O Estalajadeiro

Capítulo 1673

O Estalajadeiro

Família era um assunto complicado para Lex. Seus pais eram idiotas, seu avô era pior que um porco, e embora seus antepassados não tivessem feito nada para provocá-lo, ele simplesmente desenvolveu uma desconfiança geral em relação à própria família.

Isso dito, ele mantinha uma relação razoável com suas irmãs, principalmente porque elas eram vítimas tanto quanto ele daquela família terrível — se não até mais, no caso de Moon. Ele também tinha aprendido que sua família tinha uma origem aparentemente misteriosa e que, se alguém de outros reinos percebesse que ele era descendente da linhagem Sephore, poderia atrair problemas.

Porém, Lex não dava muita bola para isso. Ele não tinha dificuldade em atrair confusão sem precisar contar com sua descendência.

Mesmo assim, pela primeira vez, sua família conseguiu chamar sua atenção, porque esse fluxo de energia não era uma técnica comum. Mesmo ele, que já tinha visto feitos e técnicas incríveis de talentos de todos os cantos do universo, ficou impressionado.

Assim que ele estendeu o estado de Fluxo além do corpo, Lex precisou dedicar a maior parte de seu cérebro ao processamento de todas as informações que estava recebendo. Era como se o estado permitisse que ele percebesse o fluxo de toda forma de existência que pudesse sentir naturalmente.

Ele conseguia perceber como a luz viajava. Sentia como o som se propagava por Abaddon. Detectava as inúmeras formas de energia no ar, fluindo com correntes furiosas, travando uma guerra invisível e imperceptível ao redor deles. Através de seu princípio, podia até perceber como as leis mudavam de instante a instante.

Tudo isso ele já conseguia detectar, de certa forma, mas estar no estado de Fluxo multiplicava a extensão disso inúmeras vezes. Mas, mais importante que isso, eram os padrões que Lex via em tudo ao seu redor.

Era como… se ele pudesse enxergar o caminho de menor resistência, mas em tudo. Como era a primeira vez que usava essa habilidade dessa maneira, e não procurava algo específico, ele ficou sobrecarregado com todas as possibilidades ao seu redor.

Porém, estando no estado de Fluxo, ele se adaptou instantaneamente e voltou a focar nas Portais. Enquanto a habilidade do seu olho esquerdo permitia obter uma quantidade enorme de informações sobre o que estivesse olhando — incluindo pontos fracos que poderia explorar —, o estado de Fluxo elevava isso a outro nível. Era como se, entre os pontos fracos que pudesse detectar, o Fluxo lhe permitisse escolher o melhor deles.

No estado de Fluxo, ao observar os portais, percebeu que usar a matriz de runas não era a melhor solução para eliminá-los. Na verdade, seu próprio domínio do espaço deveria ter sido a primeira coisa que pensasse em usar — tinha que ter sido uma escolha óbvia.

Mas Lex nem tinha considerado isso, focando apenas nos personagens. Ele de repente entendeu o que Kaemon quis dizer quando falou que o peso do conhecimento nem sempre era fácil de suportar, e que, querendo ou não, ele não parava de pensar nas informações que tinha adquirido nesses antigos estudos.

Mesmo agora, quando o fluxo lhe mostrou que seria infinitamente mais fácil destruir esses portais usando somente as leis do espaço — ao invés de tentar usar as runas —, Lex não queria simplesmente desistir. Claro, ele atribuiu isso à sua teimosia, e não ao peso do próprio conhecimento.

Depois de tanto tempo tentando usar as runas, ele quis tentar mais uma vez. Se não der certo, iria parar por aqui, pois uma solução melhor já se apresentava.

No instante em que decidiu qual caminho seguir, conseguiu enxergar instantaneamente uma infinidade de informações que o ajudariam. Como a matriz era algo que ele precisaria criar, e não algo que já existia ao seu redor, o estado de Fluxo não poderia guiá-lo na sua utilização. Tampouco poderia indicar qual matriz usar ou como construí-la. Em vez disso, tornou-o mais consciente dos aspectos mais relevantes para o que desejava fazer, destacando os detalhes mais insignificantes entre um mar de informações na sua percepção.

Até Lex, com todas as suas vantagens, não conseguiria identificar todos esses detalhes com tanta precisão. Era como se estivesse conectado à própria essência do universo, recebendo feedback contínuo e ao vivo. Ah, e ainda tinha uma barra de busca para filtrar exatamente o que ele procurava.

Lex iniciou novamente a criação da matriz, agora guiado pelos diversos sinais que o estado de Fluxo lhe oferecia. A condição não era uma solução milagrosa, ainda precisava decidir seus passos e pensar em uma nova forma de usar as runas. Mas o Fluxo eliminava boa parte do ruído desnecessário e ajudava a focar muito melhor.

Se Lex não estivesse no estado de Fluxo, provavelmente ficaria se perguntando que efeitos os outros estados que possuía poderiam ter fora do corpo — afinal, além do Fluxo, ele também tinha Overdrive e Berserk, ambos utilizados bem menos do que o próprio Fluxo.

Na verdade, considerando que o Overdrive aumentava o poder de processamento do cérebro — permitindo-lhe pensar sobre coisas que normalmente não consideraria —, ele até poderia ser uma opção melhor para o que precisava no momento.

Porém, como estava no estado de Fluxo, nada disso vinha à sua cabeça. Ele simplesmente seguia a sequência de ações mais rápidas e eficientes para alcançar seu objetivo.

Após alguns segundos, a nova matriz ficou pronta. No exato momento em que a ativou, finalmente houve uma mudança perceptível no ar ao seu redor. Seus personagens, que cumpriam o nome do livro de onde vieram, finalmente provocaram uma alteração.

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