O Estalajadeiro

Capítulo 1898

O Estalajadeiro

Eclipse levantou não uma, mas ambas as sobrancelhas ao olhar curiosamente para Lex.

"O Velho Padeiro consegue reproduzir as leis do Jardim Primordial?" ela perguntou, maravilhada.

"Se for absolutamente sincero, não sei," respondeu Lex, levantando as mãos. Antes que pudesse continuar, Eclipse o interrompeu.

"A única pessoa que diz ‘se sou sincero’ é quem mente."

Lex ficou sem reação. Bem, tecnicamente, ele estava mentindo, mas a verdade a que ele se referia era que não sabia se o sistema realmente poderia reproduzir energia primordial.

Ele logo se corrigiu.

"O que quero dizer é que o Velho Padeiro está interessado em estudar as leis na esperança de recriar energia primordial, mas não tenho certeza se ele consegue realmente fazer isso. Contudo, tenho os meios de tentar registrar as leis para que ele possa tentar recriá-la."

Os olhos de Eclipse se arregalaram de surpresa.

"Isso é realmente impressionante, se ele acha que consegue fazer isso. Você sabe que até o velho Ventura não consegue recriar meu jardim. Claro, você pode registrar as leis desde que não prejudiquem de jeito nenhum as leis do meu jardim. Agora fiquei bastante curiosa sobre esse Velho Padeiro, nunca tinha ouvido falar dele antes. Você sabe de onde ele é?"

Lex ficou sem palavras. Muitas pessoas sempre se perguntaram sobre o Velho Padeiro, mas ninguém tinha perguntado diretamente a ele. O problema era que, mesmo se perguntassem, ele poderia mentir. Mas como mentir para um Senhor Dao bem na frente, sem o apoio do traje de anfitrião?

"Para ser honesto, nunca perguntei a ele," respondeu Lex.

"Só mentirosos dizem ‘para ser honesto’," retrucou Eclipse, deixando Lex mais uma vez sem chão. Por que ele tinha esquecido como conversar hoje?

"Eu... nunca ousei perguntar nada sobre o passado do Velho Padeiro. Só posso falar sobre as coisas que testemunhei desde que entrei na Taverna da Meia-Noite," respondeu Lex. Cada palavra era verdadeira, e se o Senhor Dao tinha alguma forma de verificar os detalhes, bem, ele estaria ferrado. Mas, se ela pudesse perceber a verdade ou a mentira no que dizia, ela não deixou transparecer.

"Certo, esqueça isso. Você acha que poderia convidar o Velho Padeiro para tomar um chá? Estou muito interessada em saber como ele planeja recriar a lei para gerar energia primordial. Tive que sacrificar a maturidade completa do meu reino para dedicar uma parte do seu poder à formação de um conversor de energia primordial. Sabe, originalmente, energia primordial foi criada na origem do universo? Tive que recriar um processo semelhante ao nascimento do universo para manter a energia fluindo no meu pequeno jardim."

Lex, claro, desmaiou novamente antes de ouvir toda a extensão do que ela dizia. Não tinha jeito — mesmo com todo o seu poder selado, ela era um Senhor Dao, e cada frase que proferia continha segredos incríveis.

Todo o histórico da Era Primordial era um segredo, e nem mesmo o karma daquele tempo podia ser rastreado. Assim, as coisas casuais que Eclipse mencionava eram assuntos que até mesmo os Dao Lords comuns não tinham como saber com certeza — só podiam fazer suposições.

Dessa vez, ao invés de aspergir Lex com água, ela cutucou seu rosto com um graveto.

"Ei, garotinho, acorde. Acorde, não durma na grama, você vai pegar um resfriado. Até as bactérias deste reino são primordiais — aquelas coisas vão acabar com você."

"Eu... peço desculpas por isso," disse Lex, gemendo ao perceber o que tinha acontecido.

"Tudo bem, estou acostumada," disse Eclipse com um encolher de ombros. "Mas sim, pergunte ao Velho Padeiro se ele pode vir aqui para um chá. Podemos conversar."

Lex esfregou a cabeça, lutando contra uma dor de cabeça literal e metafórica que o matava naquele momento.

"Eu... vou perguntar a ele. Mas, para vir aqui, ele vai ter que enviar uma taverna para cá. O Velho Padeiro normalmente não sai dos jardins," confessou Lex.

"Ah, totalmente compreensível. Eu também nunca saio do jardim — esse lugar funciona como uma selo do meu poder. Se eu sair, provavelmente vou abrir um buraco no tecido da realidade. Ei, ei, não desmaie de novo," disse Eclipse, desta vez segurando Lex antes que ele caísse outra vez.

Essa foi a conversa mais constrangedora e embaraçosa de sua vida.

"Então, com sua permissão, vou tentar registrar as leis aqui," confirmou Lex mais uma vez. Só após ela encolher os ombros, como se não se importasse, é que ele ativou a função de replicação de leis do Reino do seu Loja.

"Aliás, garotinho, acabei de lembrar. Você passou por uma tribulação primordial. Agora, você não sente muita diferença, mas deve tomar cuidado ao sair do jardim. O espaço aqui é perigoso. Fora deste reino, se você não contiver bem sua presença, vai rasgar o espaço e cair no Vazio."

"Deixa eu te contar, uma Primordial no Vazio é uma confusão danada. Uma vez joguei uma bolota primordial no Vazio só por diversão. Agora, virou o Reino da Bolota. Você já esteve lá? É lar do grupo mais hedonista de esquilos que o universo já viu. Um amigo meu me contou que esses esquilos caçaram um dragão e o arrastaram de volta ao reino deles — e você sabe o que dragões fazem nessa situação. O dia todo, só se banham em ouro e joias."

Lex abriu a boca para perguntar o que ela queria dizer com seu aviso sobre precisar controlar bem sua presença. Auras dele nunca vazavam, a menos que ele quisesse. Mas a história a deixou sem palavras, sem saber o que responder.

Lex jurava que costumava ser um conversador muito melhor, mas, diante de uma história sobre esquilos hedonistas que sequestraram um dragão para contar as suas riquezas, ele não sabia o que dizer.

Por sorte, alguém veio ao seu resgate. Lotus finalmente se recuperou de roubar energia da tribulação de Lex e quis que ele fizesse uma pergunta para Eclipse.

"Tenho um amigo que está comigo e tem uma questão para você," disse Lex, sem mencionar os esquilos. "Ele quer saber por que o reino parece estar mais pesado de um lado do que do outro?"

Lex nem sabia o que aquilo significava, mas perguntou assim mesmo.

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