O Estalajadeiro

Capítulo 1919

O Estalajadeiro

"Parem com isso, humano!" gritou uma estátua em forma de jaguar enquanto atravessava o terreno. Por alguma razão, ela estava na forma de um veículo — não do animal. Lex não tinha cabeça para se importar por quê essas estátuas estavam assumindo a forma de veículos terrestres. Tudo o que importava era correr.

"Não se preocupe, vou parar de correr assim que perder vocês," gritou Lex de volta enquanto desviava de uma lança que alguém lançava à sua frente. Então, a lança abriu os olhos e encarou Lex com olhar de reprovação. Lex, ocupado demais para se importar, retribuiu o olhar e então avançou pulando.

"Acabem com essa brincadeira," berrou o comandante, perdendo a paciência. Enquanto a teleportação era proibida para Lex, o comandante atravessou o espaço e apareceu bem na frente dele.

"Desviar do exército fazia parte da sua estratégia. Pode ser considerado como uma passagem bem-sucedida daquele obstáculo. Mas, se deseja chegar à piscina, precisa da minha permissão."

Lex parou, suspirou.

"Por que você tem que fazer isso? Não seria melhor deixar as coisas acontecerem naturalmente? Se nós—"

O comandante cortou Lex com sua espada, apenas para revelar que, mais uma vez, ele enfrentava uma ilusão. De alguma forma, Lex o havia bypassado novamente, irritando ainda mais o comandante.

Porém, ao invés de mostrar sua fúria, ele sorriu.

"Muito bem. Muito bem mesmo. Continue assim e quem sabe você realmente consiga enganar seu caminho até o lago," disse o comandante, sua voz ecoando por toda a terra.

Até então, o exército havia parado de perseguir, percebendo que não conseguiria alcançar Lex. Assim, ao invés de continuar a corrida, começaram a tirar poltronas reclináveis e mantas de piquenique, sentando-se para assistir seu comandante lutar contra seu alvo.

O comandante apareceu mais uma vez na frente de Lex e, desta vez, ao invés de falar, partiu direto para o ataque.

Lex suspirou. Por que todo mundo gostava de lutar? Ele era um amante, não um lutador. Mas, já que a luta havia sido iniciada de qualquer jeito…

Naraka chocou-se contra o ataque do comandante. A ofensiva não era um soco, nem um raio, nem nada do gênero. Em vez disso, Naraka cortou a influência que afetava as leis de condenação que pressionavam Lex.

"Você acha que estava fugindo por minha causa?" perguntou Lex, fixando o olhar no comandante. "Não, apenas quis poupar a sua vergonha de fracassar na frente dos seus soldados."

Enquanto falava, Lex começou a analisar a situação em detalhes. No reino dos Imortais Celestiais, uma luta não era mais uma disputa de força bruta, habilidade ou capacidade pura. Era uma questão de engenhosidade. Pelo menos, pelo que Lex pôde perceber.

A força e a vitalidade de um Imortal Celestial eram muito maiores, tornando quase impossível matá-los. Além disso, seus meios disponíveis eram praticamente ilimitados. Não bastava antecipar os ataques do inimigo, era preciso superar sua inteligência na defesa e no ataque.

Lex ainda não tinha tempo suficiente para desenvolver novas Técnicas da Lei, muito menos truques e táticas que pudessem ser úteis como um Imortal Celestial. Seu adversário, contudo, não só era um Primordial, como seu nível de cultivo talvez fosse até mesmo de um Ser Celestial, o que lhe dava acesso a um número ainda maior de leis.

Essa era a complexidade da situação. Contudo, também havia uma sensação de simplicidade. Lex tinha confiança absoluta em seu corpo. Tudo o que precisava era acertar um golpe bom — o problema, agora, era fazer esse golpe acontecer de alguma forma.

"Você foi muito bem por chegar até aqui, humano," disse o comandante, seus olhos fixos em Lex, desta vez sem permitir que ilusões o distraíssem. "Talvez consiga até superar esse obstáculo. Como eu dizia, tudo que você precisa é me impressionar, e eu deixarei você seguir."

"Que gentileza," respondeu Lex, rolando os olhos, antes de começar.

Ambos ativaram suas habilidades nos olhos. Com o olho esquerdo, Lex lia cada movimento do comandante, estudava cada lei, antecipava cada ataque. Com o olho direito, Lex invocou uma formação massiva ao redor deles, preenchendo-a com arrayas e Glifos. Como o ambiente no Jardim Primordial era especial, ele era ainda mais receptivo à influência dos caracteres do Livro das Mutações.

Em um instante, o campo de batalha estava configurado. Estavam em uma luta de gaiola, e acima deles, nuvens de tribulação se formavam — ou ao menos o que parecia ser nuvens de tribulação.

Usando suas arrayas e formação, Lex recriou a tribulação que ele mesmo havia experimentado, ou pelo menos, criou um ataque semelhante em aparência e poder.

Isso provocou uma reação do comandante, mas o raio-tridente se formando no céu era apenas uma distração — embora, se Lex tivesse sorte de que o ataque acertasse, não reclamaria. O ataque real estaria oculto entre as inúmeras investidas que Lex mesmo iniciava.

Instantaneamente, ambos se lançaram ao combate. O comandante claramente não estava acostumado a depender de seu corpo em uma luta, não que fosse fraco de qualquer modo. Pela lei da causalidade, ele interferia na direção dos arrayas que o visavam, e, pelas leis do eco, multiplicava seus próprios ataques.

Lex foi rapidamente pressionado na luta, estando em desvantagem, mas também aprendendo imensa quantidade de informações a cada momento.

Primeiro, percebeu que o comandante usava as leis de forma bem mais direta do que Lex esperava. Ele faltava engenhosidade e astúcia que Lex tinha aprendido com Cornélio, o rei humano. Em vez disso, trilhava o caminho da força bruta. Como era um Primordial, conseguia fizer com que as leis se dobrassem à sua vontade por força bruta.

Isso funcionava até certo ponto. Contudo, como não conseguia derrotar Lex de forma definitiva, seu fracasso era inevitável. Ele tinha mais familiaridade com as leis, mas sua aplicação era ainda mais limitada que a de Lex.

Um brilho passou pelos olhos de Lex enquanto planejava sua próxima jogada. Finalmente, o raio-tridente caiu, e com ele, veio o próximo passo do plano de Lex.

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