
Capítulo 849
O Estalajadeiro
O filhote de dragão que entregou a carta ficou bem afastado, para não ficar sob a influência do envelope e da mensagem que continha. Como meio dragão, ele sempre foi extremamente orgulhoso. Além disso, era excepcionalmente forte também. Podia tentar invadir o reino dos imortais da Terra sempre que quisesse, mas reprimia esse crescimento.
Trabalhando para a aliança, esperava acumular créditos suficientes para que ela ajudasse na transição de meio dragão para dragão completo. Nesse momento, naturalmente, ele romperia sua faixa de poder, ficando muito mais forte do que se chegasse ao reino imortal de forma convencional.
Depois de servir em diversos campos de batalha e conquistar inúmeras honrarias, estava extremamente próximo do seu objetivo, razão que o tinha levado a ser retirado do front.
Seu serviço bem-sucedido só aumentava seu orgulho, mas, ironicamente, era ali, no que parecia ser um quartel-general seguro, que sua vaidade tinha sido completamente destruída. Ainda não tinha se recuperado do susto, e decidiu afastar-se da carta e do que ela pudesse dizer. Ao olhar para seu superior suando, de repente, teve a sensação de que tinha tomado uma decisão sábia.
O elfo em questão passava por um verdadeiro apocalipse pessoal. Relâmpagos iluminavam o céu, trovões retumbavam, o chão estalava, tsunamis gigantescos, capazes de obscurecer o sol, se aproximavam do horizonte. Tudo isso, é claro, só acontecia em sua mente. Porém, isso não mudava o fato de o elfo sentir-se como se fosse alvo de todas aquelas calamidades.
Ele conseguia sentir uma raiva capaz de destruir os céus irradiando das palavras na sua carta e, embora o elfo não fosse o alvo dessa ira, de alguma forma, ele também tinha se tornado vítima dela.
Uma suave campainha familiar soou no escritório, e o elfo finalmente foi libertado das garras da carta, suas mãos tremulas deixando o papel cair. Ele não teve coragem de olhar novamente para ela, mas, por reflexo, atendeu a ligação que tocava.
"Zar, você recebeu alguma autorização de partida para alguém do 'Estalagem da Meia-Noite'?" perguntou a pessoa do outro lado da linha, indo direto ao ponto.
Embora o envelope tivesse caído, aquelas palavras soaram como trovão nos ouvidos do elfo!
"Sim, SIM, DEIXE-OS IR!" ele gritou, antes de desligar o telefone. Não sabia se havia gritado de medo, raiva ou vergonha.
Com as pernas tremendo, ele se levantou e lançou um olhar incrivelmente carrancudo para o filhote de dragão, antes de sair do cômodo. Essa questão era longe de sua alçada. Ele precisava reportar ao topo.
No comando, Lex mantinha contato visual com o oficial enquanto fazia uma chamada. Quando a resposta cheia de gritaria veio, audível para todos na ponte, Lex não sorriu nem se vangloriou. Simplesmente manteve o contato visual, aguardando a aprovação de partida.
Um calafrio percorreu a espinha do oficial ao lembrar-se da vontade anterior de responder à atitude displicente de Lex. Como ele disse, talvez realmente não tivesse autoridade para investigar os assuntos de Lex. Mas, se fosse assim, por que ele não estava sendo escoltado devidamente, com todas as autorizações pré-aprovadas? Era o procedimento padrão nesses casos. Mas isso não importava.
"Que tipo de embarcação vocês têm? Não posso gerar o documento de aprovação sem saber, pelo menos, as especificações do navio."
Sem esperar uma orientação, Cirk deu um passo à frente e começou a listar apenas os detalhes relevantes do Silencioso Andarilho. O oficial achou um pouco estranho, pois a descrição do navio claramente não era de um equipado para combate. Contudo, fazia sentido considerando a missão deles, que exigia furtividade e velocidade.
O oficial retornou o olhar a Bearlin e falou: "Leve-os até o cais de embarque. Faça-os trazer o barco até lá e subir a bordo. Eu farei as alterações na sequência de decolagem daqui."
Pobre Bearlin, que tinha sofrido a influência da Dominação por mais tempo, não conseguiu um respiro e continuou liderando Lex e Cirk. Lex assentiu para o oficial antes de seguir o guia.
Felizmente, nada escalou, e eles passaram pelo último obstáculo sem problemas. Mas havia uma questão: quem quer que estivesse mirando na companhia logo descobriria — se ainda não tinha descoberto — que a ajuda estava chegando.
Ele abriu o painel do batalhão e falou com Luthor.
"O inimigo provavelmente sabe que a ajuda está a caminho. Prepare-se adequadamente."
Mais uma vez, isso era arriscado, pois, se o inimigo ficava desesperado demais, poderia acabar fazendo algo que colocasse todos em risco. Lex confiava na hipótese de que o adversário, quem quer que fosse, não tinha força suficiente, por algum motivo. Afinal, o batalhão era composto apenas por soldados do reino da Fundação.
Juntos, eles não eram frágeis, mas também não podiam se considerar invencíveis. Havia muitas maneiras de enfrentá-los, se alguém realmente quisesse. E o fato de ainda não terem feito isso alimentava a desconfiança de Lex de que tudo aquilo era uma armadilha.
Enquanto refletia sobre essas questões, chegaram ao cais de embarque e Lex liberou o Silencioso Andarilho de sua caixa dimensional.
A aparição repentina de uma nave chamou atenção de alguns funcionários próximos, mas, em um lugar como aquele, acontecimentos incomuns eram mais o norma do que a exceção.
Com o uso de algumas máquinas pesadas, a nave foi sendo carregada corretamente na plataforma, que a levaria até a formação de decolagem. Tudo parecia seguir o procedimento padrão, e tudo ia conforme o planejado, quando Lex percebeu uma aura poderosa se aproximando!
"Ei! Ei! Vocês, idiotas, que estão atrasando o lançamento de todos? Que diabo dá a vocês o direito de parar todas as outras naves, hein? Nós também temos urgência!"
Lex virou e viu um anão do reino imortal se aproximando. Ele parecia claramente furioso por sua partida estar sendo atrasada para acomodar Lex.
"Nem parece que você não quis fazer cena," murmurou Lex. Então, ele liberou sua aura e seu plano de contingência.