
Capítulo 1946
O Estalajadeiro
Enquanto o chacal entrava em pânico, tentando rapidamente consertar as coisas de seu pódio, Lex sentiu a análise perfurando profundamente seu ser, avaliando cada aspecto de sua existência. Pelo pânico visível no rosto do chacal, ele percebeu que aquilo era muito mais do que algo comum.
Lex jurou a si mesmo que, se a razão de seus pais terem o deixado na Terra fosse porque ele era secretamente de outro universo, ele ia pirar. Mas, após imaginar uma ideia tão absurda, Lex passou a considerar um cenário muito mais plausível. Será que ele tinha alguma coisa com ele ou, talvez, tinha contato com alguém de outro universo? Poderia ser que os sistemas fossem de outro universo?
Mas isso não fazia sentido, especialmente considerando o alerta rigoroso do seu sistema contra qualquer associação com a Rejeição Universal. Isso indicava que o sistema se importava demais com as regras do universo. Por outro lado, esse era exatamente o tipo de comportamento que alguém teria ao tentar evitar ser detectado.
Antes que a imaginação de Lex pudesse criar uma tempestade de hipóteses, a luz vermelha ao seu redor desapareceu, e a análise mais profunda terminou, sem encontrar nada de preocupante.
Nem Lex nem o chacal sabiam por que o processo de registro teve aquele pequeno contratempo, mas, vendo que tudo acabou normalmente, ambos se sentiram aliviados.
"Parabéns", disse o chacal com um sorriso largo, como se não estivesse em pânico há poucos momentos. "Agora você está oficialmente registrado no Arquiteto do Céu. Seu limitador vai diminuir, nas próximas horas, 0,1%, o que provavelmente será o maior avanço que você verá por um bom tempo. Confie em mim, não é fácil reduzir o efeito do seu limitador — trabalhei anos intermináveis para diminuir o meu tanto quanto consegui."
"De qualquer forma, você perguntou sobre outras pessoas. Eu não sei onde estão muitas delas, pois nunca encontrei um assentamento, e a maioria das pessoas tende a se mover procurando uma oportunidade de conseguir uma posição oficial. Minha melhor sugestão é que, se estiver buscando alguém, procure rios ou lagos de essência espiritual. Geralmente, eles são bons locais para cultivação."
Lex assentiu com a cabeça.
"Obrigado pela ajuda. Acho que nos vemos por aí", disse Lex enquanto se preparava para sair.
"Sabe, estar aqui não é tão ruim assim", falou o chacal como se estivesse dando um conselho, embora sua expressão revelasse que poderia estar falando consigo mesmo. "A ausência de distrações ou interrupções é muito boa para sua cultivação. Olha para mim — nesse ritmo, só é questão de tempo até eu descobrir meu Dao."
Apesar de suas palavras soarem otimistas, seu tom era quase desesperado, como se o chacal estivesse esperando que aquilo se tornasse realidade. Lex apenas deu uma risadinha ao sair do prédio, mas sua expressão casual mudou no instante em que pisou lá fora.
Uma das razões pela mudança de expressão foi o fato de seus arredores terem mudado. Ele não estava mais em meio a uma paisagem natural acolhedora, com árvores comuns, relva e nuvens de algodão que poderiam substituir as nuvens. Não, o cenário quente e convidativo tinha se transformado.
Tudo passou de algo comum para algo extraordinário, muito além dele ou de qualquer coisa que já tivesse visto. Até mesmo as cores da natureza mudaram. De tons vibrantes e quentes, tudo se intensificou e adquiriu uma grandiosidade. Até a relva, que mal atingia o nível dos joelhos de Lex, parecia estar acima dele, tamanha a aura que emanava.
Lex não era do tipo que desenvolvia complexo de inferioridade, mas aqui, ele se sentia realmente inferior. Na verdade, ele tinha vislumbrado as maravilhas da Era Primordial no Jardim Primordial, cuidado por Eclipse, mas até aquilo parecia pequeno perto de tudo o que o cercava.
Se sua mente fosse mais fraca, Lex teria tropeçado de volta no salão de onde veio, buscando uma pausa para escapar da exposição a tudo ao seu redor.
Porém, como a aura não o machucava nem o oprimia de verdade, Lex conseguiu se recuperar, mesmo que sentisse uma certa pressão sobre sua mente.
Isso o permitiu focar na segunda razão para a sua expressão mudar ao sair. Enquanto esteve naquela sala, diante do chacal dourado cuja aura Lex não conseguia detectar, ele não ousou pensar em nada aleatório. Agora que estava lá fora, Lex se permitiu refletir sobre a hipótese mais provável para a falha no registro.
Lex tinha quase certeza de que o que tinha causado a reação foram os vestígios do Abraço Régio. Há algo naquela técnica de cultivação que é demasiado suspeito. A única maneira de a descrição dela ser verdadeira seria se alguém tivesse sobrevivido de verdade à explosão de um universo inteiro usando essa técnica.
Lex sentiu que, apesar de tudo o que aquela técnica poderia oferecer, era melhor ter desistido dela.
Ele respirou fundo, concentrando-se ao fazer isso, e tentou novamente rastrear a linhagem do destino do sujeito que interferiu na sua tribulação. Desta vez, apesar de sua fraqueza, Lex conseguiu, de forma vaga, perceber a distância aproximada de seu alvo.
Lex reuniu sua determinação e avançou, entrando de forma adequada no Arquiteto do Céu. Adeus aos terrenos simples de relva e às árvores fáceis de derrubar. Tudo aqui fazia Lex se sentir como uma formiga, a ponto de suspeitar que até mesmo os Senhores do Dao poderiam parecer pequenos aqui.
Não era que as terras estivessem carregadas de tesouros, cada um incrivelmente valioso. Não. Era a força absoluta das leis que compunham este lugar, que se infiltrava na atmosfera — leis que eram muito mais poderosas do que qualquer coisa que Lex já tivesse experimentado. Talvez, sequer chamá-las de leis fosse mais preciso.
Seja lá o que fosse, a intensidade do local realmente fazia parecer que ele era o núcleo do universo.
De dentro da árvore de mármore branco, o chacal apenas observou enquanto Lex se afastava, balançando a cabeça. Se esses territórios fossem tão fáceis de explorar, ele não teria se isolado em seu posto, cultivando sozinho, apesar de seu alto nível de cultivação.
Ninguém perceberia antes de ser tomado pela morte neste lugar. Não é um paraíso cheio de tesouros. Uma descrição mais precisa talvez fosse chamá-lo de um cemitério bonito.
O chacal fechou os olhos e começou a cultivar. Pelo menos, dentro daquele prédio, em seu posto, ele estava seguro. As regras garantiam isso.