
Capítulo 1836
O Estalajadeiro
Treze meses após o término do leilão, Giselle voltou ao Pouso da Meia-Noite, com a aparência um pouco pálida, como quem estivesse se recuperando de uma ferida grave.
Ela fechou os olhos e suspirou, liberando toda a tensão que carregava. Dentro do Pouso, ela estava segura. Era uma coisa tão simples, e ainda assim significava tanto. Ao longo dos anos, ela quase nunca vinha ao Pouso da Meia-Noite, tinha trabalho demais para fazer e não podia perder tempo, mas era a coisa mais próxima de um lar que tinha.
Suas origens eram… complicadas. Por isso, ela não tinha um verdadeiro lar, nem precisava de um, para ser honesta. Ela tinha seus objetivos, e tudo o que precisava era trabalhar para alcançá-los. Onde ela estivesse, enquanto fosse temporário, pouco importava, especialmente porque se mudava bastante. Um lugar como o Pouso, que era acolhedor, amigável, seguro e acessível de qualquer lugar, era o máximo que poderia esperar de um lar.
Ela não foi imediatamente procurar Lex, embora esse fosse basicamente o motivo pelo qual veio ao Pouso. Primeiro, alugou um quarto e tomou um banho bem longo. Apesar de ser imortal — e de se lavar ser mais fácil do que piscar os dedos —, o hábito de banho para aliviar o estresse e relaxar não era algo que pudesse simplesmente abandonar, nem desejava fazê-lo.
Sua saúde não melhorou, mas, novamente, esse não era o tipo de ferimento do qual se recupera facilmente — muito menos de um banho simples. Ela também não tinha tempo para buscar ajuda, pois sua recuperação levaria, no mínimo, várias semanas, mesmo com o melhor dos cuidados.
Este momento, sentado na banheira, mergulhando na água quente, apreciando o aroma agradável que preenchia o quarto, era todo o descanso que podia conceder a si mesma. Apesar da simplicidade do prazer, ela se sentia muito melhor, tanto que acabou cochilando por um tempo na banheira. Infelizmente, esse momento não duraria para sempre. Logo ela acordou, se arrumou e saiu em busca de Lex.
Encontrar Lex não foi difícil, pois tudo o que ela precisava fazer era dizer ao holograma assistente pessoal que queria encontrar Lex Williams, e ele logo retornaria com as informações. Mas algo incomum aconteceu naquele dia. O holograma realmente não respondeu por quase uma hora, embora, quando o fez, lhe informou que Lex havia sido avisado do pedido de encontro e que a encontraria em um local combinado em quinze minutos.
Levando em conta a resposta, Giselle não pensou nada do atraso e foi direto ao ponto de encontro. No entanto, ao invés de encontrar Lex lá, ela só viu uma criatura enorme que parecia uma mistura entre um hipopótamo e um leopardo. Considerando que o Pouso tinha a tendência de encolher convidados realmente enormes — o que denunciava o tamanho real da criatura.
"Você é a Giselle?" perguntou a criatura, olhando para ela de forma estranha. "Um dos funcionários me disse que você queria me encontrar. O que posso fazer por você? E como você me conhece?"
"Hã?" murmurou Giselle, olhando para a criatura feroz.
"Lex?" ela perguntou, por um momento confusa.
"Sim, sou eu," confirmou a criatura que parecia um leopardo-hipopótamo.
"Desculpe, acho que houve um engano. Eu queria falar com Lex Williams, e o holograma deve ter confundido você com ele."
"Não, não há confusão," disse o leopardo-hipopótamo, olhando para ela de cima a baixo. "Meu nome é Lex Williams."
Giselle ficou sem ação. Bem, ela suspeitava que fosse possível mais de uma pessoa ter o mesmo nome.
"Procurava pelo Lex Williams que trabalha no Pouso," explicou, referindo-se ao Pouso da Meia-Noite.
"Sim, eu sou o Lex Williams, dono e gerente do Pouso," afirmou Lex, o leopardo-hipopótamo, destacando que era ele mesmo. Não conseguia entender a confusão. Não era a primeira vez que acontecia algo assim, e se não fosse por seu compromisso com o bom atendimento, já teria parado de aparecer toda vez que alguém informasse que queria falar com Lex.
Ele era nativo do reino da Meia-Noite e frequentemente visitava o Pouso da Meia-Noite para comprar suprimentos para seu próprio estabelecimento. Era um ótimo lugar, exceto quando coisas assim aconteciam.
Giselle tossiu, agora ficando com uma tonalidade de rosa, envergonhada com toda aquela situação. Ela puxou uma projeção de Lex — o humano, Lex — e mostrou para o leopardo-hipopótamo.
"Quer dizer, eu estava procurando meu amigo, Lex, que é assim. Desculpe pela confusão."
Lex, o leopardo-hipopótamo, olhou para a imagem e bufou pelo nariz.
"Já o encontrei antes. Uma pessoa o contratou para zombar da minha altura. Bem, tanto faz. Com licença, tenho tarefas para fazer."
"Sinto muito pelo mal entendido. Sempre que puder, visitarei seu Pouso, tenho certeza de que deve ser encantador."
"Sim, sim," resmungou Lex enquanto se afastava.
Giselle tossiu novamente e, ao invés de usar o holograma, procurou um funcionário de verdade. Explicou detalhadamente que desejava encontrar Lex Williams, o funcionário humano do Pouso da Meia-Noite, e que ele era sua amigo.
O funcionário foi extremamente prestativo, embora um pouco confuso com sua explicação detalhada demais, e a levou até um café onde informou que Lex a encontraria em breve. Quinze minutos depois, Lex teleportou-se diretamente para a loja, embora parecesse alguém que não dormia há um ano e tivesse acabado de sair de uma masmorra.
"Oi, desculpe por fazer você esperar," disse Lex, parecendo ainda distraído. "Estive bastante ocupado recentemente. Precisa de alguma coisa? Encontrou algum Desafetador?"
Em vez de responder, Giselle o olhou de forma estranha. Mesmo conversando com ela, Lex parecia claramente distraído, com mais da metade de sua atenção provavelmente algum outro lugar.
"Estou bem, mas… você está bem?" perguntou hesitante. "Você parece que passou pelo inferno."
Lex a encarou e não conseguiu deixar de sorrir de canto de boca.
"Passei pelo inferno — de uma certa forma. Venha, deixa eu te mostrar."