
Capítulo 1698
O Estalajadeiro
O humor brincalhão de Jack desapareceu ao olhar para o garanhão que emergia do portal. Embora ele não entendesse como ou por que suas asas reagiam daquela forma, confiava em seus instintos. Se havia problemas no horizonte, ele não podia se dar ao luxo de encará-los de forma leviana — especialmente agora, quando suas habilidades estavam praticamente inúteis.
O garanhão olhou ao redor até focar em Jack, e uma leve centelha de reconhecimento passou por seus olhos.
"Você é aquele ser conhecido como 'o capitão', associado ao que se apresenta como 'Bob'?" perguntou o animal, olhando para Jack de cima.
Jack franziu a testa. Sabia que Bob era uma verdadeira fonte de confusões, mas, por alguma razão, nunca tinha causado mais problemas do que o grupo conseguia administrar. Claro que isso poderia ser pura coincidência.
Jack voou um pouco mais alto até ficar na altura dos olhos do garanhão e olhou diretamente para ele.
"Sou eu mesmo," respondeu, deixando de exibir a aura desajeitada que tinha ao escapar do kraken. "Como posso ajudar?"
O garanhão bufou fumaça pelo nariz e olhou para Jack com desdém. Não importava como a fada posava ou se comportava — como um imortal celestial, ele não levava a sério um Imortal Terrestre.
"Você está sendo convocado. Há uma situação envolvendo sua equipe, e, como capitão, você foi chamado para que uma solução seja encontrada."
Jack franziu a testa, e a sensação de inquietação no estômago aumentou.
"Vamos lá," disse Jack, e seguiu o garanhão de volta ao portal.
Naquele exato momento em que Jack atravessou o portal, ele soube que a situação era pior do que parecia. Sentiu isso nos ossos, como um idoso que percebe uma tempestade se aproximando em seus joelhos. Sentiu no próprio ar, que vibrava de expectativa.
Ele olhou ao redor e imediatamente reconheceu Tiny-Sparkles e os outros. Eles também o encararam, porém não tinham a energia ou a travessura habituais, aquela que costumavam ostentar com cada ação. Em vez disso, uma profunda ansiedade e preocupação os preenchiam até a alma.
Por trás de uma espécie de cabine privativa, Bob estava sentado com as pernas cruzadas, costas eretas, brincando com o bigode como se não estivesse nem aí — típico Bob.
Ao lado de Bob, estava… estava…
Quando Jack olhou para aquela figura, sentiu uma rajada de vento lhe cortar o rosto, como se o clima não quisesse que ele olhasse. Mas desde quando ele tinha medo de um pouco de sujeira nos olhos? E, no entanto, aquilo não era tudo.
Ele sentiu correntes ligando cada centímetro do seu corpo minúsculo, e nelas pendia o peso de toda sua raça, puxando-o para o chão, de joelhos. Suas asas pararam de se mover completamente, como se estivessem subjugadas, e a poeira de fada se recusava a sair de seu corpo.
O fedor rançoso de sua maldição envolvia seu corpo, corroendo sua vontade, enfraquecendo-o e lembrando-lhe de seu lugar.
Tudo isso, e ele ainda não tinha sequer visto a criatura ao lado de Bob.
"Veja," disse uma voz suave ao longe, porém, aos ouvidos de Jack, soou como trovão, sacudindo-o até suas profundezas. "Eu te falei. Uma fada talvez nem consiga ficar de pé na minha frente, quanto mais discutir sobre o assunto relacionado ao crocodilo de cristal."
O crocodilo? Jack focou nessas palavras no meio do barulho que ecoava em sua cabeça, tentando forçá-lo a se ajoelhar.
O que aconteceu com o crocodilo? Como se para responder, Jack ouviu o som de vidro se quebrando à distância, atraindo sua atenção. Olhou ao redor e viu o estádio, viu o crocodilo, viu as correntes.
Mais do que tudo, viu como o crocodilo estava mancando, pois uma de suas patas tinha rachaduras, quase quebrada.
Apesar de o universo parecer empurrá-lo para o joelho diante daquela entidade misteriosa ao lado de Bob, nada o atingiu mais forte do que aquela visão.
Por mais travesso que fosse o crocodilo, ou forte, ou especial, nada mudava o fato de que ele era um bebê. Jack o tinha resgatado do Reino da Meia-noite, onde a energia vaza do ovo transformava o próprio reino em cristal.
Desde que o ovo eclodiu, o crocodilo estava com Jack, e compartilhavam muitas memórias. Ao ver o crocodilo mancando agora, Jack foi instantaneamente tomado pela ira que Lex costumava demonstrar.
A diferença era que, embora Jack e Lex fossem a mesma pessoa, eles também eram diferentes. Lex era humano, Jack era fada. Lex tinha o sistema e Jack não tinha nada. Lex cultivou com cuidado e por muito tempo, e, embora Jack também tenha cultivado, suas experiências não eram nem de perto tão loucas ou únicas quanto as de Lex.
Apesar de uma raiva branca preencher a cabeça de Jack, neste momento, ele não conseguia evocar nenhum de seus poderes.
Raiva pura, por maior que fosse, não fazia suas asas baterem. A raiva também não poderia sustentar o peso do que sua raça tinha na Escala de Ascensão Cósmica, que o empurrava para baixo. Raiva não magicamente o tornava mais forte, e ele não tinha um sistema secreto e poderoso para confiar.
O corpo de Jack começou a tremer, embora ele não soubesse se era a raiva dominando ou se os instintos de submissão e medo, profundamente enraizados em sua raça, estavam tomando conta. Ele continuou olhando para o crocodilo, tentando invocar seu poder, sua poeira de fada, tentando que suas asas batessem.
Porém, talvez pela primeira vez, Jack enfrentava a dura realidade de viver sem um sistema. Nenhuma força de vontade conseguiria fazer suas asas se moverem quando a diferença entre sua raça e aquela criatura era tão imensa.
"Embora eu deva admitir que o fato de seu capitão ainda não estar de joelhos é bastante notável," a voz ecoou. "Ele conseguiu atrair minha atenção. Ei, capitão, quer ser meu servo?"
O corpo de Jack começou a tremer ainda mais forte, seus olhos ficaram vermelhos. Ele não ouviu as palavras daquela entidade, quaisquer que fossem. Na verdade, só conseguiu ouvir os gemidos do crocodilo.
Uma tonalidade verde tênue começou a surgir.