O Estalajadeiro

Capítulo 1994

O Estalajadeiro

Lorelei Kinari já tinha vivido uma vida bastante agitada. Essa era a forma mais positiva de descrever a sua trajetória, e como Lorelei era uma sereia geralmente bem otimista, ela via a vida assim mesmo. Sim, ela não considerava sua vida um desastre total, repleta dos eventos mais estressantes, mais angustiantes e mais assustadores de todos os tempos.

Tudo começou no dia em que ela nasceu. Um bando de tubarões superroids destruiu toda a sua maldita tribo e a engoliu inteira, enquanto estavam nisso! Depois, um tipo de serpente chamado Havval ou algo assim salvou ela de uma morte que ela nem se lembraria se tivesse acontecido, e ela o amaldiçoou por isso quase todo dia. Claro, ela também agradecia por ele em dias alternados, então, na visão dela, tudo se equilibrava. Sim, ela era uma otimista de carteirinha.

Foi exatamente por ser uma pensadora positiva que ela supôs que, quando Havval a enviou daquele planeta, nos braços de alguns gordos e peludos elefantes, ele estava tentando protegê-la, e não vendendo como escrava. Não, ele definitivamente estava tentando protegê-la.

Brincadeiras à parte, Havval era uma cobra bastante sólida, já que tinha enviado até a própria filha dele junto com Lorelei. Elas deveriam crescer juntas, como amigas, protegidas, e isso aconteceu por um tempo.

Para ser mais exata, elas aproveitaram sete dias inteiros antes de se enrolarem em uma política bem pegada. Como se descobriu, as bestas, na verdade, eram bem bestas mesmo. Então, depois de uma semana de descanso, apareceu um gordo e peludo elefante e disse que queria se casar com a filha recém-nascida de Havval. Parecia que casamento infantil era bem aceito entre a realeza bestial.

A partir daí, a vida dela virou uma sequência implacável de intrigas políticas, planos de assassinato, propostas de casamento e perseguições perigosas, uma atrás da outra. Mas pelo menos a comida era boa—quando não era envenenada.

Enfim, aqueles dias felizes continuaram até ela desbloquear sua habilidade de linhagem sanguínea. Era uma habilidade bem simples, na verdade. Ela podia nadar de uma fonte de água para outra. Ou, para ser mais precisa, de um corpo líquido para outro, desde que fosse grande o suficiente para caber seu corpo.

Ah sim, então surgiram os humanos. Os seres marinhos sem nadadeira, com corações de ouro puro. Assim que sua linhagem apareceu, um velhote Jotun começou a tramar contra os gordos e peludos elefantes. Ele enviou vários mensageiros prometendo fama, poder, dinheiro, ouro e muitas outras coisas totalmente inúteis, desde que ela concordasse em deixar os elefantes em paz.

Como se aquele estresse todo não fosse suficiente para dar uma ruga em uma jovem sereia, outras raças começaram a atacar os elefantes por causa dela, e eles bolaram um plano.

Agora, como uma pensadora positiva, ela gostava de imaginar que estavam enviando-a para um lar melhor, mais rico, como às vezes se faz. Ela já tinha ouvido falar dessas coisas chamadas casamentos arranjados, onde todo mundo finge estar feliz, enquanto uma noiva ou noivo é vendida para outra família, só para fazer uma festa chique com comida boa—de preferência, sem veneno.

Ela achava que sua situação era assim. Pelo menos teria uma festa. Mas não, só havia sangue—como se ela já não tivesse que lidar com isso todo mês.

Felizmente, seus dias de procurar comida por conta própria todos os meses tinham acabado. Ela finalmente foi sequestrada com sucesso!

Mas, ela era uma pensadora positiva, então encarou aquilo como uma oportunidade de crescimento, e de crescimento ela teve!

Alguns diriam que ela teve uma crise de pânico causada pelo estresse. Ela preferia pensar que, naquele momento, ela tinha assumido o controle completo de sua linhagem sanguínea. Então, nadou para um oceano novo.

Exceto que, esse oceano novo era feito de mercúrio. Ela não fazia ideia de onde estava, e o mercúrio não era bom para a sua pele, então ela escapou novamente.

Acontece que ela caiu na água de um restaurante onde eles cozinhavam peixes vivos—ou algo assim. A melhor parte é que ela estava sem energia, então não conseguiu escapar mais.

Mas, como uma otimista, ela viu aquilo como uma oportunidade para fazer alguns exames de sangue—sabe, para ver se tinha algum parasita ou coisa do tipo. Os donos do restaurante fizeram isso para verificar se ela era comestível, mas pelo menos ela descobriu que seu tipo sanguíneo era S+, abreviação de estresse positivo!

Resumindo: ela escapou várias vezes. Anos sendo caçada a fizeram ficar mais forte. E, mais importante, ela levava uma vida ativa, então, pelo menos, nunca ficou com duplo queixo. Imagina só? Ser perseguida por cativeiros já era ruim, mas ser uma sereia com duplo queixo, isso sim, era inaceitável.

Justamente quando ela estava se acostumando com esse tipo de vida, seres super poderosos de fora do reino colocaram uma recompensa por ela, e aí a coisa ficou bem feia. Então, ela fugiu para um oceano de outro reino, porque, aparentemente, ela podia fazer isso.

Mas, o lance das recompensas universais era que elas eram ativas por todo o universo, então…

Com seu otimismo, ela viu aquilo como uma oportunidade de conhecer os locais. Afinal, que tão embaraçoso é entrar em um novo reino e não conhecer ninguém?

Seus novos amigos a perseguiram até a morte. Ou, para ser mais exata, até o Rio Estige. Aquele rio era bonito, e a água era tão refrescante que dava vontade de morrer de tão boa. Infelizmente, ela não tinha programado uma morte prematura para aquele dia, então precisou usar sua linhagem novamente e escapar.

Uma coisa levou à outra, e ela começou a ver um folheto do Paraíso. Parecia um lugar bem divertido. Era quase inacreditável pensar que tinha um lugar onde ninguém tentaria matar ela. O que ela faria com todo aquele tempo livre e a falta de ansiedade?

Quem sabe, porque Lorelei nunca chegou ao Paraíso. Não, ela chegou no maldito Hiero-Céu, e meu Deus, como ela foi popular por lá.

Mas, ela era uma pensadora positiva, então encarou isso como motivação para explorar e fazer um pouco de turismo. Afinal, uma pessoa pode ficar preguiçosa, relaxar um pouco, sem aquela horda de monstros tentando caçá-la. Mas, é claro, bastou uma única horda para ela ter toda a motivação do mundo para sair sightseeing. Ai, ai!

Enquanto Lorelei contava suas bênçãos, ela avistou uma cena que nunca tinha visto antes. Um humano, um lobisomem e um peixe dourado, todos montados em touros vermelhos voadores, posando no ar à sua frente, tentando tirar uma selfie com uma câmera instantânea. Ela fez uma pausa para posar e levantou uma mão formando um sinal de V com os dedos. Se ia aparecer numa foto, precisava garantir que estivesse bem bonita.

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