
Capítulo 1739
O Estalajadeiro
"Você finalmente acordou", disse Kaemon, embora também estivesse deitado no chão como um cadáver. Seus olhos estavam fechados e seu corpo pálido, mas o som de gemido de Lex alertou-o sobre a situação do seu parceiro.
"O que diabos aconteceu?" perguntou Lex, tentando recordar sua última visão, mas tudo que conseguiu lembrar foi escuridão. Uma dor de cabeçaformidável estava martelando seus nervos, distraindo-o e impedindo que pensasse claramente. Ele tentou usar sua energia espiritual para se recuperar e descobriu que funcionava perfeitamente. Isso foi uma surpresa. Considerando como ele se sentia mal, quase pensaria que estava gravemente ferido. Mas não, estava absolutamente bem.
"Não sei você, mas eu vi o momento em que o Cálice do Abandonado foi criado. Aquilo… vai me assombrar pelo resto da vida", disse Kaemon fraquinhas.
"Não seja tão pessimista," aconselhou Lex, tentando melhorar seu humor. "Você pode morrer em algumas horas. Nesse caso, não precisará ser assombrado por tanto tempo."
"Ha ha", Kaemon fingiu rir, e não disse mais nada. O silêncio retomou entre os dois enquanto cada um tentava se recuperar de seus estados.
"Então, o que você viu?" perguntou Lex, finalmente, após conseguir aliviar um pouco sua dor de cabeça.
"Um ritual de sacrifício que envolveu trilhões, não, centenas de trilhões de almas, todas elas Imortais," sussurrou Kaemon lentamente. "E todas pareciam quase… possuídas… ou enfeitiçadas. Havia definitivamente algo errado com elas. Quase parecia que matar todas aquelas almas era uma forma de poupar o universo de alguma grande doença ou desastre."
"Suas almas angustiadas foram consumidas, fornecendo a energia para a criação do cálice. O cálice… ah, o cálice. O que posso dizer sobre isso?"
Kaemon ficou em silêncio, como se estivesse hipnotizado pela memória do que viu, e Lex também não o pressionou. Ele mesmo tentava se lembrar do que tinha visto, mas a memória parecia simplesmente não existir. Por algum motivo, porém, Lex tinha certeza de que tinha visto uma visão. A importância daquele conhecimento, afinal, ainda permanecia em sua alma, apesar de ele não lembrar de nada concretamente.
"Lex, não consigo imaginar nada tão sagrado ou puro quanto o cálice no momento em que foi criado," disse Kaemon, com a voz baixa, como se tivesse medo de pronunciar as palavras. "Não faz sentido. Qualquer coisa nascida de um ritual de sacrifício tende a ser manchada, corrompida, amaldiçoada com a karma mais repugnante, e mesmo assim, nada disso aconteceu. O cálice, no instante da sua criação, era nada menos que um artefato sagrado de proporções máximas."
Lex ficou alguns segundos em silêncio, pensando nisso.
"Não sei o que aconteceu na época, se é realmente algo verdadeiro, mas o cálice definitivamente não é mais um artefato sagrado", refletiu.
Ainda se lembrava de quão voraz ele tinha sido por sua alma e pelas almas de todos os seus companheiros, encantando-os apenas com sua presença.
Falando nisso, agora que estavam a poucos passos do cálice, sua aura estava os atacando implacavelmente. Eles estavam com a sensação de estarem completamente anestesiados e exaustos por terem visto aquilo, o que os tornava incapazes de sentir qualquer efeito.
Nem precisaram usar seu poder de vontade nem seus óculos de leitura – embora Lex não duvidasse que isso logo fosse entrar em jogo. Estavam simplesmente exaustos demais para serem afetados por qualquer tentação.
"E você?" perguntou Kaemon. "Não se lembra de nada?"
"Não mesmo," respondeu Lex, fechando os olhos novamente, como se isso pudesse ajudá-lo a atravessar a escuridão de suas memórias. "Mas o que importa é que minha alma carregou o peso de tudo que vi, e posso te garantir, não é pouca coisa."
Kaemon deu uma risadinha, apesar de estar horrivelmente mal.
"Justo quando pensei que isso não podia virar mais uma armadilha, as ruínas cobraram o preço completo e nem te deram visões como recompensa."
Lex quis retrucar, mas parecia que exatamente era isso o que havia acontecido.
"Lex, vou completar a missão agora," disse Kaemon. "Sugiro que você mantenha os olhos fechados. Não é algo que você deva ver. Mas, na verdade, não é exatamente um segredo ou algo assim, então, se quiser olhar, fica à vontade. Só não quero que veja algo que possa te prejudicar sem querer."
Lex gemeu. Por que a vida tinha que ser cheia de momentos assim?
"Sabe de uma coisa? Acho que estou bem com os olhos fechados. Pode fazer o que precisar. Vou ocupar meus pensamentos com outra coisa."
Kaemon fez um bico e começou a se levantar do chão para, de uma vez por todas, completar a missão.
Lex também não ficava só deitado, à toa. Estava focado na localização do Poço dos Sonhos Esquecidos, preparando-se para enviar o clone que havia feito até lá.
Ele não tinha intenção de se aproximar do poço realmente. Apenas confirmar sua localização já era suficiente. Lex esperava receber uma notificação do sistema assim que o fizesse.
Pra garantir, porém, queria enviar o clone no momento final, justo quando a missão estivesse para ser concluída. Parecia que esse momento tinha chegado, então preparou-se para enviar o clone.
lutando para vencer o que sobrava da sua enxaqueca, ignorando Kaemon e o que quer que ele estivesse fazendo, Lex ativou sua teleportação e enviou seu clone embora.
No final, Kaemon não precisou da ajuda dele, embora talvez o apoio moral fosse fundamental em situações tão difíceis.
Seu clone apareceu em algum lugar, e Lex ouviu o som de uma notificação do sistema.
Sentindo-se satisfeito, virou-se para verificar suas notificações, e congelou. O que diabos ele estava vendo? Ele estava afogado em notificações do sistema.
Só de olhar para elas foi suficiente para perceber que algo terrível tinha acontecido. Mas ele não conseguiu dar atenção a elas, pois algo inesperado aconteceu.
Passos se aproximaram dele e de Kaemon, e Lex reconheceu muito bem esses passos. O Cavaleiro das Trevas tinha os seguido.