O Estalajadeiro

Capítulo 1737

O Estalajadeiro

Quando Lex saiu de novo da memória, não pôde deixar de franzir a testa. A memória tinha sido mais curta, mas seu peso tinha sido maior. Será que Lex tinha deixado passar alguma coisa?

Ele virou-se para olhar para Kaemon, para trocar detalhes do que tinham visto. O Leão de Magma estava novamente de joelhos, ofegante. Ele parecia terrível, verdadeiramente. Mas não parecia estar morrendo — pelo menos não tão cedo — então Lex não ficou muito preocupado. Ninguém tinha dito que seria fácil. Na verdade, em breve, ele também poderia estar de joelhos.

"A pessoa do Poço dos Sonhos Esquecidos parece ter caído. Aparentemente, sua morte foi usada em algum tipo de ritual ou cerimônia," disse Lex, compartilhando a essência de sua visão.

"Eu vi os Farham," falou Kaemon, balançando-se. "Não como bestas de trovão. Não, eu os vi como realmente são, carne e osso. Eles eram… eram Sábios!"

Lex agarrou Kaemon e o ajudou a ficar de pé.

"Os Sábios não são tudo que parecem ser. Confie em mim, eu vi um sendo repreendido por alguém que nem mesmo é de uma raça mais antiga. Eles também são meio convencidos. Vamos seguir em frente."

Kaemon gemeu, mas se forçou a ficar de pé.

"Me dê um minuto. Preciso me recompor," disse o Leão de Magma, com a voz exausta, parecendo um velho cansado.

Enquanto isso, Lex observava as ruínas ao redor. Tudo parecia perigoso — extremamente perigoso. Não era aquele tipo de sensação que alguém com ansiedade sentiria. Não, era o tipo de sensação que seus instintos extremamente precisos estavam alertando. Felizmente, parecia que, como eles estavam apenas indo para a periferia das ruínas, e não para o centro, estavam menos expostos aos perigos mais intensos.

Em pouco tempo, deram mais um passo, e Lex apareceu dentro de outra visão, ainda usando os olhos do mesmo companheiro. O céu era escuro, e não por causa de nuvens ou porque fosse noite. O céu estava rachado.

Havia rachaduras cobrindo o céu, e essas rachaduras não eram simples como as que aparecem no espaço quando algo ultrapassa sua capacidade de sustentar-se. Não, essas rachaduras pareciam se estender profundamente até as raízes do próprio universo. Ou, pelo menos, essa era a sensação que Lex tinha.

Mesmo na escuridão, Lex podia ver. Os habitantes da cidade não pareciam muito incomodados pela escuridão. Em vez disso, estavam realizando algum tipo de ritual, embora Lex não entendesse qual tipo de ritual era aquele ou qual era seu propósito. Tudo que ele sentia era sangue.

A visão acabou e Lex se viu na base do farol, mas isso não importava muito para ele. Lex caiu. Fazia muito tempo que ele simplesmente tinha caído, mas o peso daquela visão anterior era demasiado. Quase quebrou sua mente — agora que ele estava fora da memória.

Os outros aspectos da memória também pesavam sobre ele, mas aquelas rachaduras… a visão delas estava desaparecendo de sua memória rapidamente, embora isso não mudasse o fardo em sua alma.

Quando olhou para as rachaduras, havia visto através delas… para fora do universo. Lex não se lembrou do que tinha visto, pois a lembrança tinha sido apagada. Ele nem se lembrava se havia sentido algo especial ao ver aquelas rachaduras, como medo ou apreensão. Todo conhecimento sobre elas, exceto sua existência, rapidamente foi apagado de sua mente por alguma força desconhecida. Pela primeira vez, ele se sentiu grato por isso.

"Eu vi humanos," disse Kaemon, jogado de lado no chão. "Ou, pelo menos, um humano. Ou, para ser ainda mais exato, eu vi o contorno vago de uma criatura que parecia ser humana. Ele estava segurando um machado. Isso foi tudo que consegui ver antes de ser apagado."

"Eu vi rupturas no espaço, e um ritual que provavelmente era algum tipo de ritual de sacrifício," disse Lex, levantando-se. Ele não gostava de sentir sua alma sob tanta pressão, mas, por algum motivo, Lex sentiu a pressão diminuir. Ele não tinha certeza, mas… tinha a sensação de que seu âncora de alma na Taverna da Meia-Noite, aquela dada pelo Registro de Visitantes, agora estava suportando parte do peso, impedindo-o de atingir seu limite.

"Acredito que este será o passo final," disse Kaemon, com esperança na voz.

"Consegue chegar até lá?" perguntou Lex. "Se precisar, posso seguir sem você."

Kaemon balançou a cabeça.

"Não, sem mim, essa missão não pode ser concluída. Vamos lá."

Lex deu mais um passo e viu uma cena que realmente não deveria conseguir ver. Ainda assim, seu âncora de alma permitiu que ele visse. Seja isso uma sorte ou uma infelicidade, era algo que Lex não podia saber, porque aquilo era um segredo escondido ainda mais fundo dentro da cidade.

Ele viu apenas figuras escuras e borradas, apesar de estar sentado em uma sala relativamente bem iluminada.

"A Morte está ficando cada vez mais agressiva. Precisamos colocá-la em seu lugar," disse alguém.

"Assim é a natureza da Morte, e da morte. Não se preocupe com isso, ela ainda é uma criança. Estou mais preocupado com as ações do Destino. Ela está começando a ultrapassar seus limites, tentando assumir o Divino," respondeu outra figura, cujos detalhes de voz e expressão escaparam totalmente de Lex.

"Podemos usar o zelo do Destino a nosso favor," disse outro. "Tenho um plano."

"Cuidado, Amor, você não quer cair em um dos truques dela. Afinal, ninguém consegue fugir do próprio destino!" disse a primeira voz.

"Em vez de ficar me dizendo o que fazer, você deveria ouvir mais. Afinal, não sou eu quem perdeu seu nome. Não interfira no Destino — deixe que ela aja livremente. Use sua própria teia para tecer o Nexus até que se torne uma lei universal. Assim, ela aprenderá a não transgredir."

Silêncio. A sala ficou mانع, não porque ninguém falou após aquele momento na memória, mas porque todas as figuras escuras e borradas se viraram em direção a Lex, como se estivessem olhando diretamente para ele.

"Você tem alguma teoria, Nuwa?" perguntaram em uníssono, embora Lex tivesse a sensação de que aquilo não era como a memória deveria se desenrolar.

Comentários