O Estalajadeiro

Capítulo 1929

O Estalajadeiro

Para ser sincero, Lex estava um pouco apreensivo com a ideia de formar completamente um Corpo de Dao. Sua falta de conhecimento sobre o tema, e até mesmo sobre a própria natureza do Dao, fazia com que ele só pudesse fazer suposições. Ele tinha uma certa confiança na sua técnica de cultivo. Combinado ao fato de que já possuía algum nível de Corpo de Dao, ele achava que poderia aumentar essa porcentagem. Só não tinha certeza se deveria levar tudo até 100%.

Porém, isso era um problema para depois. No momento, ele ainda não chegara nem a 1%.

"Ok, obrigado pela ajuda," disse Lex, levantando-se. "Preciso falar com Shireen agora e acabar logo com isso."

"Não tem de quê," respondeu Mary casualmente. "Aliás, tem mais uma coisa. Pode ser que eu já tenha mencionado, mas, à medida que o sistema se recupera, minha alma também se recupera. À medida que minha alma se cura, começo a resgatar algumas memórias que nem sabia que tinha perdido. Se você… se decidir ir atrás do Fantope de Céu, tenha muito cuidado. Não sei exatamente por quê, mas desde que sugeri a ida, comecei a ter uma sensação ruim de ir para o Paraíso."

"Vou ficar atento a isso," respondeu Lex. "Primeiro de tudo, mesmo que eu vá lá, não pretendo relaxar quanto à minha segurança."

Depois de terminar com Mary, Lex teletransportou-se até a Pequena Vila onde Shireen e suas irmãs estavam hospedadas. Após alugar o local, elas tinham mantido toda a vila selada, permanecendo dentro dela, sem interagir com ninguém — nem mesmo com os funcionários da pousada.

Lex não tinha a intenção de invadir — ele ia apenas tocar a campainha. Afinal, ele já sabia o que estavam fazendo dentro da vila — um pequeno privilégio de possuir toda a pousada. Eles estavam se preparando para serem atacados!

O cenário ideal seria se o reino da Meia-Noite permitisse que eles tentassem uma Tribulação de Dao de forma direta. Não é como se algum deles estivesse preparado, mas, se fossem morrer de qualquer jeito, que morressem na tribulação mesmo.

Para surpresa de todos, ninguém tinha atacado ainda. Ninguém apareceu para conquistá-los, nem tentaram expulsá-los da vila. Depois de viver a maior parte de suas vidas — ciclos reais, literalmente — elas achavam inacreditável que poderiam simplesmente deixar a pousada e não haveria nenhuma consequência.

Conforme o esperado, a tão esperada batida na porta chegou. Mas, ao invés de um aviso de despejo, foi uma voz familiar que veio a seguir.

"Bem-vindos ao Pouso da Meia-Noite. Se eu soubesse que vocês vinham, teria preparado algo para recebê-los devidamente. Como as coisas estão, vou me contentar em saudá-los corretamente," disse Lex de dentro dos limites da vila, sua voz ecoando por toda a comunidade.

Shireen, um pouco desconfiada, saiu mesmo assim. Pode ser uma cilada, mas, se Lex realmente quisesse fazer mal a ela, acreditava que teria meios mais diretos do que pedir para entrar na vila. Sem falar que, pelo que ela entendeu da saída abrupta deles, as ações dele poderiam até ter lhe causado alguns transtornos, e mesmo assim ele estava sorrindo de forma casual e amistosa.

Era… inadequado não responder a ele diante de tudo aquilo.

"Lex, quanto tempo," disse Shireen enquanto abria o portão da vila.

"Sério? Eu pensei que pra você parecia ter sido um período bem curto. Mesmo assim, não posso negar que muita coisa mudou desde a última vez que nos vimos. Como vocês estão?" perguntou Lex, aparecendo completamente natural — como se estivesse encontrando alguém cuja ação não tivesse causado sua condenação por um grupo de Senhores do Dao.

"Estamos piores," respondeu Shireen enquanto o guiava de volta ao prédio onde suas irmãs estavam. "Mas também já estivemos piores. É bom estar livre da opressão da prisão."

"Bem, não é exatamente liberdade total, mas, a não ser que violem as regras aqui, não precisa se preocupar tanto dentro do Pouso da Meia-Noite."

Shireen assentiu, embora sua expressão não fosse nem de longe tão tranquila quanto tentava parecer. Na verdade, a situação delas era delicada, e esse encontro com Lex deveria servir para trazer algum esclarecimento sobre o que as aguardava no futuro.

Não era como se essas ex-Valquírias tivessem medo da morte. Elas tinham vivido por muitos anos, mesmo que em cativeiro, e nunca hesitaram em lutar, mesmo frente à morte. No entanto, estar em uma situação onde não tinham controle algum sobre o desfecho, independentemente de sua força ou esforços, era algo que as deixava incomodadas.

"Sua chegada aqui aconteceu num momento propício. Precisamos de algum esclarecimento sobre nossa situação, e o que o Pouso da Meia-Noite espera de nós. Entendo que nossas ações podem ter colocado o Pouso em alguma dificuldade, e estamos dispostas a colaborar para criar uma solução que beneficie a todos," disse Shireen, expressando sua opinião de forma direta.

Lex deu uma risada. Shireen sempre foi tão séria — mas, por outro lado, isso só facilitava seu trabalho, então ele a admirava por isso.

"Você tem acompanhado o que acontece lá fora desde que veio parar aqui?" perguntou Lex a Shireen.

"Não exatamente," respondeu ela. "Desde que chegamos, permanecemos isoladas, apesar de algumas tentativas de alguns anjos de nos contatar. Em um ambiente novo, não é tão fácil identificar quem pode ou não ser confiável. Não dá para se envolver em novas confusões sem resolver as antigas primeiro."

"Tudo bem, então. Posso te atualizar sobre o que aconteceu desde que vocês chegaram," começou Lex. "Depois, podemos falar de outros assuntos. Vou ser honesto — vocês me deram bastante dor de cabeça, Shireen."

Apesar de seu sorriso não ter vacilado, e de sua disposição calorosa continuar, Shireen de repente sentiu um arrepio por todo o corpo.

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