
Capítulo 1600
O Estalajadeiro
Lex observava o céu que tinha abandonado seu tom profundo e avermelhado habitual por algo bem menos sinistro, porém de alguma forma muito mais inquietante. Um amarelo cegante e horrível que se espalhava pelos céus como uma ferida supurando enxofre. Pulsava, não com vida, mas com fome. Fome — esse era um tema que nunca mudava em Abaddon, mesmo que o próprio céu já tivesse se transformado.
Um grito silencioso rasgou o ar. Não ecoou, pois não tinha origem — apenas presença. Então, o céu se partiu, liberando ainda mais luz sobre Abaddon. As rachaduras não vinham acompanhadas de trovões ensurdecedores. Em vez disso, um lamento profundo, daquele tipo que apertaria o coração de qualquer um que o ouvisse, ecoava por toda a terra cada vez que a rachadura se espalhava.
Era como se as próprias terras estivessem chorando pelo aparecimento das rachaduras, mas isso não podia ser. Essas terras abomináveis, certamente, não chorariam por algo horrendo — não. Elas, na verdade, berrariam de alegria. Então, esse lamento deveria pertencer ao próprio universo, enquanto algo precioso a ele era roubado de dentro.
De cima de sua torre, Lex conseguia sentir tudo isso. A Rejeição Universal se infiltrava por todas as fissuras de Abaddon, como se esses territórios fossem indesejados neste universo. Mas, seja bem-vindo ou não, pouco importava. Essas terras estavam aqui, e não iriam sair do lugar.
Então, as rachaduras finalmente se romperam completamente, revelando algo que não era um buraco aberto — como se esperaria. Em vez disso, parecia uma porta perfeitamente construída. De dentro dela, saíam almas.
Centenas de trilhões. Infinitas. Incontáveis. Não apenas flutuando, mas sendo vomitadas — arrancadas de qualquer void ou santuário sem nome ao qual pertenciam, arremessadas na terra abaixo como água de uma represa que se rompeu.
Para os olhos de Lex, as almas eram claramente visíveis, e ele sentiu um frio na espinha ao ver a enxurrada de almas caindo. A cada segundo, trilhões de almas caíam em Abaddon, todas enfraquecidas, assustadas ou simplesmente delirando. Se havia algum consolo — se isso pode ser chamado de consolo — era que as almas estavam enegrecidas por um karma profundo, indicando os imensos pecados que tinham cometido.
Eram aquelas almas que se espera ver indo para o inferno — o tipo mencionado na Terra antes da guerra, onde pessoas perversas eram punidas.
Porém, a punição que esses pecadores recebiam não era fogo infernal. Era, de alguma forma, algo muito pior.
Pois, com a chegada dessas almas, elas também traziam algo mais.
Não com pés ou asas ou forma. Mas com presença. A terra se moveu como se o peso de titãs invisíveis tivesse despertado. Velhas e malevolentes inteligências — forças sem nomes, apenas fome — começaram a se agitar. Energia espiritual distorcia, torcia, recuava enquanto elas se convergiam, cada uma tentando agarrar a essência das almas que caíam, devorá-las, torná-las suas.
A magnitude de suas auras era tamanha que Lex não conseguia avaliá-las de jeito nenhum. Certamente, elas não eram do Dao, pois sentir isso seria suficiente para paralisar Lex completamente. Ainda assim, elas tinham um poder que até Imortais Celestiais deveriam achar incompreensível.
Montanhas racharam sem serem tocadas. Oceanos rugiam sob céus ainda e quietos. Sombras alongaram, torceram-se e então se libertaram das coisas que antes as projetavam.
Em qualquer outro lugar, Lex pensaria que a terra estava sofrendo. Mas ele sabia que não. Abaddon não sofria com destruição. Não, ela se contorcia de alegria enquanto as almas fluíam e o carnage que se seguiu acontecia.
O ar ficou impossivelmente silencioso — carregado de medo e poder — como se a própria terra prendesse a respiração. As almas continuavam a chover, como uma praga, e as forças lutavam, sem som ou forma — colidindo em batalhas invisíveis tão ferozes que as leis de Abaddon próprios pareciam ondular, como se a existência estivesse se esforçando para conter tudo o que foi liberado.
Por baixo de tudo isso, Lex permanecia — pequeno, imóvel, apenas observando. Apenas… ali. Por mais que sentisse ter poder quando liberou seu Dom há dias, naquele momento ele sabia que era completamente, pateticamente fraco diante dos horrores reais de Abaddon.
Enquanto assistia em silêncio, perdido em pensamentos e reflexões, uma alma passou por seu rosto como uma brisa de tristeza esquecida. Ele não fazia ideia de como ela conseguiu passar pelas defesas do castelo, nem como apareceu daquele jeito ao seu lado. Tudo que ele sabia era que, de onde quer que essa alma fosse, ela tinha morrido.
Era um pensamento estranho e aleatório. Ele deveria estar pensando em como se afastar daquela alma, ou como expulsá-la do castelo. Mas, na verdade, não havia necessidade. Para as forças que lutavam por essas almas, as barreiras do castelo não eram obstáculos.
Contanto que ele não se movesse ativamente para pegar uma alma, não estaria na disputa, e eles o ignorariam.
Como esperava, logo a alma mutilada desapareceu, sugada por alguma entidade desconhecida.
Lex não pôde deixar de pensar em como o Cálice do Abandonado provavelmente era uma das forças sugando as almas do céu. Como eles poderiam controlar isso? Como poderiam recuperar uma única alma de algo assim?
Ele não sabia. A única coisa que Lex tinha certeza naquele momento era que Abaddon realmente era uma terra abandonada por este universo.
Cada existência lutando por almas estava recebendo uma quantidade imensa de Rejeição Universal, mas Abaddon em si estava protegendo-as, acolhendo-as.
Parecia que Abaddon era um parasita do universo, ao mesmo tempo em que servia de refúgio para incontáveis outros parasitas. Se deixasse crescer… se fosse permitido continuar, um dia poderia ameaçar todo o universo.
De repente, Lex recebeu mais uma notificação do sistema, mas naquele momento, ele não tinha ânimo para conferir. Em vez disso, quietamente assistiu ao banquete de almas acima dele, gravando tudo profundamente na memória.