
Capítulo 1839
O Estalajadeiro
— Certo, agora eu descobri — disse Lex, assim que eles terminaram de escolher a roupa perfeita para o dia. Parecia que Almira tinha uma queda por se vestir como uma princesa — considerando que ela era, na verdade, uma — então, desta vez, seu visual consistia em um vestido rosa com asas de fada, sapatinhos fofinhos e macios na mesma tonalidade, e uma fita rosa amarrada nos poucos fios de cabelo que tinha. Havia uma certa harmonia de cores em seu vestido, mas só as mentes mais perspicazes poderiam perceber a preferência sutil que a bebê mantinha.
— Ah? O que você descobriu? — perguntou Giselle, tentando não demonstrar o quanto Lex estava a mimando ao deixar uma BEBÊ DE DOIS MESES escolher toda uma roupa na costureira. Para piorar, ela tinha visto do que o vestido era feito. Se uma bala caída do céu atingisse a bebê, ela mal sentiria o calor. Na verdade, Giselle não tinha problema algum em fazer a bebê usar roupas com defesas fortes — na verdade, era uma das poucas coisas que Lex fazia hoje que fazia sentido. Ainda assim, gastando milhões de MP em uma roupa para um dia e que ela logo cresceria —
Giselle balançou a cabeça, achando melhor não pensar nessas coisas.
— A melhor solução de compromisso — disse Lex, enquanto pegava delicadamente Naraka de Almira e entregava-lhe a mamadeira com leite. A bebê começou a sugar rapidamente, embora seus olhos permanecessem bem abertos, fixos em Lex e Giselle, como se estivesse bastante interessada na conversa. — Eu vou mimá-la, mas não de forma a virar uma criadinha chorona. Ela será uma… uma angelezinha mimada, mas com um bom coração. Sabe, ensinar empatia e essas coisas. Para que ela não vire uma patricinha mimada.
Giselle suspirou. Pelo menos, ela admirava a insistência de Lex em ser o tio divertido. Antes que pudesse pensar em uma maneira de explicar para Lex por que isso era claramente uma péssima ideia, alguém falou.
— Sua abordagem está errada. Ou, para ser mais exata, a própria concepção da sua ideia tornou-se equivocada — disse Anita, que surgiu ao lado deles usando um casaco bem grosso.
Qawain, que também apareceu logo ao lado dela, carregava mais alguns casacos e parecia não estar nada contente com a esposa andando por aí, embora soubesse que discutir com ela não adiantaria.
— Ah? Como assim? Ah, Anita, essa aqui é Giselle, minha amiga. Ela estava me convencendo a não mimar demais a Almira.
Anita lançou um olhar suave para Lex, incomodada com sua ousadia de falar aquilo na frente dela.
— Prazer, Giselle, e obrigada por cuidar da minha filha. Agora, o motivo pelo qual digo que sua ideia está equivocada é porque você a descreveu como um compromisso. Vocês dois estão trabalhando juntos por um mesmo objetivo, então, ao chamarem isso de compromisso, parecem estar perdendo algo ou abrindo mão de algo. Na verdade, vocês deveriam chamar de colaboração. Uma parte traz suas ideias, a outra também, e vocês trabalham em conjunto para obter os melhores resultados.
Lex não pôde evitar levantar as sobrancelhas, sentindo como se seu cérebro tivesse explodido. Era uma ideia tão simples, mas, dita assim, a mesma ação parecia completamente diferente.
— Uau, isso é muito bom. Vou seguir esse conselho — disse Lex, sério. — Como você teve essa ideia?
Ao ouvir a pergunta, Qawain deu uma risadinha.
— Anita e eu somos casados há muito tempo. Assim, aprendemos a arte da colaboração há eras. Por exemplo, acho que Anita precisa descansar mais, já que ainda está fraca por causa do parto, mas ela acha que já deu tempo de retomar o trabalho. Então… nós dois saímos para trabalhar, mas estou levando uma quantidade de casacos para garantir que ela permaneça aquecida e protegida.
Lex sorriu, mas internamente fazia o possível para não lacrimejar ou demonstar que seu rosto se contorceu. Aquilo… não parecia uma colaboração de verdade. Para distraí-lo, mudou de assunto.
— O que vocês vão fazer agora? Não sabia que vocês já iam voltar ao trabalho — perguntou Lex a Anita.
— Ah, não, não vou trabalhar na pousada — esclareceu Anita. — O gerente foi generoso e me deu licença maternidade de 50 anos, depois que descobriu que Almira nasceu como uma Alta Humana. Sabendo do ritmo lento de crescimento e desenvolvimento das Altas Humanas, espero que ela esteja ainda na fase de bebê até lá, assim posso ficar um tempo longe dela. O trabalho ao qual Qawain se referia é algo mais particular.
— Voltaremos ao nosso planeta natal. Antigamente, eu era rainha daquele planeta. Mesmo tendo deixado a coroa com o passar do tempo, aquele planeta é nossa origem e lar. Quero que Alma cresça lá, conheça seus direitos e herança. Quero que ela viva e sinta o mesmo que seu povo, então não há risco dela ser criada como uma chata mimada.
Lex demorou alguns minutos para processar tudo o que Anita tinha dito, com o rosto horrorizado!
— Você não pode levar a Almira embora por 50 anos! — exclamou, fazendo Almira rir enquanto mamava.
O planeta natal deles não era algo que Anita e Qawain costumavam mencionar com frequência, mas a pousada já tinha uma conexão com ele há bastante tempo. Hoje em dia, o planeta estava dominado por demônios. Pode parecer estranho, considerando a força deles, que Anita e Qawain simplesmente não fossem lá resolver o problema, mas eles não fizeram isso, e também impediram Lex de tentar.
O motivo era que, diferente de Vegus Minima, a invasão demoníaca no planeta ocorria por conflitos internos entre diversas nações. Alguns governantes tinham feito acordos com demônios para que suas forças tomassem o planeta, mas nenhum deles saiu vitorioso, resultando numa guerra longa, que só trouxe prejuízo para todos.
Qawain não tinha muito interesse na história, e Anita também deixou de ajudar há bastante tempo, quando seu povo deixou claro que preferia governar a si mesmo — e não serem liderados por um lich imortal. Uma esperança que não lhes serviu de muita coisa.
De qualquer forma, Anita queria que Almira crescesse vendo como é a vida do povo comum fora da pousada, para que ela adquirisse alguma perspectiva desde cedo, então não tinha muito o que Lex pudesse dizer a respeito.
— Vocês podem visitar de vez em quando — disse Anita, de forma descompromissada, antes de pegar Almira de Lex. Agora, a família precisava planejar suas formas de se disfarçar. Obviamente, não poderiam retornar ao planeta do jeito que estavam. Para ser honesto, Lex tinha uma certa inveja deles — não pelo fato de serem uma família feliz, mas por parecerem se divertir demais criando uma história de vida e se entregando a um mundo imaginário enquanto, secretamente, eram verdadeiros heróis.
Havia tanto potencial para aventuras ali. Infelizmente, Lex tinha muita coisa na cabeça para se dedicar a isso.