O Estalajadeiro

Capítulo 1909

O Estalajadeiro

"Pensei que tínhamos evacuado todos os Lordes Demi-Dao," disse Eclipse apoiando o queixo na mão. "Por que Oaka ainda está lá?"

Harriot suspirou enquanto olhava para a cobra com cansaço nos olhos.

"Ele esmagou seu Dao de novo," respondeu o poodle. "Ele diz que prefere não se tornar um Lorde do Dao do que se tornar um Lorde do Dao com um Dao que não aprova."

"Isso é idiota. Ele mesmo cria os Daos. Como eles podem ser algo que ele não aprova?" perguntou Eclipse. Mas não havia uma resposta concreta para isso. A cobra era livre para fazer o que quisesse, desde que não prejudicasse o jardim de alguma forma — não era como se precisassem desesperadamente de Lordes do Dao ou algo assim.

Os dois continuaram assistindo Lex trocar 18 escamas de dragão por uma bússola. Na verdade, essa taxa de troca era bem ruim, mas este era o Jardim Primordial, então o valor dos materiais de Imortais Celestiais não era lá grande coisa aqui.

Lex não se incomodou em comprar mais nada, nem mesmo consultar os preços. Entrou na loja por curiosidade, não para fazer uma avaliação de sua pobreza. Acontece que, mesmo após possuir um reino inteiro, um homem ainda podia ser pobre.

"Ei, Lex, antes de você sair, por favor, pegue isso," disse Oaka de repente, deslizando de trás do balcão e entregando-lhe um cartão de visita. "Já que agora você é um cliente oficial da minha loja, pode usar este cartão em qualquer lugar do Jardim Primordial para entrar e comprar algo. Confie em mim, temos tudo o que você precisa, e ainda mais coisas que você nem imagina que precisa!"

Lex levantou uma sobrancelha, de repente lembrando de seu próprio sistema. Todos os visitantes que compravam algo poderiam receber uma chave para voltar à pousada. Será que Oaka era usuário de sistema?

A dúvida parecia sincera, mas Lex tinha a sensação de que isso não era o caso. Ao contrário, ele achava que Oaka tinha força suficiente para fazer isso por conta própria.

Mary já lhe tinha dito que ele associaria tudo relacionado a magia a sistemas, mas, à medida que ficava mais forte, perceberia que cultivadores mais poderosos podiam fazer o mesmo por conta própria. Parece que ele finalmente tinha força suficiente para se conectar a essas pessoas.

"Obrigadão," disse Lex, pegando o cartão.

Ele saiu da loja e olhou para a bússola, que apontava para dentro do cânion. Tinha menos de três horas para sair do cânion, mas não tinha intenção de demorar tanto assim.

Teleportar ou usar qualquer atalho era mais perigoso do que viajar pelo chão — o que fazia com que tudo que precisasse fosse correr mais rápido. Lex usou toda a força e avançou na direção máxima. Em qualquer outro lugar, essa demonstração de força bruta teria deixado um buraco no chão e causado vários estalos sônicos. Aqui, ele mal movia uma rajada de vento.

Quanto mais fundo entrava no cânion, mais escuro ficava, como se a luz não atravessasse o teto de cristal. Ou, melhor dizendo, como se as paredes do cânion não apenas sugassem os sentidos espirituais, mas a eficácia de todos os sentidos.

A gama de sua visão começou a diminuir, a potência de sua audição e até a precisão de seus instintos começaram a se apagar. O mundo ao redor de Lex começou a escurecer até que tudo o que ele podia ver e sentir eram seus arredores imediatos, finalmente entendendo por que a bússola era necessária.

Mas não era só isso. Por causa de sua conexão com a pousada e Jack, Lex também percebeu que sua percepção do fluxo do tempo ao redor começava a escapar-lhe. Parecia, para ele, que tinha corrido por poucos minutos, mas, se suas estimativas estivessem certas, já tinha se passado uma hora inteira.

Felizmente, mesmo enquanto corria, não encontrou nenhuma janela sem saída, ou teria gasto ainda mais tempo. Na verdade, tão profundo no cânion e tão comprimido por suas paredes, Lex quase sentiu que perderia completamente o rumo, incapaz até de determinar sua localização ou para que lado deveria ir.

Não havia inimigos nem armadilhas, talvez estivesse no caminho certo, mas isso não trazia esperança a Lex. Pelo contrário, ele ficou ainda mais sério ao perceber que aquilo era um verdadeiro obstáculo, difícil demais para ser superado sozinho. Ao final, apesar de seus melhores esforços para passar rapidamente, passou-se três horas.

Todo o cânion tremeu, como se dissesse que seu período de proteção de iniciante tinha acabado. Uma fina névoa começou a subir do chão, preenchendo o ar do cânion com uma energia com a qual Lex estava totalmente familiarizado.

"Fantasmas," gruiniu Lex ao puxar Naraka. Fantasmas não são exatamente as almas dos mortos, apesar de muitas culturas e crenças afirmarem isso. Eles são formas de vida distorcidas, nascidas da energia de uma alma quando ela colapsa, por isso às vezes parecem semelhantes às pessoas que morreram.

Fantasmas, assim como as criaturas de Abadom, almejam almas e a energia das quais elas são feitas, pois é isso que permite que eles cresçam. A razão de Lex não gostar deles era simples: eles eram todos pão duro!

O Templo da Meia-Noite aceitava visitantes de todas as raças, até algumas que Lex preferiria evitar, como os Gilati, uma raça de criaturas semelhantes a lesmas tão irritantes que dava até pra entender a vontade de fugir. Mas os fantasmas eram os mais baratos de todos, fazendo qualquer coisa para conseguir algo de graça, mesmo que o serviço realmente valesse a pena.

Um ponto importante a destacar é que Fantasmas e Espíritos não são a mesma coisa. Por exemplo, se um visitante pagar todas as suas posses para o Templo usar o serviço "Além da Sepultura", ele será transformado em Espírito. Isso permite que eles continuem existindo, embora em uma forma diferente — ligados aos limites do Templo. Já um Fantasma é sempre uma entidade nova, mesmo que herde algumas memórias da alma de onde veio.

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