O Estalajadeiro

Capítulo 1852

O Estalajadeiro

Lex não soube exatamente como responder. Deveria expressar sua tristeza, seus arrependimentos? Ou talvez devesse agir normalmente, afinal Giselle certamente não parecia disposta a demonstrar emoções enquanto recordava seu passado. Talvez pudesse mostrar raiva ou ódio daqueles que lhe fizeram mal.

Ou então, poderia provocá-la.

"Isso explica por que fiquei tão concentrado em salvar as crianças lá em Polebitvy. Pensei que talvez você… não, esquece."

A expressão de Giselle de repente ficou séria, ela o encarou com uma mirada dura.

"O que você achou que fosse?" ela perguntou, a voz de repente vazia de emoções.

"Não, nada. Não achei nada," Lex se defendeu, levantando as mãos em sinal de rendição.

"Não, me diga. O que você achou? Por que seria estranho alguém estar salvando crianças? Quem vê crianças em uma situação apocalíptica e não tenta salvá-las?"

"Não, na verdade, não achei estranho nem suicida, e achava que se eu não tivesse te salvado, todo mundo teria morrido. Nunca pensei nisso!" respondeu Lex, tentando — mas fracassando — em esconder seu sorriso.

"Você me salvou? Com licença, pelo que me lembro foi eu quem salvei você!"

Lex riu e concordou, como se fosse exatamente isso que acontecera, mas quanto mais ele concordava, mais ela ficava irritada, como se percebesse sarcasmo. Por algum motivo, vê-la irritada lhe dava uma satisfação profunda que ele não podia explicar.

Por fim, no entanto, ambos se acalmaram.

"Brincadeiras à parte, lamento que você tenha passado por tudo isso," disse Lex finalmente reconhecendo seu passado. "Mas mais do que isso, estou bastante impressionado com quem você escolheu se tornar, apesar de tudo que passou. Isso… não deve ter sido uma conquista fácil."

Giselle não respondeu, pelo menos por alguns segundos. Toda energia que ela tinha dedicado a resistir à lembrança distorcida de Lex pouco a pouco se esgotou, assim como ela também reconheceu tudo o que tinha vivido… e a sensação estranhamente quente que o elogio de Lex lhe proporcionou.

De repente, Giselle bufou, afastando os olhos dele, incapaz de encarar a sinceridade nos olhos dele.

"Para de tentar me bajular. Não funciona. Agora, quais eram os favores que você queria de mim? Preciso saber se consigo fazer isso, pois tenho uma agenda cheia pela frente. Passei muito tempo longe do torneio dos Campeões, então certamente perdi todas as chances de vencê-lo, mas ainda preciso chegar às fases finais."

Lex sorriu, mas não deu muita atenção ao assunto.

"Tenho dois favores para te pedir, mas na verdade pode fazer os dois ao mesmo tempo," disse Lex, pegando a carta que estava escrevendo e dobrando-a para colocar numa envelope.

"No torneio dos Campeões, tenho alguns amigos. Alexander, Larry, Rafael… um monte de gente, na verdade, mas todos eles estão juntos. Eles estão prestes a superestimar suas forças e acabar mortos — eu ficaria muito grato se você interviesse nesse momento crítico e salvasse suas vidas. Quero apenas que eles aprendam uma pequena lição sobre excesso de confiança."

"E, enquanto estiver nisso, deve ter alguém chamado Marlo por lá. Por favor, entregue essa carta para ele e diga que é do seu antigo aluno, Lex. Só certifique-se de que ele receba a carta, e pronto."'

Giselle pegou a carta e hesitou. À primeira vista, parecia algo totalmente comum, mas ao segurá-la, ela conseguiu sentir a intensidade do poder contido ali. Isso não era coisa comum.

"Tem certeza de que não quer entregar isso pessoalmente?" ela perguntou, mas Lex suspirou em resposta.

"Gostaria de poder, mas talvez tenha só alguns dias antes de ser forçado a atravessar meu reino. Preciso decidir onde vou fazer isso, além de resolver algumas outras coisas. Acho que ficarei bem ocupado depois disso, então não posso. Vou deixar isso com você."

Giselle levantou uma sobrancelha, imitando a expressão de surpresa de Lex.

"Isso é informação muito confidencial. Você tem certeza de que pode dividir isso com as pessoas?"

Lex deu de ombros, sem se estender mais no assunto.

"Acho que, quando acontecer, não vou conseguir esconder tão facilmente mesmo," disse Lex. "Aliás, não estou te informando isso para dizer que em breve te ultrapassarei em nível de cultivo. Não, certeza absoluta que não era isso."

Giselle o encarou inquisitivamente, mas guardou a carta.

"Se precisar de um lugar para passar sua provação sem chamar atenção, posso te dar algumas sugestões," ela disse. "Tem um planeta feito de puro mármore na borda do reino conhecido, no Reino da Origem, chamado Thassos. Em vez de núcleo tradicional, o planeta tem uma estrutura esquisita no centro que funciona como um portal para um reino menor desconhecido. É um lugar totalmente isolado, sem rastros. Alguns centenas de milhares de anos atrás, os Henali descobriram lá alguns tesouros valiosos, mas desde então o local meio que foi abandonado, já que não há segurança de verdade."

"Isso me parece… completamente aleatório," disse Lex, imaginando um planeta de mármore. "Vou pensar nisso, mas ainda não tenho certeza do que fazer. Quero aproveitar ao máximo a situação, tenho muitas coisas para considerar."

Lex e Giselle ficaram ali, conversando por um tempo, falando sobre sua provação que se aproximava, sobre os planos dela no torneio dos Campeões, sobre tudo quanto era assunto.

Ambos sabiam, instintivamente, que assim que se levantassem, provavelmente demoraria para se verem novamente. Então, simplesmente continuaram ali, conversando. Mas mesmo com Giselle dominando o tempo a um grau inacreditável, ela não conseguia impedir que tudo passasse, e chegou um momento em que tiveram que se despedir.

Lex não saiu da cabana enquanto Giselle se foi, permanecendo ali mais um tempo, apenas observando a Taverna Meia-noite. Não pôde deixar de comparar sua vida com a dela, percebendo que todas as dificuldades que enfrentou, toda a dor… sua influência ou peso sobre ele quase se esvaiu.

A vida às vezes foi cruel, mas também foi generosa, e nenhuma prova disso era maior do que a paisagem à sua frente — ou o calor de outra pessoa naquele banco, que simplesmente se recusava a desaparecer. Ou talvez fosse apenas sua lembrança que permanecia quente, e nenhuma condição climática poderia afetar isso.

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