O Estalajadeiro

Capítulo 1592

O Estalajadeiro

"Uma jangada é realmente suficiente," disse o mercenário velado de impotência ao ver Lex colocando esforço e energia desnecessários na construção da embarcação que usariam para atravessar o líquido.

"Você realmente não precisa fazer tudo isso."

"Confia em mim, mano," respondeu Lex enquanto modelava a madeira sob os braços como se fosse argila. "De onde eu venho, tudo gira em torno das arcas. Você vai salvar uma galera e cruzar uma massa de água? Então tem que usar uma arca, é o que faz sentido. É como abrir mão de uma boa sorte grátis se não fizer isso."

"Sorte é apenas uma consequência da Lei do Karma, e não tenho certeza se tem algo a ver com o design da embarcação," resmungou relutantemente o mercenário.

"Não se preocupa. Quem está fazendo mais esforço sou eu, então por que você está tão estressado?" perguntou Lex.

Enquanto passava a mão sobre a madeira, moldando-a na estrutura externa da arca, também impregnou nela várias técnicas, preparando-a para o resultado final.

Seriam duas arcas, uma para os mercenários e outra para a taverna, e para garantir eficiência, ambas teriam o mesmo desenho e funcionalidade.

Depois de quase fritar o cérebro, era bom trabalhar com as mãos e fazer algo simples, como projetar uma embarcação que teria que enfrentar os elementos, os gafanhotos e qualquer coisa que Abaddon lançasse, e sobreviver tempo suficiente para atravessar a massa de líquido alucinógeno roxo.

Como descobriu, temperaturas elevadas evaporavam os vapores do líquido antes mesmo de atingir o ar, então a melhor proteção seria uma barreira aquecida separando o interior do exterior da embarcação, mantendo todos seguros.

Claro, a embarcação também teria que suportar ataques de gafanhotos, portanto não podia ser frágil. Seria ideal que permitisse aos que nela estivessem lutar facilmente, se necessário.

Com essa ideia, Lex rapidamente desenhou e construiu duas arcas usando a madeira das árvores da ilha onde estavam. Não levou quase tanto tempo quanto os mercenários imaginavam, principalmente porque Lex tinha bastante habilidade em transformar materiais relativamente simples em objetos úteis com materiais de alto valor.

De fato, se alguém mais habilidoso fizesse a mesma coisa, conseguiria extrair mais dos mesmos materiais do que Lex. Mas sua própria destreza era suficiente para ninguém reclamar.

Com as embarcações prontas, todos assumiram suas posições, e Lex finalmente desativou o castelo. A estrutura encolheu até assumir a forma de uma esfera de neve, deixando todos expostos novamente.

Os mercenários estavam mais do que preparados para enfrentar os exércitos de gafanhotos à frente, mas os do Inn precisavam ser mais estratégicos. Originalmente, Lex havia planejado que todos usassem a formação de batalhão que permitia se transformar em um mecha.

Porém, como eles iriam imediatamente entrar na arca, que precisariam controlar de qualquer forma, aquilo se tornou inviável. Então, por ora, os mais fracos e vulneráveis ficariam no centro, com o restante ao redor, protegendo-os.

Na verdade, Fenrir até usou sua habilidade nos trabalhadores mais frágeis para torná-los menos visíveis. O problema é que a habilidade de Fenrir é mais eficaz em indivíduos do que em grupos, então quanto maior o grupo, menor a eficiência.

No contexto, o melhor que podia fazer era diminuir a chance de serem alvo.

Antes que o castelo fosse retraído, todos já estavam em posição, e assim que ele desapareceu, os dois grupos começaram a se mover. Cortaram os exércitos de gafanhotos, focando mais em empurrá-los de lado e avançar do que em matá-los.

O Inn também tinha membros capazes de causar um estrago total, mas fazer isso seria um desperdício de energia. Já tinha sido decidido que seguiriam a maneira mais eficiente de se mover, dividindo o trabalho entre o grupo e fazendo só o estritamente necessário. Matar mais um gafanhoto não ajudaria em nada, então todos se seguraram.

Z, junto de Leonidas, liderou o Inn através dos gafanhotos, seguindo de perto os mercenários. Não levou nem dois minutos para alcançarem a massa de líquido roxo, e as duas tropas convocaram suas arcas e embarcaram rapidamente.

As arcas não flutuavam no água propriamente dita, apenas pairavam sobre o líquido. Isso não impediu que os gafanhotos dentro dele entrassem em frenesi, atacando-as com loucura.

Porém, a equipe do Inn, mesmo os mais fracos, mostrou-se extremamente profissional e não demonstrou medo algum. Logo espalharam-se pela arca, ativando suas numerosas formações, que dependiam de várias pessoas para operar.

A primeira ofensiva dos gafanhotos foi imediatamente repelida, e os vapores do líquido roxo pareciam não afetá-los de jeito nenhum.

"Viu, o que eu te falei," gritou Lex para a outra arca, com um sorriso largo no rosto. "Usar uma arca é sinal de boa sorte!"

Antes que pudesse receber uma resposta, porém, um trovão sacudiu o próprio céu, como se fosse um sinal de justiça divina. Os céus vermelhos e claros de Abaddon pareciam quase instantaneamente cobertos por nuvens negras com ferozes criaturas de relâmpagos voando por elas, tudo encarando as arcas.

Os gafanhotos também, como se fossem estimulados pelo clima, retomaram seu ataque às embarcações, famintos por suas almas.

Lex sentiu-se como se estivesse sendo atacado pessoalmente. Não era uma reclamação — era sua habilidade. Ele via que Abaddon o tinha como alvo especificamente por razões que ainda desconhecia.

Antes que pudesse tirar uma conclusão adequada, começou uma tempestade.

Tudo começou com uma única gota de chuva — uma gota insignificante, caindo sozinha nos vastos céus. Mas o que veio em seguida não foi mais água. Era granizo, todo ele fervilhando de uma fome diabólica, como se o próprio granizo quisesse suas almas.

Ah, e o granizo tinha o tamanho de um Land Cruiser — ou melhor, 48.344 hambúrgueres!

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