O Estalajadeiro

Capítulo 1907

O Estalajadeiro

Harriot, claro, podia enxergar a verdade. Ao contrário de Eclipse, o poodle não tinha suas habilidades seladas — ele simplesmente não era tão forte quanto Eclipse. No máximo, era um pouco mais forte que a média dos Lordes do Dao.

Mesmo assim, isso era mais do que suficiente para enxergar através de Lex e de tudo o que lhe dizia respeito — assim como o fato de que ele tinha informações aleatórias escondidas ou encobertas, mesmo para Lordes do Dao. Considerando que ele vinha de uma organização que também tinha um Lorde do Dao, isso não era muito surpreendente.

Porém, Harriot não precisava desvendar os segredos de Lex. Ela podia perceber as intenções de Lex no jardim, que não eram exatamente altruístas, mas também não eram as piores. Sua maior ambição era apenas usar alguns recursos do jardim e talvez estabelecer uma conexão com Eclipse.

Dentre aquelas criaturas notáveis que entravam no jardim, esses motivos podiam ser considerados os mais básicos e simples. Harriot não se importava com os recursos, desde que Eclipse desse sua aprovação, pois tudo aqui era basicamente de origem local. Quanto à formar uma conexão com Eclipse, era tanto muito fácil quanto muito difícil.

Ela era uma criatura despreocupada, então qualquer um poderia se tornar amigo dela — desde que tivesse coragem e sinceridade. Ao mesmo tempo, ela era alguém que tinha sobrevivido até agora desde a Era Primordial, portanto, poucos no universo tinham tanta experiência quanto ela. Mesmo sem suas habilidades do Dao, não era fácil enganá-la. Ela podia, basicamente, ver através de todo mundo com um olhar.

Então, se ela ainda estava de olho em Lex, é porque ele devia estar fazendo algo certo.

"As aranhas estão ficando cada vez mais criativas," comentou Harriot, e continuou a observar. Eclipse apenas acenou com a cabeça.

Enquanto isso, Lex corria como se sua vida dependesse disso, porque realmente dependia.

"Galera, podemos conversar sobre isso," gritou Lex atrás das aranhas que montavam os gigantescos vermes. Mas, por algum motivo, elas não pareciam inclinadas a aceitar sua sugestão.

"Pois bem, dei uma chance pra vocês," murmurou Lex, antes de ativar o Escudo Imortal. Embora ainda não tivesse adaptado a Lei do Reino do Imortal para o reino dos Imortais Celestiais, ele era a barreira mais forte que conseguia conjurar enquanto fosse um Imortal Terrestre. Para aumentar a resistência, fez ela invisível e a espalhou do chão até o teto de cristal bem atrás dele.

Um segundo depois, os vermes colidiram contra a barreira, cuja velocidade e força causaram um terremoto enorme e até feriram gravemente as criaturas, embora a barreira permanecesse totalmente intacta. As aranhas também ficaram feridas na colisão, pois dentro da barreira Lex infundiu várias forças nocivas, como intenção de espada e Inferno Dourado.

A área atrás dele ficou completamente selada, pois a barreira era larga o suficiente para bloquear toda a região, mas Lex não tinha certeza de que ela duraria para sempre. O chão estava sugando energia dela mesmo naquele momento, e várias feras e criaturas estavam sendo atraídas como se fosse um grande farol de energia.

Felizmente, ele não precisava que ela durasse eternamente.

Lex alcançou o próximo trecho do percurso, que consistia em um grande cânion com as paredes subindo até o teto de cristal. O que havia lá dentro, Lex não podia dizer, porque, ao expandir seu sentido espiritual demais, as paredes do cânion pareciam diminuir sua percepção espiritual.[1]

"Olá, viajante," gritou uma cobra de uma caverna na parede do cânion. "Você é novo por aqui? Não te tenho visto antes. Se quer entrar, ou talvez atravessar o Cânion das Morte Súbita, talvez seja uma boa da uma olhada nas minhas mercadorias primeiro. Tenho armas, equipamento, remédios, mapas e outras coisas que podem precisar por lá."

Lex levantou uma sobrancelha ao ouvir o nome do cânion, e olhou de forma estranha para a cobra. Ela usava uma capa de comerciante bastante respeitável, fazendo parecer um NPC logo no começo de uma masmorra de um jogo de videogame.

Seus instintos não lhe alertaram de qualquer perigo vindo da cobra, e ele não sentiu ameaça alguma nas palavras dela também.

A lógica lhe dizia que aquilo era uma armadilha, porque que tipo de percurso de obstáculos teria uma loja dentro dele? Mas a mesma lógica também lhe respondia: do jeito que um jogador teria criado.

"Sim, sou novo," decidiu Lex responder honestamente. "Quero atravessar o cânion. Você tem alguma coisa que possa me ajudar?"

"Sim, sim, claro! Pode me chamar de Oaka. Entre, dê uma olhada nas minhas mercadorias. Tenho muitas coisas que podem ajudar você, embora o que servir seja algo que só você pode determinar."

Lex olhou ceticamente para a cobra, e então virou para olhar atrás de si, para todas as criaturas que atacavam sua barreira. Parecia ter algum tempo, então não faria mal dar uma olhada.

"Claro, faz sentido," disse Lex, e entrou na caverna. É claro que, assim que entrou oficialmente no cânion, seus instintos lhe enviaram um alerta. Este lugar era perigoso, e ele tinha cerca de 3 horas para sair antes que a situação piorasse.

Para reforçar seu aviso, as paredes do cânion de repente tremeram, soltando rastros de poeira e terra.

"Não ligue pra isso," disse Oaka com um sorriso claramente de vendedor. "É assim que o cânion cumprimenta todo mundo. Se você escapar antes que o Fantasma do Azar te pegue, não precisa se preocupar."

Em vez de explicar melhor, Oaka espalhou as contas que funcionavam como uma porta para sua caverna, e esperou Lex entrar.

"Isso é uma ideia brilhante," falou Lex consigo mesmo de forma sarcástica antes de entrar. Para sua surpresa enorme, o interior da caverna estava bem decorado.

Era uma loja grande, porém bem organizada, com inúmeras fileiras e balcões, todos cheios de diversos objetos de troca.

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