O Estalajadeiro

Capítulo 1655

O Estalajadeiro

Entre a avareza sem fim que consumia o próprio ser dos cavaleiros, concedendo-lhe poder assim como o aprisionava, entre a loucura de ver sua sanidade se fragmentar pelo fluxo interminável do tempo, entre a dor esmagadora de estar sendo moldado por Abaddon em algo completamente estranho, sem qualquer semelhança com quem ele foi um dia, o cavaleiro sentiu um lampejo de medo.

Foi instintivo. O Cavaleiro Sombrio, cuja existência era determinada por Abaddon, imortal e implacável, sentiu um lampejo de medo ao mirar nos olhos de Lex e ouvir sua ordem para que se destruísse. Não era a morte que o assustava.

Não, ele tinha morrido tantas vezes que isso já não lhe causava mais medo. O que realmente o aterrorizava não vinha de dentro dele, mas do que Abaddon tinha feito com ele. Era como se, no momento em que Lex lhe ordenou, ele tivesse roubado a autoridade sobre o cavaleiro — autoridade que antes pertencia exclusivamente a Abaddon.

A discreta folga era pequena demais para importar, insignificante demais para ser útil. Mas a própria existência dessa brecha e o que ela representava era o que gerava aquele medo.

O punho do cavaleiro, que estava bem na frente de Kun Pehng, suspenso no ar, começou a recuar lentamente. O cavaleiro sentiu seu corpo se mover, ignorando sua vontade, enquanto começava a concentrar sua energia em um único ponto em seu peito.

"Quando você voltar à vida — e eu sei que, de alguma forma, isso acontecerá," disse Lex com calma, "sinta-se à vontade para nos procurar de novo. Observar você nos localizar repetidamente certamente vai me dar algum insight sobre Abaddon. Mesmo se você não me contar seus segredos diretamente, eu os extrairei de você, um por um, toda vez que morrer."

Indignação. Uma raiva pura, extrema, tomou o cavaleiro, mas ele não conseguiu pronunciar uma única palavra. Em vez disso, continuou a olhar para o humano enquanto a energia dentro de seu peito se tornava instável, começando a destruir seu corpo por dentro.

Sua morte não foi rápida, tampouco revelou-se fácil. Ele simplesmente desmoronou enquanto a fome de Abaddon se saciava ao se alimentar de sua forma física.

Assim que o Cavaleiro Sombrio desapareceu, não havia outros inimigos à vista.

"Vamos continuar?" perguntou Lex, virando-se para Kaemon.

"Sim. Ainda quer procurar algumas ruínas para explorar?"

"Sim."

"Entendido. Então, seguimos o plano."

Lex assentiu e virou-se para Z, que voava até ele e até Little Blue.

"Acho que você tem problemas de raiva que deveria trabalhar," disse Z com tom preocupante.

"Problemas de raiva?" replicou Lex, surpreso com a declaração repentina. Bem, Z não estava totalmente errado. Tecnicamente, Lex parecia não ter ponto intermediário. Ele nunca ficava irritado, chateado ou um pouco exaltado. Ou ele estava totalmente tranquilo, ou explodindo de raiva. Então, talvez fosse bom ele trabalhar nisso. Mas o problema era... neste momento, Lex não mostrava nem um pingo de raiva. Ele se sentia bem o tempo todo. Como Z podia dizer que ele estava bravo?

"Do que você está falando? Eu estive completamente tranquilo o tempo todo."

"Exatamente," disse Z. "Você acabou de mandar um cara se matar, e depois assistiu tudo sem fazer nada. Isso é coisa que só se faz quando você está muito, muito bravo. Se você está de boa o tempo todo, seu padrão de comportamento aceitável quando está completamente normal é muito amplo. Você deveria aprender a ficar nervoso ou algo assim antes de fazer loucuras."

"Você... quer dizer que eu preciso ficar mais nervoso?" perguntou Lex, com diversão na voz.

"Não me culpe. Velma que me contou que você tentou namorar uma terrorista ou algo assim, então talvez precise de umas orientações sobre controle emocional."

"O quê? Isso não aconteceu! Quando ela te contou isso?" perguntou Lex, chocado.

"Ela me mandou uma carta antes de partirmos para Abaddon. Os outros também receberam."

"Por que eu não recebi uma carta?" perguntou Lex, sentindo-se traído.

"Ciúmes. Sim, essa é uma emoção normal. Acho que, quando você acostumar a ter emoções normais na hora certa, vai poder começar a trabalhar para encontrar alguém para uma vida estável e saudável."

Lex lançou um olhar furioso para Z.

"Acredito que você, de todas as pessoas, não deveria estar me dando conselhos amorosos," disse Lex. Ele se referia ao fato de Z nunca ter tido experiência no assunto. Mas Z achava que Lex se referia ao fato de... ele ter andado pensando na irmã mais nova de Lex de vez em quando, e até cogitado convidá-la para sair. Pena que ela estava dormindo.

Z tossiu e desviou o olhar, como se estivesse tudo normal. Lex bufou, também desviando o olhar.

Porém, pouco tempo depois, perguntou: "Quer se juntar ao mecha ou ajudar o Bluezinho a se adaptar aos seus novos poderes?"

"Naturalmente, quero ajudar o Bluezinho, mas como você me encarregou de cuidar da defesa do exército, eu volto ao mecha."

Lex apenas assentiu. Mesmo agora, apesar de haver pessoas como Luthor que pareciam mais poderosas que Z, ninguém tinha a habilidade e finesse dele para controlar o mecha. Lex, pessoalmente, nunca tentou também, nem tinha intenção.

Não que não gostasse do mecha, mas ya tava demais já. Se se envolvesse mais, acabaria virando um micromanager, e isso nunca é bom.

Z voltou ao mecha, fundindo-se com ele, e partiram, liderados pelo Medo Devastador. Lex e os membros da Taverna não eram os únicos a terem se beneficiado do descanso de um ano, e o Medo Devastador também conseguiu aumentar seu poder.

Por isso, com o coração ansioso, avançaram rapidamente pelos territórios, sempre atentos a qualquer gafanhoto que pudesse aparecer. O primeiro objetivo era se afastar o suficiente da selva para que ela não fosse mais vista. Depois, seguiriam em direção às ruínas que tinham uma entrada atrás da cachoeira.

Se fizessem isso encontrando uma cachoeira ou criando uma, pouco importava.

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