
Capítulo 1709
O Estalajadeiro
Jack tentava manter a cabeça ocupada, pensando em coisas aleatórias, tentando não se prender ao que a sala cheia de Senhores do Dao faria com ele. Era a maior quantidade de Senhores do Dao que ele já tinha visto na vida, e só podia torcer para que aquilo que escondia seus segredos dos Senhores do Dao continuasse a funcionar. Neste momento, só mesmo a esperança lhe restava.
Como era de se esperar, quase nenhum segredo que ele tivesse poderia escapar dos Senhores do Dao. Eles enxergavam através de tudo. Perceberam como a idade do corpo e a idade da alma não combinavam, mas isso pouco os importava.
Viram que o minério divino tinha se fundido ao seu corpo, atuando quase como um segundo sistema de meridianos. Por esses meridianos, a energia espiritual fluía com facilidade, e eles tinham a capacidade de suportar também energia divina, embora isso também não fosse algo que impressionasse os Senhores do Dao.
A única coisa que, de leve, chamou a atenção deles foi o fato de alguns aspectos de seu karma parecerem ocultos, assim como suas origens. Se a sala tivesse apenas alguns Senhores do Dao, talvez eles não percebessem as sutilezas que os levavam a esquecer dessas irregularidades. Mas, com tantos presentes, ficou claro de imediato que havia algum poder protegendo Jack, capaz de influenciar até eles.
Porém, aquilo que chamou atenção foi apenas pouco. Nenhum deles se interessava pelos segredos da fada, e estavam ali apenas para cumprir a tarefa que a aliança lhes havia dado. Assim, após compreenderem completamente seu corpo, mente e alma, eles começaram.
Jack não percebeu o início do ritual, pelo menos a princípio. Quando começou, foi silencioso. Nada de cânticos, fogo ou trovões. Apenas silêncio. Mas logo veio a pressão.
Começou em seu peito, como se alguém estivesse pressionando com uma mão firme, sem descanso. Ou como um abraço desconfortavelmente apertado.
Sua visão escureceu, ou talvez seu cérebro estivesse tão ocupado processando tudo que acontecia que simplesmente não percebeu o que se passava. Seus ossos vibraram com uma sensação estranha, e ele podia sentir fios invisíveis se entrelaçando nele, passando por pele, osso e alma.
Jack soltou um gemido. Não foi dor, mas foi tudo muito avassalador. Era frio, mas não cruel. Suave, mas firme. Parecia um segundo coração, que não lhe pertencia, mas que agora pulsava no seu peito. Algo estava sendo acrescentado ao seu corpo, embora ele não soubesse ao certo o que era. Curiosamente, o minério divino parecia aceitar a mudança de bom grado, como se fosse extremamente maleável em seu propósito, ajudando a que a transformação se consolidasse.
Jack sabia o que estava acontecendo. Agora havia algo dentro dele capaz de apagar todas as suas pistas, independentemente da sua natureza. Naturalmente, isso não afetaria coisas como pegadas na areia — essas ele mesmo teria que lidar. Mas aquilo que fosse mais sutil, como conceitos metafísicos de rastreamento, como destino, karma, previsões e semelhantes, seria também eliminado.
Na verdade, era bastante reconfortante saber que aquilo existia ali, embora a estranha pressão no peito fosse algo de que ele teria que se acostumar. Ainda assim, não se comparava ao fedor com o qual convivia diariamente.
Falando nisso, assim que o ritual para torná-lo inrastreadível foi concluído, era hora de suprimir a maldição.
Essa parte não era tão agradável quanto a anterior. Era como uma náusea, se a náusea tomasse esteróides e fosse teimosa, relutante em deixar sua vítima.
A maldição reagia enquanto era suprimida. Suas asas endureceram, arqueando de dor enquanto uma sensação de queimadura percorria seu corpo.
Ele tentou segurar uma vontade de gritar, e conseguiu em parte. A pressão de se conter fez seus pulmões explodirem. Literalmente.
Seu peito se rasgou ao mesmo tempo em que seus pulmões explodiam, espalhando uma névoa vermelha pelo ar. Por sorte, ele estava em uma sala cheia de Senhores do Dao, e foi curado na hora seguinte.
Uma névoa envolveu sua mente, subjugando sua consciência. Suas memórias ficaram turvas, como sonhos distantes. Nem Lex conseguiu sentir alguma coisa de Jack naquele momento, como se até a conexão deles estivesse se apagando.
A força da maldição era titânica. Se alguém tentasse suprimi-la, a resistência dela seria tão grande que faria o corpo de Jack explodir inteiro, ao invés de apenas seus pulmões. Mas, com tantos Senhores do Dao na sala, ele conseguiu sobreviver.
A maldição não morreu completamente, mas foi adequadamente controlada. A pressão diminuiu. Ainda permanecia ali dentro, profunda, como uma cobra enrolada que foi forçada a dormir. Suprimida. Não destruída, apenas presa.
Lentamente, Jack recuperou a consciência, seu corpo coberto de suor, tremendo e se contorcendo ocasionalmente. Também sentia alguma dor, mas não se importava.
Em vez disso, respirou fundo, enchendo seus novos pulmões com ar livre de fedor. Foi algo incrível. Finalmente, finalmente, tinha um pouco de alívio da maldição. Ela não desaparecera completamente, mas Jack não se importava. Sentiu-se aliviado. Então, a pobre fada caiu no sono.
Todo aquele processo pareceu a ele ter durado apenas alguns minutos, mas isso era porque sua mente e espírito estavam sobrecarregados. Dias haviam se passado, e agora, felizmente, tudo tinha acabado.
Seu corpo foi suavemente devolvido ao caixão, e transportado de volta ao reino de Artica, onde Oroo o aguardava. Em vez de acordá-lo ou acelerar sua recuperação, Jack foi levado a um quarto particular e dormiu por mais horas.
Não só sua mente precisava recuperar-se do trauma, como seu corpo também precisava adaptar-se às mudanças.
Levou quatro dias. Pode parecer muito, mas esse tempo foi bastante encurtado pelo cuidado meticuloso que a aliança lhe proporcionou.
Quando finalmente acordou, Jack se viu em um ambiente extremamente familiar. Estava na sala de seu capitão, dentro do Jolly Rancher. Sobre sua mesa, havia uma carta de Oroo, dando uma explicação final e desejando-lhe boa sorte.
*****
Dentro da sede da aliança, Oroo entrou em um escritório e encontrou ali mais um Celestial sentado.
“Está feito,” ela disse. “Mas não entendo. Precisávamos mesmo investir tanto em um simples isca?”
A figura, que estava analisando um documento, parou e olhou para ela.