
Capítulo 1560
O Estalajadeiro
A primeira coisa que Lex percebeu foi o céu vermelho, nublado e enevoado, cheio de nuvens de poeira negra. Era impossível saber de onde vinha a luz vermelha, pois sua fonte estava bloqueada pelas nuvens, mas ela se espalhava por toda a terra, tingindo tudo de um tom de rubi.
A segunda coisa que Lex notou foram as abominações. Assim como o céu estava coberto de poeira, o chão também se enchia de criaturas horrendas, frutos de pesadelos e pensamentos malévolos, que ganhavam vida. Nenhuma delas tinha a mesma estrutura corporal; algumas eram feitas de ossos, outras de rochas e terra.
Em algumas regiões aleatórias, exibiam suas vísceras expostas, pulsando com sangue vermelho espesso, com um cheiro forte, mesmo sem escorrer de seus corpos. Em outros pontos, tinham membros aleatórios—garras ou asas, ou até extensões semelhantes a foices, tudo com o objetivo de dizimar.
As gafanhotos, pois uma massa tão enorme dentro de Abaddon só poderia ser isso, não tinham almas—pelo menos, até onde Lex podia perceber. Em vez disso, o único que habitava seus corpos vivos era uma sede insaciável pelas próprias almas que lhes faltavam.
Um olhar foi suficiente para Lex perceber que a existência deles escapava às normas do universo. Afinal, dentro do universo, todo ser vivo tinha uma alma. Até mesmo as IAs desenvolveram almas ao cruzar a fronteira de um código sem vida para algo verdadeiramente vivo.
Mas essas criaturas, que pareciam bastante vivas, não possuíam almas. Logo, Lex só podia concluir que, ao invés de seres realmente vivos, eram máquinas semi-orgânicas com uma missão muito específica.
No entanto, a fome bárbara evidente em seus olhos—pelo menos naqueles que tinham olhos—os fazia parecer uma obscenidade ancestral e retorcida.
Em um instante, Lex captou toda a situação ao seu redor e percebeu que estavam dentro de um cânion de alguma espécie. Uma torrente negra, tóxica, de lama parecida com um rio fluía em grande fluxo, serpenteando pela base do cânion, formando barreiras naturais contra os gafanhotos que, apesar de formidáveis por si só, evitavam a correnteza negra.
Em uma das curvas do rio, Lex viu um exército entrincheirado numa fortaleza temporária, formada por uma formação móvel. Havia algumas milhares de soldados imortais resistindo à enxurrada de gafanhotos que os cercava completamente, mas quanto tempo poderiam manter aquela situação era uma incógnita.
Havia uma lethargia em suas ações, como se o cansaço os dominasse e não conseguissem se livrar dele. Seus ânimos estavam esgotados, sua agilidade atrofiada, e a velocidade bastante reduzida. De fato, era evidente que eles não estavam apenas exaustos, mas também feridos. Se não fosse pela formação que os protegiam, talvez já tivessem morrido.
Lex observou de longe e julgou que o comando daquele exército era de um Leão de Magma, mas até ele parecia estar perdendo fogo. Precisavam de ajuda urgente, o que provavelmente explicava a pressa de seu próprio objetivo.
O grupo do Inn da Meia-noite também não tinha muito tempo, pois os gafanhotos já haviam notado sua chegada, e enxames semelhantes já corriam em direção a eles.
— Z, você quer assumir a liderança nisso? — perguntou Lex, enquanto examinava os gafanhotos. Cada um deles estava no auge do reino imortal da Terra, possuindo poderes estranhos, dos quais Lex nunca tinha sentido antes. Qualquer um deles seria um adversário formidável, sem falar em um exército quase infinito. Ainda assim, Lex permanecia tranquilo.
Se havia uma coisa na qual Lex tinha confiança absoluta, era na sua defesa e na sua habilidade de se proteger.
— Não seria melhor o Leonidus assumir a liderança? Ou o Luthor? — perguntou hesitante Z, olhando para os dois ao lado deles.
— Eles conseguem lidar com isso, claro. Mas essa é uma ótima oportunidade de aprendizado para você. É bom experimentar na prática, em uma situação real.
Fenrir, que acompanhava o grupo, latiu como se estivesse concordando com Lex.
— Tá, acho que posso tentar cuidar disso. O que temos que fazer? — perguntou.
— Eu vou levar a gente até eles, — respondeu Lex, apontando para o exército de mercenários, ignorando a maré de monstros que se aproximava. — Quando chegarmos, vamos deployar a Taverna Castelo. A partir daí, vocês só precisam proteger a taverna e impedir que qualquer gafanhoto entre. Não é tão simples quanto parece?
O exército de gafanhotos estava quase sobre eles, mas ninguém do grupo parecia dar atenção ou se preparar para enfrentá-los. De tão perto, o cheiro forte de sangue deles se espalhava, penetrando nos corpos de todos, tentando envenená-los.
— Acho que isso parece simples o suficiente, — disse Z.
— Perfeito, — falou Lex. — Vamos lá.
Lex espalhou sua energia por todo o grupo e, de repente, eles se teleportaram minutos antes de a massa de gafanhotos chegar até eles.
Reapareceram na formação protetora do exército de mercenários, desconsiderando a barreira que os mantinha vivo, como se ela não existisse, assustando os soldados. Muitos, por instinto, atacaram o grupo, mas Lex apenas levantou a mão para frente e todos os ataques pararam, como se o espaço ao redor tivesse congelado.
— Bem-vindos, convidados do grupo de mercenários Reaving Dread, — disse Lex em voz calma e agradável, como se não estivessem dentro de um abismo infernal. — Somos do Inn da Meia-noite, onde hóspedes vêm descansar e relaxar de todo o universo. Mas, quando certos convidados não conseguem chegar ao nosso Inn, levamos a Taverna da Meia-noite até eles. É um prazer recebê-los em nossa humilde morada.
Lex lançou um globo de neve que se quebrou imediatamente ao tocar o chão, transformando-se em um castelo enorme, com paredes de cerca de cem metros de altura. A visão deslumbrante de um castelo feito de escamas de dragão deixou os mercenários exaustos boquiabertos, e parecia até assustar os gafanhotos também.
Mas não, aquilo era apenas o efeito de supressão do castelo, que seria quente e acolhedor para seus hóspedes, e uma boca voraz de inferno para quem ousasse desafiar sua força.