O Estalajadeiro

Capítulo 1783

O Estalajadeiro

Foi bastante impressionante ver um furacão — provavelmente capaz de engolir um edifício de vários andares como se fosse nada — hesitar antes de entrar no lago. Embora a varredura do sistema indicasse que o furacão estava consideravelmente enfraquecido, não dava para perceber isso apenas pela aparência. Aliás, nunca tinha visto um furacão vivo antes.

Para ser justo, porém, a Estalagem tinha colinas e rios sencientes — incluindo um rio que tinha um medo irracional de qualquer coisa viva que estivesse dentro dele.

"Ah, aliás, se eu não voltar para casa logo, o oceano vai ficar um pouco agitado. Espero que tudo bem," disse Katrina, quase como se estivesse buscando autorização de Lex para partir.

Se o furacão tivesse bochechas, Lex quis teria apertado. Ele estava sendo muito fofo.

"Impossível, Katrina. Na Estalagem da Meia-Noite, os hóspedes podem vir e ir à vontade. A única exceção é se quebrarem as regras, como atacar outros hóspedes ou funcionários, o que pode resultar no banimento. Então, assim que estiver se sentindo revigorada, pode partir quando quiser. Embora eu lamentasse não poder atendê-la melhor. Precisa de mais alguma coisa?"

Lex torcia para que ela dissesse algo, pois não tinha ideia do que mais poderia fazer por um furacão. Sua missão exigia que criasse pelo menos duas novas acomodações para hóspedes da categoria Desastre.

"Hum, bem… o tsunami levou todas as minhas pedrinhas de gema. Se puder me vender alguns fragmentos, ou se tiver algo que me ajude a recuperar meus fragmentos, ficarei muito agradecida."

Lex demorou um pouco para responder. Fragmentos de gema pareciam simples, mas ele tinha a sensação de que não eram fragmentos das gemas que conhecia. Ficou pensando se deveria perguntar… ou tentar descobrir os detalhes por conta própria. Mas não demorou muito a agir. O objetivo de aparecer como ele mesmo, e não como o Mestre da Estalagem, era exatamente não precisar esconder sua falta de conhecimento.

"Por favor, desculpe minha ignorância, Katrina. Não estou familiarizado com o que quer dizer com fragmentos de gema. Poderia explicar um pouco mais?"

Após alguns segundos, durante os quais Lex imaginou que ela estivesse superando sua timidez, Katrina estendeu sua percepção espiritual em direção a Lex e mostrou-lhe uma memória.

Era ela. Era Karina. Mas, ao contrário da altura atual de um quilômetro, Katrina agora tinha dezenas de quilômetros de altura, rugindo sobre um oceano enorme e turbulento que exalava uma energia primal, selvagem.

O mundo em que ela estava — se é que aquilo era mesmo um mundo — parecia ser um fragmento preservado de alguma mega-catástrofe pré-histórica, onde furacões e tsunamis eram tão insignificantes que, na verdade, se tornavam o fator que estabilizava o clima.

Devo admitir, isso era muita coisa para deduzir de uma única visão de memória, mas Lex não estava presumindo — ele só concluíra com base no que tinha visto, porque os fragmentos de gema de que Katrina falava eram claramente visíveis nas memórias dela.

Para sermos justos, eles pareciam enormes gemas, flutuando entre os ventos giratórios do furacão, brilhando em várias cores. Na realidade, eram fragmentos cristalizados de leis.

A magnitude disso merecia um destaque especial. Eles não eram leis presas dentro de objetos — muito parecido com o que Lex tinha visto antes. Nem eram tesouros naturais formados por leis, como ele costumava usar para obter afinidade com o espaço na época. Não, esses eram leis reais que, por razões que Lex não conseguia compreender totalmente, se transformaram em cristal, tendo se desprendido de onde quer que tivessem se originado.

Se a visão que ele tinha era de algum reino único, ainda assim dava para entender. Existem reinos ainda mais loucos por aí. Mas Katrina era do Reino de Origem, o que significava que de onde ela vinha era um lugar incrivelmente especial.

— Isso é bastante plausível, o que é impressionante. Afinal, o Reino de Origem ainda não foi completamente explorado, e muitos de seus segredos continuam desconhecidos até mesmo para os Henali.

Lex continuou assistindo à memória, enquanto uma onda surgia no horizonte, seu arco alcançando o céu, seu comprimento bloqueando toda a extensão do oceano. No interior da onda, Lex conseguiu ver alguns fragmentos de gema também.

Depois, conforme a memória prosseguia, Lex assistiu a uma cena que só pode ser descrita como um cinema épico! Era como assistir a uma batalha de anime entre um furacão e um tsunami, ambos se empurrando, a onda tentando derrubar os ventos enquanto os ventos tentavam cortar a onda ao meio!

— E, como costuma acontecer nas batalhas mais épicas de anime — não que isso fosse realmente um anime — o vilão trapaceou. Dentro da onda, o que parecia uma enorme orca saltou em direção ao furacão, pegando ele de surpresa e roubando uma parte considerável de seus fragmentos.

Com a perda dos fragmentos, o furacão de repente perdeu muita da sua ferocidade, dando ao tsunami a vantagem para se impor e colidir contra o furacão, afogando-o no oceano.

Por um breve instante, parecia que aquele seria o fim do furacão, mas, sob as ondas, havia uma porta dourada, que brilhava e prometia salvação.

A memória acabou, e Lex ficou encarando Katrina, sem saber exatamente o que fazer. Ele não sabia como conjurar aqueles fragmentos de gema, e também não tinha certeza de como ajudar Katrina a recuperá-los. Como, afinal, ele poderia equipar um furacão para lutar melhor?

"Entendi. Embora eu não possa lhe vender nenhum fragmento, ajudar você a recuperar os seus não é problema algum," disse Lex, contrariando o que ele realmente sentia. "Por que não aproveita para se recuperar no lago enquanto eu me preparo."

"Hum, obrigada, acho que sim," ela respondeu timidamente, retirando sua percepção espiritual.

Sentindo-se aliviada, Katrina voltou sua atenção para a recuperação, enquanto Lex recuou um pouco para lhe dar privacidade. Se a lógica não pudesse ajudá-lo a superar esse obstáculo, era hora de confiar na natureza abstrata e esotérica das leis para inventar uma solução perfeitamente razoável — e, ao mesmo tempo, totalmente absurda — para seu problema.

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