O Estalajadeiro

Capítulo 2249

O Estalajadeiro

Estava escuro na Terra dos Cem Rios, com nuvens negras e espessas cobrindo o céu até onde a visão alcançava. Já não era mais possível dizer se era dia ou noite, pois as nuvens estavam ali há dias, às vezes se abrindo em chuvas furiosas, outras vezes acalmando e apenas trovejando.

Chuvas torrenciais como aquela não eram incomuns nessa época do ano, razão pela qual era raro os cidadãos desta terra saírem de suas cidades, vilas ou aldeias durante esse período. O aguaceiro podia causar inundações, rompimentos de rios, deslizamentos de terra e inúmeros outros desastres naturais. O perigo era incalculável.

Foi justamente por causa daquela escuridão, e daquele perigo, que Rio e Pérola finalmente escaparam da perseguição de seus algozes. Sob a sombra de uma figueira-dos-pagodes[1], Rio olhou para Pérola com ternura enquanto ela enrolava seus pés com tiras de pano feitas de pedacos de sua camisa. O brilho suave e quente do colar de Pérola era a única fonte de luz ao redor, permitindo-lhe ver o que fazia.

Embora a ausência de uma camisa pudesse fazê-lo adoecer se a chuvas voltasse, sem estar enfaixado, seus pés sangrando representavam um obstáculo muito mais urgente. O resto de seu corpo também estava coberto de hematomas, todos resultado de lutar contra aqueles que os perseguiam.

Mesmo assim, apesar de seu estado machucado, as mãos ágeis de Pérla não lhe causaram nenhuma dor ao enfaixá-lo. Ela parecia... ter praticado isso muitas e muitas vezes.

"Eu te prometo, Pérola," a voz de Rio de repente rompeu o silêncio. "Eu te prometo. Um dia, eu vou te dar tudo o que você merece. Um dia, vamos percorrer essas terras de mãos dadas, e teremos um lugar para chamar de lar, envolto em pérolas para que o mundo inteiro saiba quem mora lá. O sol vai brilhar sobre nós, e teremos barrigas cheias e corações cheios, sem a necessidade de correr e nos esconder."

Pérola ouviu a nobre promessa de Rio, uma promessa que parecia grandiosa demais para ser considerada até mesmo uma fantasia, mas ela não parou seu trabalho. Suas palavras lavaram sobre ela como chuva sobre pedra lisa, deixando nenhuma marca, pois não havia mais aresta nela para ser polida.

Rio sorriu para ela, seu rosto coberto de sujeira e hematomas esperando ver a luz em seus olhos, ver o sorriso que o fez se apaixonar por ela tantos anos atrás. No entanto, ela não mostrou nenhuma resposta. Suas palavras sonhadoras não causaram nenhuma agitação em seu coração. Suas palavras foram recebidas apenas com silêncio e escuridão sombria, até que ela terminou seu trabalho.

"Eu acho... ficarei satisfeita se pudermos ser enterrados lado a lado," ela disse com uma voz suave e derrotada, seus olhos continuando a olhar para baixo, pois já não tinha forças para olhar para cima ou para frente. "Não tenho mais expectativas restantes nesta vida. Talvez... até pedir isso possa ser demais. Eles certamente vão escavar nossos túmulos onde quer que estejamos enterrados."

Rio apertou os olhos com força, pois se os deixasse abertos talvez não conseguisse impedir que suas lágrimas corressem. A derrota em sua voz doía tanto mais em seu coração do que os hematomas em seu corpo, ou os cortes em seus pés. A vergonha de não conseguir protegê-la, de prover o necessário para ela rasgava sua alma muito mais do que o veneno de Serragem[2] que havia rompido os meridianos[3] em seu corpo.

Pérola tinha sido uma alma tão pura, nascida neste mundo para ser amada, para ser protegida, e no entanto ele só lhe tinha trazido sofrimento. A dor disso era muito pior do que qualquer outra coisa.

"Não, Pérola, não, eu prometo! Eu prometo!" Rio disse enquanto seu corpo tremia por conta do quanto estava cerrando os punhos. "Eu prometo, vou achar um caminho. Estamos destinados a mais do que apenas um túmulo. Viveremos vidas felizes, vidas longas, você verá!"

Pérola ouviu suas palavras, mas não respondeu mais a ele. Ela já não tinha mais energia para isso. Nem sequer se lembrava da última vez que tinha comido.

Ela simplesmente se encolheu ao lado dele, enquanto ele estava sentado encostado na figueira-dos-pagodes, e fechou os olhos. Teria sido bom... se pelo menos o corpo dele estivesse quente.

Assim, Pérola dormiu, e Rio fez o possível para conter suas lágrimas, e Lex se perguntou como tinha parado dentro dessa novela. Não que ele menosprezasse o sofrimento deles — aquilo era bastante genuíno e bastante lastimável, na verdade.

Mas quando ele enviou seu colar embora para longe, deixando nenhum vínculo rastreável entre si e o colar, para atuar como um último recurso de seguro de vida porque não havia jeito de ele terminar de encontrar o Nexxus[4] e estabelecer sua base secreta tão cedo, ele não esperava que ele acabaria no pescoço de uma mulher mortal qualquer.

Bem, sendo justo, esse era longe do pior lugar onde poderia ter aparecido. Com base em sua sorte, Lex estava completamente preparado para o colar acabar dentro do núcleo de uma estrela que de alguma forma era viva, e também de alguma forma um vulcão, e também de algum modo seu inimigo perdido há muito tempo. Comparado a isso, acordar dentro de um colar no pescoço de alguma garota não foi tão ruim assim.

Lex resistiu ao gemido, ou ao suspiro, e em vez disso começou a avaliar sua situação. Ele não estava morto, então isso era ótimo. Porém, seu corpo estava preso nas mãos de um Sovran[5] assombrador arrepiante, então isso não era muito bom.

Brincadeiras à parte, quem quer que fosse aquele cara, ele era definitivamente, extremamente perigoso. Felizmente para Lex, ele tinha sofrido tanto na vida até este ponto que havia aprendido de uma vez por todas a tomar precauções, e tinha cartas escondidas suficientes para usar. Com sorte, ele não ia estragar tudo, porque se fizesse, não só perderia seu corpo, mas também perderia seu sistema, e possivelmente a identidade do Estalangeiro[6]. Se isso acontecesse, ele também poderia acabar perdendo todos dentro da Pousada, e isso não era aceitável.

Lex voltou sua atenção de si mesmo para seus arredores. Mais importante, ele olhou para Rio, que era um modelo ambulante de personagem principal de um romance web chinês[7] de Baixa qualidade. Felizmente para ele, personagens principais de modelo de escrita de Low Plastic tinham enorme armadura de enredo[8] — e Lex não se importaria de colocar as mãos em um pouco daquilo agora mesmo.

No final das contas, porém, Lex não conseguiu conter um suspiro. Ele supôs que isso significava que agora deveria assumir o papel do avô velho — não, éh, o jovem de 25 anos dentro do colar.

Quem poderia ter previsto isso?

[1] Figueira-dos-pagodes (banyan tree): Árvore de grande porte nativa da Ásia, com raízes aéreas que criam múltiplos troncos secundários, formando uma copa ampla e densa.

[2] Veneno de Serragem (Sawdust poison): Substância tóxica dentro do contexto da obra, aparentemente relacionada ao cultivo.

[3] Meridianos (meridianos): Canais de energia espiritual dentro das artes marciais e fantasia chinesa (cultivo espiritual).

[4] Nexxus: Termo específico da obra, aparentemente um local de grande importância no enredo.

[5] Sovran (Sovereing): Título de status ou poder dentro do sistema de cultivo da obra.

[6] Estalangeiro (Innkeeper): Profissão ou papel específico dentro da obra.

[7] Romance web chinês (chinese webnovel): Gênero literário de ficção serializada originário da China.

[8] Armadura de enredo (plot armor): Termo de ficção referente à proteção narrativa que impede personagem importantes de morrerem.

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