O Estalajadeiro

Capítulo 1624

O Estalajadeiro

Lex não se esquecia de que Abaddon era um lugar perigoso. Mesmo que a floresta fosse um mistério por si só, parecendo desafiar as regras estabelecidas neste mundo, isso não significava que fosse um local amigável. A floresta parecia errada, só de uma maneira diferente do que Abaddon.

Porém, a estranha sensação de aceitação que ela lhe transmitia provavelmente era o que permitia que Lex evitasse os perigos até então. Ainda assim, isso não queria dizer que a floresta não fosse um lugar perigoso. Só a barreira já quase o tinha matado de uma forma que ele ainda não compreendia totalmente.

Lex olhou na direção da escuridão na floresta, tentando identificar a ameaça. Curiosamente, naquele momento, ele ficou hiperconsciente de tudo ao seu redor.

A floresta se estendia infinitamente em todas as direções. Sem barulho de asas, sem o canto de grilos. Apenas plantas: raízes retorcidas que se enrolavam como veias ao redor do solo coberto de musgo, árvores que se inclinavam demais, bloqueando o céu num emaranhado de julgamento silencioso. Algumas finas faixas de luz rompiam o dossel na sua frente, mas mais adentro, só havia escuridão.

Por um instante, ele viu um relâmpago de luz, talvez um reflexo, mas não conseguiu identificar o que era. Cansado do jogo, Lex afastou Naraka. Desde quando tinha medo de perigo? Mas parecia que empunhar sua espada resolveu a questão. O que quer que estivesse na escuridão foi provocado.

Só que ele sentiu. Uma pressão. Como dedos se enrolando lentamente na sua espinha. O ar ficou mais pesado. Mais frio. Ele fixou o olhar na sombra sob o dossel, escaneando.

Ele ouviu claramente o som de metal batendo contra metal, e algo voltou a cintilar por um instante.

Um brilho metálico, pequeno e deliberado, reluziu uma vez entre os galhos. Depois, brilhou novamente — mais perto agora. Luz fria refletida no aço polido.

Ele sacou sua espada, preparado para enfrentar o inimigo com armas. Mas então, seu instinto falou mais alto. Era um inimigo diferente, que usava armas de outro tipo.

Então, da escuridão, ele surgiu.

Um homem — não, não era um homem — uma figura deu um passo adiante. Vestia-se completamente de branco, intocado pela sujeira da floresta. Seus olhos estavam escondidos nas sombras das árvores, mas seu sorriso... brilhava com uma precisão sobrenatural. Em uma mão de luva, segurava um espelho. Na outra — uma garra metálica. Uma sonda. Uma broca.

Lex sabia exatamente o que era aquela aberração. Era um dentista. Não, não um dentista qualquer. Um dentista das trevas.

"Que diabos é isso, pelo amor de Deus?" exclamou Lex.

As ferramentas tilintaram na mão do personagem como ossos quebrando, e ele deu um passo em direção a Lex, seu sorriso crescendo de forma anormalmente largo. A floresta parecia segurar a respiração. É claro, isso porque um grupo de seres antigos observava com expectativa, mas Lex não podia saber disso.

"Você andou... negligenciando suas consultas," disse o dentista, sua voz suave, clínica, vazia de calor.

"É que meus dentes se limpam sozinhos, e crescem de novo se caírem," respondeu Lex, não estando exatamente disposto a conversar. O dentista era um Immortal do Paraíso, e não um qualquer fraco.

De modo geral, Lex não costumava julgar as pessoas por estereótipos. Como dono de uma pousada, isso era um hábito ruim. Mas, nesta situação, achava razoável dizer que o dentista era mau e precisava ser eliminado.

"Ah, é?" ele disse, ligando sua broca, cujo zumbido agudo trouxe à mente de Lex memórias que preferia manter esquecidas. "Então, deixa eu dar uma olhada."

"Não leve a mal, mas não estou muito afim de outro cara garimpando minha boca," disse Lex, e balançou sua espada — não na direção do dentista, mas na sombra da árvore ao seu lado.

Justamente quando ele balançou, o dentista emergiu daquela sombra, sua broca apontada na direção da boca de Lex.

Ao invés dos dentes de Lex, a broca encontrou a lâmina de Naraka, pronta e ávida para cortar aquela abominação amaldita.

Este foi o primeiro confronto verdadeiro de Lex com um Immortal do Paraíso, e ocorreu contra um alguém extremamente forte. Apesar de sua força não ter sido superada pelo dentista, Lex foi imediatamente colocado em clara desvantagem.

Lex recuou, tentando ganhar um tempo para se recompor. Um único confronto foi suficiente para ele sentir a diferença.

Não se tratava de força física. Não, sua vantagem era de superioridade absoluta em todos os aspectos. A qualidade de sua energia, a magnitude de seu poder, a profundidade do controle de sua lei — tudo era de uma extensão incomparável.

Nem mesmo um Immortal do Paraíso, mesmo que Lex tivesse a força física de um Celestial, em uma luta verdadeira, ainda assim estaria em desvantagem contra um Immortal do Paraíso.

A razão principal, percebeu Lex, não era apenas por todas as vantagens que os Immortais do Paraíso tinham. Era por duas coisas: eles conseguiam controlar leis mais fortes do que os Immortais da Terra podiam detectar, e seus princípios eram muito mais robustos.

São esses dois fatores simples que tornam quase impossível para os Immortais lutar acima de seu próprio reino, geralmente.

Lex sorriu.

"Quer saber de uma coisa? Eu sempre como doce antes de dormir. Vai ver, isso fez alguma diferença."

"Você acha que higiene bucal é brincadeira?" gritou o dentista, sacando seu Pistola de Placa e disparando um jato de água altamente pressurizado contra Lex. Mas era exatamente isso que Lex queria. Ele queria lutar. Queria se aprimorar. E, mais importante, queria entender de onde vinha aquele dentista, e por que ele apareceu agora. Lex tinha certeza de que descobrir isso seria a chave para encontrar uma forma de entrar na colina branca. Seus instintos não lhe davam dúvidas.

Lex ativou seu Domínio, e usou sua maior força ao empunhar Naraka, aproveitando duas de suas habilidades que transcendessem o reino terrestre, entrando no reino celestial. Se dois não fossem suficiente, ele usaria três. Se três não fossem o bastante, usaria quatro.

Se seus recursos acabassem, ele simplesmente forçaria sua entrada para detectar leis mais profundas — aquelas que ainda lhe escapavam. Não havia chance de, nem aqui nem em Abaddon, deixar outro dentista tentar colocar aparelho em sua boca. Ele simplesmente não deixaria.

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