
Capítulo 1844
O Estalajadeiro
A situação estava longe de ser ideal — ou pelo menos era assim que parecia. Se fosse o Lex, ou a Giselle, ou a formação, os três eram pontos frágeis. Qualquer um deles que o inimigo neutralizasse, o resultado seria o mesmo: um fracasso no plano de interromper a tempestade.
Se Lex caísse, os escudos que os protegiam falhariam, destruindo a formação e ferindo Giselle. Na verdade, Lex nem precisaria cair de fato, apenas ser suprimido ao ponto de tornar impossível a manutenção do escudo.
Se a formação fosse destruída, então a presença deles ali seria inútil. Se Giselle caísse, Lex sozinho não conseguiria manter a formação.
Para piorar, só Giselle podia defender-se contra os inimigos, porque Lex estava ocupado demais em se defender. Claro que, na superfície, parecia assim.
"Sério mesmo que os bandidos não conseguem perceber o óbvio?", disse Lex com jeito. "Não seria mais fácil atacar um planeta desocupado? Ou, mesmo que precisem de muitas vidas, seria mais fácil comprar alguns bilhões de criminosos e eliminá-los do que tentar lutar contra um império e torcer para não serem descobertos ou apanhados. O único que o Perverter está profanando é a própria reputação, com aquelas forças muito mais fortes do que ele."
"Pervertidos, por natureza, precisam corromper e destruir coisas. São completamente egoístas, ligando só para si mesmos, incapazes de fazer algo que possa beneficiar alguém mais," respondeu Giselle. "E, aliás, para de falar? Tô tentando lutar aqui."
Jack revirou os olhos, porque Lex tinha que fazer uma cara séria, sofrendo. Pequenos-Brilhos, que lhe dava uma explicação sobre como sobreviveram ao cerco, de repente se sentiu confuso e perdido. Será que tinham feito algo errado?
Lex e Giselle continuaram a encenação, struggleando e avançando a passo de tartaruga. Mas fizeram progresso, quase nada, mas era suficiente. Justamente o bastante para convencer o Perverter de que eles não eram uma ameaça séria.
O verdadeiro problema que Giselle previa era lutar contra o Perverter na tempestade assim que ele aparecesse. Mesmo que largassem a fachada, a interferência da tempestade era real. Mesmo que Lex conseguisse colocar escudos ao redor deles, não poderia proteger seus ataques — isso enfraqueceria o objetivo.
Portanto, assim que o Perverter aparecesse, caberia a Lex concluir a formação e realmente dissipar a tempestade, enquanto Giselle o mantinha ocupado. Era um plano bem elaborado, com só uma falha crítica que não conseguiram prever. Se o Perverter não aparecesse, eles não tinham o que fazer.
Por 30 horas, lutaram, onda após onda de monstros, até que até os Profanadores começaram a aparecer. Resistiram, apesar das desvantagens aparentes, até que cerca de 80% da formação estivesse concluída.
Então… as cargas de ataque de repente cessaram. Como se percebendo o perigo que se aproximava, Giselle começou a trabalhar ainda mais rápido por cerca de quinze minutos. Foi nesse momento que Lex percebeu uma sombra na tempestade se aproximando rapidamente.
"Ele está vindo," disse Lex em voz alta desta vez, sem se incomodar em usar o sentido espiritual.
Em vez de acelerar ainda mais, Giselle se afastou da formação e se preparou para a batalha.
Levaram poucos segundos para o Perverter chegar até eles. Lex não sabia o que esperar, mas certamente não era o que viu ao ver o Perverter emergindo diante deles.
O Perverter era simplesmente… escuridão. Ele, ou melhor, aquilo, nem poderia ser descrito como uma sombra, pois não era.
Era apenas um aglomerado de trevas, nem líquido nem gás, movendo-se pela areia, até que, eventualmente, assumiu uma forma. Optou por transformar a escuridão que compunha seu corpo em uma silhueta vaguamente humanóide — uma que poderia ter sido desenhada por uma criança com lápis de cor.
Seu corpo não tinha contornos definidos e, embora se parecesse vagamente com um humano, havia partes que se borravam… ligando-se a outras partes do corpo de maneiras que não deveriam acontecer.
A única parte que não era preta eram os olhos. Pareciam dois buracos rasgados forçadamente do tecido, substituindo a escuridão por branco puro, embora, de tempos em tempos, a natureza fluida de seu corpo fizesse fragmentos de trevas flutuarem pela visão de seus olhos.
"Giselle, eu sempre soube que te mataria — só não imaginava que seria tão cedo," falou o Perverter, com uma voz que parecia um grito, mudando de tom constantemente. Ouvir aquilo era desconfortável e irritante. Lex quis apenas dar uma palmada na criatura e acabar com a tarefa… mas ficou claro que Giselle precisava da catarse de derrubá-lo ela mesma, então manteve-se de fora — por enquanto.
"Se tiver alguma última palavra, nem perca tempo. Ninguém está interessado," disse Giselle, antes de lançar um ataque.
Desde o momento que o Perverter apareceu, Lex bloqueou o espaço ao redor. Nenhuma barreira foi montada, e parecia não haver interferência na tempestade, mas se o Perverter tentasse escapar, descobriria que era incapaz de fazê-lo.
Enquanto isso, Lex parecia recuar, lutando para proteger ambos e manter a formação. Só porque a armadilha foi acionada, não quer dizer que precisavam mostrar tudo agora. Assim, o Perverter ficaria distraído também, focando parcialmente em tentar impedir Lex.
Tudo parecia simples, mas será que realmente seria assim? Quase todos os reinos por onde Lex já passou mantinham uma política rígida de 'sem Perverter', e provavelmente havia uma razão. É provável que logo ele descubra qual.
Um momento depois, Giselle cruzou com o Perverter, e as consequências daquele ataque fizeram a expressão de Lex mudar.
Giselle estava bem, intacta até, mas nada mais. À medida que a energia Profana se espalhava, o chão começava a se corromper, as areias a se transformar, os ventos a ganharem vida própria. Mas nada disso foi suficiente para assustar Lex. O que realmente o surpreendeu foi perceber como as leis ao redor deles começaram a sofrer mutações!
Energia Profana por si só não era capaz de fazer aquilo, mas quando um Perverter usava essa energia… ele podia profanar as próprias leis!