
Capítulo 1948
O Estalajadeiro
Treze dias depois, uma fagulha de consciência surgiu em Lex, embora seu corpo estivesse em condições tão ruins que ele nem teria conseguido gemer se quisesse. Ele sequer sentia dor — apenas uma sensação de letargia.
Era preciso um esforço incrivelmente grande apenas para pensar. Um único pensamento equivalia ao peso de mover uma montanha, quanto mais realmente mover seu corpo.
A consciência fraca durou tempo suficiente para perceber que ele estava em uma situação grave, antes de desaparecer novamente enquanto Lex adormecia. Um dia depois, ele acordou novamente, desta vez com a mente muito melhor.
Percebeu que não conseguia mover seu corpo de forma alguma, então fez a única coisa que realmente podia — tentou começar a circular sua técnica de cultivo. Embora seu cultivo não avançasse tão cedo, isso ajudaria na sua recuperação mais rápido.
Infelizmente, ele estava fraco demais até para fazer isso — mas isso não significava que tinha desistido. Ele se recuperava rapidamente — muito mais rápido do que normalmente deveria — graças à energia excepcionalmente pura e abundante em Arquíso. No entanto, Lex não tinha força suficiente para sentir gratidão.
Levou várias horas até que ele se recuperasse o suficiente para começar a cultivar, o que acelerou tremendamente sua cura. Mas, por ser incapaz de controlar seu corpo, o cultivo acabou levando a certos eventos que deixaram Lex bastante nervoso. Enquanto seu corpo cicatrizava, começou a absorver os materiais ao seu redor, quaisquer que fossem.
Ele não estava em condições de impedir que seu corpo absorvesse aquilo, mas, considerando os eventos passados, ficou extremamente paranoico e passou a observar minuciosamente quaisquer mudanças no seu corpo enquanto cultivava.
Foi aí que descobriu algo interessante. Enquanto seu corpo absorvia tudo ao redor, assim que esses materiais entravam nele, transformavam-se apenas em energia espiritual comum. Era como se tudo dentro do Arquíso fosse feito de energia, e sua aparência real fosse uma ilusão.
Lex continuou estudando essa energia, procurando por qualquer sinal de anormalidade. Essa foi a ferida mais grave que ele sofreu desde quando estava no Vazio e virou uma almofada de carne. Felizmente, ele não estava tão ferido quanto naquela época.
Foram dois dias contínuos de cultivo até que ele finalmente conseguiu expandir seu espírito sensorial para observar seu corpo e o ambiente ao redor. Seus braços e pernas sobreviveram, embora suas mãos e pés tenham desaparecido, como se tivessem sido incinerados. Junto a eles, ele perdeu novamente toda a pele do corpo, ficando irreconhecível, ensanguentado.
Seus ossos sofreram queimaduras graves, mas, felizmente, nenhum ferimento foi além disso. Na verdade, perto do seu coração de dragão, os danos eram os mais leves, como se seu próprio coração tivesse atenuado parte do impacto.
Ao redor dele, havia uma pequena poça de sangue, cobrindo uma pedra lisa dentro de um buraco. Ao redor do buraco, terra e grama — é provável que Lex tenha absorvido toda essa terra ao seu redor durante a cura. Isso também significava que ele não conseguiu absorver a pedra de forma passiva.
Ou a pedra era especial, ou tinha uma energia muito mais densamente compactada, dificultando sua absorção. Lex não quis testar essa hipótese, então deixou como estava.
Lex suspirou — mentalmente, é claro. Ele tinha sofrido bastante, mas o dano ia muito além disso. Suas roupas tinham sido incineradas, como de costume, e a maior parte de seus equipamentos também. Seu anel espacial, dado pelo Governador do reino da Origem, que costumava conter dois corações de Jorlam, foi o único objeto que conseguiu sobreviver, embora parecesse ter sofrido algum dano também.
Felizmente, o anel tinha uma função bastante básica de autocura, mas não se sabia quanto tempo levaria para se recuperar totalmente. Até lá, o anel e seu conteúdo estavam indisponíveis para Lex. Naraka, que ele geralmente mantinha no anel para absorver o Sangue do Coração de Jorlam, também ficou inacessível.
Esse foi um dos ferimentos mais graves que Lex já sofreu, e a pior parte era a falta completa de aviso prévio. Seus instintos não se ativaram nem um pouco, não dando sinal dos caos que suas ações poderiam desencadear.
Falando nisso, Lex não pôde deixar de lembrar da barreira que salvou sua vida. Na hora em que se formou a tempestade, ele não teve tempo suficiente para perceber o que acontecia. Agora, porém, era fácil para ele entender.
Havia uma razão para ele precisar se registrar para entrar de verdade no Arquíso: o processo de registro marcava-o, oferecendo proteção caso uma tempestade como aquela acontecesse. Na verdade, era bem provável que o registro o protegesse de ainda mais coisas.
Isso levantava a questão: o que exatamente era tão perigoso que nem mesmo os senhores do Dao poderiam sobreviver, especialmente considerando a proteção que o registro oferecia? Ou talvez os senhores do Dao não recebessem essa proteção, ou ela só existisse por um período limitado.
Lex tinha informações insuficientes sobre esse lugar, e, infelizmente, não era tão fácil obter mais detalhes. O chacal que ele tinha conhecido antes parecia um cara confiável, mas não lhe havia alertado dos perigos do Arquíso. Teria ele alguma razão para isso, ou talvez quisesse que Lex morresse? Ele teria algum interesse na morte de Lex?
Havia muita incerteza. A única certeza era que este local era incrivelmente perigoso, e que Lex não tinha muito tempo a perder. Por isso, foi forçado a fazer algo que realmente não desejava — um risco, mas, se evitasse todo risco, não apenas fracassaria em sua missão, como talvez nunca pudesse sair daquele lugar.
Assim, tomou uma decisão arriscada e invocou Fenrir. Considerando todas as peculiaridades do Arquíso, Lex esperava mais que a invocação falhasse e já se preparava mentalmente para a possibilidade de isso desencadear outra tempestade. Para sua surpresa, funcionou.