
Capítulo 1810
O Estalajadeiro
À medida que a tênue luz branca emanada da corda ficava um pouco mais forte, o mundo se tornava monocromático. A luz fraca iluminava as estátuas vestidas de smokings pretos e camisas brancas. Até o violino em si tinha um tom escuro de cinza, diferente do seu castanho profundo habitual.
Na luz branca e solitária, a única coisa que se movia era o braço de Z, que oscilava de um lado a outro tocando a mesma melodia, uma única nota. Mas mesmo quando o som atingia um crescendo e a luz brilhava intensamente, tudo o que fazia era revelar um mundo desolado de cinza.
O som começou a diminuir, seu volume retraiu lentamente, e a luz começou a escurecer. Parecia que não havia esperança nem saída. No entanto, bem no instante em que o som ia se apagar para o esquecimento, o dedo de Z se moveu somente um pouquinho, e sua mão se desviou um pouco.
Uma segunda nota entrou em cena, e poeira caiu das estátuas — poeira que se acumulou ao longo de eras de quietude.
Foram duas notas, apenas isso, mas à medida que ganhavam volume e presença, as estátuas começaram a tremer, como se tentassem lembrar o que significava estar vivo. Lentamente, uma das dobras de um dos seus smokings se alisou, puxada pela gravidade. A gravata de outra caiu para frente, e o botao aberto ficou frouxo, permitindo que ela balançasse livremente.
As roupas deles estavam voltando do estado de pedra para o seu estado natural, mas ainda não era suficiente para libertar as estátuas de sua prisão.
Uma terceira nota apareceu, e o feitiço que as segurava foi se afrouxando.
Ao invés de uma nova nota, Z começou a misturar as três, criando uma melodia linda, e com essa melodia vieram não a liberdade das estátuas, mas a cor! O violino cinza começou a escurecer até ficar marrom, e a terra queimada começou a ganhar matizes verdes.
A grama, que antes tinha sido esmagada no chão e transformada em pedra, começou a se erguer novamente, recuperando sua cor, e o mundo começou a retornar ao que costumava ser.
Mas mesmo com as cores retornando e o vento dançando de alegria ao redor deles, as quatro estátuas continuavam exatamente isso: estátuas.
A música de Z, mais uma vez, alcançou um crescendo, e então começou a diminuir. As cores começaram a desaparecer, e uma desesperança silenciosa se refletia nos olhos das estátuas.
Não, elas não queriam perder a luz! Não queriam que as cores desaparecessem! Elas também queriam viver naquele jardim, sentir o vento beijar seus rostos, deixar as cores pintarem suas almas. Mas não foi dessa vez.
Já era claro para os espectadores que quanto mais Z tocava o violino, mais ele se feria. Ele também era feito de pedra, e quanto mais mexia o braço para tocar, mais rachaduras começavam a se espalhar pelo seu corpo.
Assim como as quatro estátuas desesperadamente desejavam cor, era evidente que Z também ansiava por sua companhia, mesmo que isso significasse se ferir para que acontecesse.
Era uma história de depressão, desespero e solidão. Mas justamente quando a música parecia estar prestes a se apagar novamente, um olhar intenso fervor tomou os olhos de Z.
Um estalo alto interrompeu a melodia, e uma rachadura visível apareceu na superfície de Z, mas a intensidade de sua música mudou. Não eram mais três notas misturadas — era música de verdade! Música de verdade — e ela trouxe vida mais uma vez às quatro estátuas.
Elas se moveram, pareciam perdidas e confusas enquanto inspecionavam o mundo colorido ao seu redor — completamente estranho em relação à escuridão sombria a que estavam acostumadas. Então veio a alegria.
As quatro estátuas pulavam de felicidade e giravam em êxtase, saltando de alegria e dançando como se tivessem sido libertas do desespero.
Diferente dos Meninos Salsa, as quatro estátuas não dançaram sincronizadas. Cada uma delas fez seu próprio ritmo, expressando sua felicidade na forma mais sincera e profunda que podia.
As quatro rodopiavam ao redor de Z, como se fossem movidas pela música, enquanto Z também se perdia na melodia. Seus olhos estavam cerrados, e seus pés permaneciam imóveis onde estavam, mas ele também dançava.
Com cada balanço, cada queda e cada elevação, seu corpo balançava. Era como se a melodia percorresse seu corpo antes de sair do violino. Sua dança era carregada de paixões profundas, mas também de dor.
Todo seu corpo tinha se transformado em carne, exceto seu braço, coberto de rachaduras, que permanecia de pedra. A cada nota, cada fragmento de melodia que tocava, sua mão continuava a rachar, a dor sacudia seu âmago. E embora a dor se traduzisse na sua dança, ela nunca conseguiu invadir sua música — a própria melodia que mantinha seus amigos vivos e trazia alegria a eles.
Porém, o preço de tudo isso era alto demais. Um pedaço de sua mão se quebrou completamente, transformando-se em escombros que caíram ao chão, deixando Z sem um cotovelo. Ainda assim, ele não parou, disposto a sacrificar tudo para manter seus amigos vivos. Para que serve um braço se isso significa viver na solidão?
Porém, o feitiço foi quebrado. Embora sua música continuasse doce como néctar, o som dos escombros caindo assustou as quatro dançarinas, fazendo com que finalmente saíssem do êxtase e olhassem para a origem da sua liberdade recente. Elas olharam para Z, apenas para descobrir o custo da liberdade, e quem havia pago por ela.
As piruetas pararam, e as celebrações cessaram. As quatro ficaram imóveis, como estátuas, e assistiram enquanto Z pagava o preço por sua liberdade.
Naquele momento, Lex recordou-se de quando o sistema surgiu na tela, e de como Mary o guiou naquele período turbulento. Claro, ele poderia dizer que a depressão foi causada pelo seu tumor. Em grande parte, foi mesmo. Mas isso não mudava o fato de que, sozinho, talvez nunca tivesse conseguido superar aquilo. Foi somente com a ajuda de outra pessoa que ele finalmente quebrou aquela prisão mental, assim como essas estátuas só conseguiram se libertar por causa de Z.
A diferença era que, nesta situação, elas finalmente tinham visto o enorme preço que Z pagara por sua liberdade.
O show tinha passado por duas partes. O prólogo, marcado pelo silêncio, e a ação de desenvolvimento, marcada pela celebração intensa e alegre das quatro estátuas. Agora era hora do beijo de despedida.
Mais uma vez, a música atingiu um crescendo, mas desta vez não em volume ou ritmo, e sim na riqueza da melodia em si. Quanto mais Z sofria e sentia dor, mais paixão colocava na sua música, e mais morbidamente linda sua dança se tornava. As estátuas, agora quatro humanos de verdade, permaneciam paradas.
O mundo tinha cor mais uma vez, e a prisão de pedra que os aprisionava havia desaparecido, mas eles continuavam imóveis. Talvez quisessem testemunhar o sacrifício final de Z. Talvez quisessem homenageá-lo. Ou talvez, tivessem achado o preço da liberdade insuportável.
Estalo!
Um pedaço do antebraço dele caiu, deixando uma fenda entre sua mão e seu braço, mas a música não parou.
Estalo!
Um dedo se soltou, mas o arco permaneceu firme, como se fosse a vontade de Z, e não sua mão, que o sustentava.
Estalo! Estalo! Estalo!
Por fim, sua mão desapareceu, e Z abriu os olhos cheios de lágrimas para ver, uma última vez, seus amigos antes que virassem pedra. Mas ele não viu a dança descontraída deles. Não os viu brincando no jardim recém-restaurado.
Pelo contrário, ele viu um segurando uma batuta, não tocando música, mas controlando os escombros no chão e remodelando-os em uma mão de pedra. Outro, dançando na sujeira, moldando a terra em um antebraço adequado. Um usava a grama para formar o braço superior, enquanto o último costurava tudo, reconectando o braço que Z havia perdido.
Então… e então, eles pegaram as mãos de Z, deixaram de lado o violino e, juntos, começaram a dançar. Nenhum deles com coordenação. Cada um fez seu próprio movimento. Individualmente, parecia uma bagunça caótica. Mas, juntos, tudo se encaixou na performance perfeita.
E o melhor: mesmo sem o violino, a luz não desapareceu, e a música não sumiu. Em vez de um solo, os cinco uniram suas vozes em uma apresentação a capella, tornando as cores do mundo ainda mais vibrantes, sem pressionar ninguém, incluindo todos na sua dança e celebração da vida.
Mais uma vez, ao chegar aos trinta minutos, a apresentação chegou ao fim. Os cinco, que terminaram a dança de mãos dadas, fizeram uma reverência ao público, despertando-os de seu torpor, e trazendo a amarga consciência de que o espetáculo — não, a jornada emocional que vivenciaram — tinha chegado ao fim.