao lançar outro golpe em direção ao Lorde, na esperança de criar uma distração suficiente para que Veyr pudesse dar um golpe fatal.

*Estalo*

*Desviar*

"[1]— Rato persistente," murmurou Dupravel, olhando para o ancião sem interromper seu ritmo, enquanto girava no ar para desviar um golpe que caía na esquerda de Veyr.

"Vocês também vão morrer logo." afirmou, sem fazer movimento para eliminar de vez o Décimo Segundo Ancião.

Em vez disso, focou totalmente em Veyr, tentando ao máximo decapitar o Dragão, mas, justo quando começava a pegar no jeito, sentiu outro ataque vindo de lado.

*Desviar*

*Zumbido*

A interferência constante do Décimo Segundo Ancião dificultava que ele dominasse a defesa de Veyr, mas não era só por isso que ele tinha dificuldades.

Ele podia sentir. A fraqueza em seus músculos…

A respiração parecia mais superficial do que devia. Seus braços doíam mais do que o normal. Seus golpes não carregavam o peso de destruição de um golpe de Lorde.

Neste momento, ele não era mais forte que um guerreiro no auge do Tier Transcendente. Apesar de ter bebido a poção e sentido uma onda de força correr pelas veias, ela nunca se materializou, e ele não voltou ao seu pico.

'Mauriss armou uma cilada para mim?', pensou Dupravel, enquanto, do canto do olho, notou um movimento preocupante.

Decenas de guardas e reforços se aproximavam negócios ao seu redor, e quanto mais prolongada fosse a luta, piores eram suas chances de sucesso.

"Maldito Mauriss…" sibilou baixinho, a voz dura e letal, tentando fazer um último ataque para matar Veyr, mas o Dragão bloqueou exatamente como esperado.

*Ting*

"ORDEM, MALDITO MAURISS!"

Ele gritou novamente, desta vez mais alto, cuspindo cada palavra com toda a raiva do coração.

Depois, como se percebesse que aquilo era uma perda de tempo, recuou e tirou a mão da túnica, lançando uma dúzia de bombas de fumaça pelo campo de batalha.

*Estalo*

*Crack*

*Fsssh*

Num piscar, uma espessa cortina de fumaça engoliu toda a praça, reduzindo a visibilidade a quase zero.

Gritos ecoaram enquanto civis tropeçavam em pânico e os guardas que chegavam pararam para reagrupar.

E, de repente, Dupravel virou as costas e foi embora.

Deslizando-se na névoa como uma sombra, recuou pelo esgoto, preparado com antecedência, com o orgulho ferido e a fúria transformada em algo muito mais perigoso.

A missão tinha fracassado.

O Dragão ainda estava vivo.

E pior—ele tinha sido enganado.

Não por Veyr.

Nem pelo Culto.

Mas por Mauriss, o Deceptor.

O velho astuto tinha jogado com ele como uma peça no tabuleiro, enviando-o para uma morte certa, enquanto fazia promessas falsas de liberdade e poder.

*Splat*

*Splat*

As botas de Dupravel espirraram na água do esgoto, enquanto ele fugia, a mente mais barulhenta do que o som de seus passos.

'Que patético,' pensou, com a mandíbula cerrada. 'Anos servindo como um cachorro… todo aquele sangue derramado em nome deles… e por quê?'

Ele piscou, a raiva dando lugar a uma sensação mais fria.

'Deveria ter entrado no Culto. Deveria ter ficado aqui com meu filho… Deveria ter negociado minha vida. Isso teria sido mais fácil do que as missões que fiz por Mauriss…'

Seus dedos apertaram ainda mais ao redor da empunhadura da espada.

'Ao invés disso, lutei por escória como o Eterno Enganador. Que o orgulho e a vingança me ceguem. Que as mentiras moldem meu caminho… HA—'

Uma risada amarga escapou dele.

'Talvez eu fosse o tolo o tempo todo. Talvez… eu ainda seja.'

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