Extra da Webnovel: Reencarnado com uma Habilidade de Cópia

Capítulo 76

Extra da Webnovel: Reencarnado com uma Habilidade de Cópia

O Triângulo não entrou em colapso no dia seguinte em que a questão virou destaque.

Instituições nunca entram em colapso de imediato.

Elas emperram.

Demoram a ceder.

Tentam reinterpretar o que já aconteceu como algo menor, mais seguro, temporário.

A fiscalização passou a manhã trocando o nome do problema.

Não era rebeldia.

Não era desobediente.

"Instabilidade de transição."

Uma expressão suave, que sugeria movimento sem colocar a culpa.

Falhou assim que saiu da sala.

Porque o Triângulo deixou de pertencer apenas à Fiscalização.

Pertencia a todos que sentiram a pausa e perceberam que ela não tinha sido letal.

Ainda.

A primeira mudança oficial veio disfarçada de misericórdia.

Às 09h00, um aviso de acompanhamento substituiu a declaração anterior.

ATUALIZAÇÃO DO TRIÂNGULO — ESCLARECIMENTO

As faixas de conformidade operacional continuam sendo o padrão.

No entanto, exceções de coordenação local podem ser concedidas a critério do instrutor.

Esta atualização visa preservar a integridade do treinamento, minimizando os transtornos.

Discrição.

A palavra caiu mal.

Porque discrição não resolveu as contradições.

Apenas transferiu a culpa.

Os instrutores perceberam imediatamente.

Uns pareceram aliviados.

Outros parecem presos.

Se a discrição falhasse, a responsabilidade seria deles — não do sistema.

Os estudantes também perceberam.

E estavam cansados de fingir que não sabiam que o poder desloca a responsabilidade para baixo quando precisa de isolamento.

No Bloco Sete, da Ala C, os mesmos estudantes que tinham sentado no dia anterior leram a atualização juntos.

Sem gritos.

Sem comemorações.

Apenas uma análise silenciosa.

"Então," um deles falou lentamente, "agora, se der errado, é porque o instrutor escolheu mal."

Outro concordou. "Conveniente."

Um terceiro soltou uma risada curta. "Isso não é misericórdia. É lavagem.""

Eles se levantaram.

Não dramaticamente.

Apenas… juntos.

Independente.

Foram treinar mesmo assim.

Na mesma hora.

No mesmo lugar.

O instrutor chegou atrasado.

E, pela primeira vez desde que assumiu a função, não corrigiu imediatamente a postura.

Ele apenas observou.

Medindo.

Ponderando o risco.

Depois — suavemente — pediu: "Aquecimento."

Sem ordem de dispersão.

Sem punição.

Apenas uma aceitação tácita.

Não era rebeldia.

Era um teste.

E a Fiscalização falhou por não intervir.

Porque intervir teria confirmado o medo.

E o medo passou a ser um recurso finito.

Dreyden observou a mudança sem se envolver.

Ele nunca precisou.

O momentum tinha passado do ponto em que uma única figura poderia dirigi-lo sem ser esmagada pelas expectativas.

As pessoas não o seguiam.

Seguiam o padrão que ele se recusava a completar.

Lucas sentiu a pressão se inverter.

Antes, perto de Dreyden, aumentava a fiscalização.

Agora, a ausência dele começou a parecer uma declaração.

Estudantes que mal conhecia ajustaram roteiros para cruzar corredores em horários semelhantes.

Não se agrupavam.

Não se alinhavam.

Apenas se certificando de serem vistos em movimento neutro.

Ele observou uma interação desde a escada superior.

Uma estudante da Turma B se aproximou de um instrutor.

"Senhor," ela disse com tom firme, "se a discrição se aplica, como podemos solicitá-la?"

O instrutor hesitou.

Lucas percebeu — viu o exato momento em que o homem percebeu que não havia resposta segura.

"Pedidos não são exigidos," disse finalmente o instrutor. "Eu avalio as condições."

"E se os estudantes discordarem da sua avaliação?"

Silêncio.

Não pesado.

Áspero.

O instrutor se endireitou. "Seria insubordinação."

A estudante assentiu. "Entendido."

Ela saiu.

Calma.

Composta.

Lucas engoliu em seco.

Eles não estavam mais pressionando.

Eram apenas registrando respostas.

Zagan falou baixinho.

Eles estão criando precedentes.

Lucas resmungou de volta: "Contra a Fiscalização?"

Contra a arbitrariedade.

Que era pior.

A segunda escalada não foi pública.

Aconteceu de forma silenciosa, nos bastidores, por trás das interfaces.

Algoritmos de mérito alteraram ponderações.

Métricas de participação passaram a favorecer o desempenho individual em detrimento da coesão do grupo.

Bonificações colaborativas foram despriorizadas.

Não removidas.

Enfraquecidas.

Um movimento clássico.

"Se a união parar de pagar", um analista ponderou, "as pessoas vão se separar por conta própria."

Quase deu certo.

Até que alguém percebeu a anomalia.

Uma planilha.

Uma comparação.

Resultado antigo versus novo.

Alguém comentou durante o jantar.

Depois, alguém mais verificou.

E mais três.

Sem uma única acusação.

Apenas uma constatação compartilhada:

Estão punindo a cooperação sem admitir isso.

E, ao perceberem isso, a análise de custos e benefícios virou de ponta cabeça.

Porque agora separação não era neutra.

Era conformidade.

E conformidade deixou de ser invisível.

Maya observou a cascata do lado de fora, com fascínio silencioso.

Ela não precisava mais interromper sinais.

O sistema gerava suas próprias contradições.

Ela acompanhava não os resultados — mas as histórias.

Quem contou o quê para quem.

Quais versões sobreviveram.

Quais morreram.

Quais se transformaram.

Hoje, Dreyden aparecia menos nessas histórias.

Mas sua ausência era evidente.

"Aquele cara não se ajusta," alguém comentou.

"Ele simplesmente… fica."

"Sim," respondeu outro. "E tudo ao redor dele continua se dobrando."

"Isso não é força."

"Não," concordou o primeiro. "Isso é pressão."

Maya sorriu de leve.

A Fiscalização voltou a se reunir naquela noite.

Desta vez, a frustração tingiu a discussão.

"Não podemos permitir que coletivos informais redefinam as normas operacionais."

"Eles não são coletivos," alguém interrompeu. "São coincidências."

"Então por que continuam coincidindo?"

Silêncio.

O observador recostou-se.

"Porque a coordenação não requer mais permissão."

Um analista mais jovem arqueou sobrancelhas. "Isso é absurdo."

O olhar do observador foi frio. "Assim como presumir que o medo sempre escalaria."

Outra voz cortou. "Estamos perdendo o controle da narrativa."

Essa frase importava.

O controle da narrativa não era sobre a verdade.

Era sobre quem explicava as consequências.

E as explicações da Fiscalização estavam começando a parecer pós-hoc.

Justificativas ao invés de orientações.

"É porque deixamos uma anomalia virar símbolo," alguém argumentou.

"Você não suprime um símbolo," respondeu o observador. "Você o contextualiza."

"E como fazer isso com alguém que recusa o enquadramento?"

Mais silêncio.

Mais tempo.

Porque esse era o problema.

Dreyden não desafiar a autoridade.

Nem mesmo contestá-la.

Ele simplesmente existia sem sinalizar deferência.

E agora outros testavam se poderiam fazer o mesmo.

O terceiro incidente forçou a Fiscalização a agir.

Turma A.

Sessão avançada de combate aplicado.

Uma tarefa rotineira de pareamento deu errado.

Dois estudantes recusaram seus parceiros designados.

Não juntos.

Separados.

Motivos diferentes.

Resultado igual.

"Prefiro não," disse um.

"Vou treinar sozinho," disse o outro.

O instrutor — novo, transferido no ciclo anterior — tentou seguir o procedimento.

"Times atribuídos são obrigatórios."

Ambos assentiram.

Mas não se moveram.

Nem hostilidade.

Nem rebeldia.

Apenas… recusa.

O instrutor hesitou tempo suficiente para que a sala percebesse.

E a sala percebeu.

Quando finalmente aplicou uma penalidade de mérito, o sistema tocou.

Depois tocou de novo.

Mais uma vez.

As interfaces dos estudantes se atualizaram — não com penalidades, mas com avisos.

Alguém fez uma captura da demora na penalidade.

Compartilhou.

Com marcas de tempo.

A Fiscalização interveio manualmente.

Isso significava que a discrição não era mais local.

Significava uma intervenção central.

E, por sua vez, a nota de esclarecimento era uma mentira.

A sala mudou.

O instrutor percebeu.

Ele recuou.

"Vou… reagendar as tarefas," disse.

Ninguém aplaudiu.

Eles treinaram.

Mas algo irreversível aconteceu.

A autoridade recuou publicamente.

E, uma vez recuada, não podia mais fingir que tinha escolhido o terreno.

Dreyden encontrou Lucas no passadizo superior novamente naquela noite.

Mesmo lugar.

Atmofera diferente.

"Estão recuando," disse Lucas.

"Sim."

"E todo mundo percebe."

"Sim."

Lucas encostou-se na grade. "Isso está saindo do controle."

"Está se estabilizando," corrigiu Dreyden.

Lucas franziu a testa. "Em quê?"

Dreyden olhou para o campus.

Grupos.

Movimentos.

Pessoas escolhendo rotas que se cruzavam sem permissão.

"Em conscientização," disse.

Lucas riu baixinho. "Isso não é estável."

"Não," concordou Dreyden. "Mas é irreversível."

Lucas hesitou. "Você ainda não me disse o que fará se eles insistirem mais."?

A voz de Dreyden foi calma.

"Não vou impedi-los."

Lucas encarou. "Só isso?"

"Deixarei que eles se definam," disse Dreyden. "Publicamente."

Lucas processou lentamente a ideia.

"Isso… é perigoso."

"Sim."

"Podem se machucar."

"Sim."

Lucas fechou os olhos por um instante. "Você acha que eles não vão?"

"Aposto," respondeu Dreyden, "que se eles fizerem, vão perder todos os outros."

Lucas expirou fundo. "Você não está jogando na defensiva."

"Não," disse Dreyden. "Tornando a escalada cara."

Naquela noite, o arquivo do Mandarim foi atualizado.

Não com palavras.

Nem com linguagem.

Um símbolo.

Três linhas paralelas.

Pausa.

Depois, uma delas atravessada.

Maya observou o mesmo sinal de fora.

Sua expressão diminuiu levemente.

"Isso não é da Fiscalização," ela sussurrou.

Algo mais tinha notado.

Algo paciente.

Algo que observa as instituições do modo como as instituições observam as pessoas.

E decidiu que a experiência do Triângulo estava chegando a um ponto de inflexão.

Dreyden olhou fixamente para o símbolo por um longo tempo.

Depois, digitou uma linha abaixo.

Então, você também está de olho.

Ele salvou.

Esperou.

A resposta não veio.

O bastante para entender.

Isso não era uma conversa.

Era um alinhamento.

E um alinhamento — de verdade — nunca se anuncia.

Apenas acontece.

Do lado de fora, as luzes do Triângulo se apagaram novamente.

Mais uma noite.

Mais uma tentativa de manter a rotina.

Mas a rotina tinha perdido sua autoridade.

Até amanhã, a Fiscalização tentaria novamente.

Eles sempre tentam.

A questão não é se vão escalar.

A questão é se a escalada vai obrigar alguém a escolher —

Controle.

Ou legitimidade.

E Dreyden já sabia qual delas o Triângulo nunca aprendeu a manter.

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