O Estalajadeiro

Capítulo 753

O Estalajadeiro

O planeta era, como o próprio nome sugeria sutileza, de uma frieza cortejante. A temperatura mais quente que havia experienciado até então era de -10°C (14°F), e a média de temperatura era bem mais baixa que isso.

Lex já estava muito além do ponto em que temperaturas assim podiam afetá-lo, mas como se tratava de um planeta de 3 estrelas, até o frio carregava uma pitada de espiritualidade que, de certa forma, fazia Lex sentir que aquele era o clima perfeito para uma soneca aconchegante, enrolado em um cobertor confortável.

Porém, o que mais surpreendia Lex era o fato de que, para um planeta supostamente de 3 estrelas, a energia espiritual ali parecia surpreendentemente diluída. Comparado à Terra, havia muito mais, é claro, mas ainda assim abaixo do que se encontrava nas Inn (índices de classificação planetária). Talvez a classificação por estrelas envolvesse mais do que apenas a concentração de energia espiritual. Talvez fosse influenciada pelos diversos minérios preciosos presentes no planeta.

Outra coisa surpreendente — embora não tão óbvia à primeira vista — era a ausência de neve, mesmo num planeta tão frio. Isso era estranho. Fazia sentido se não houvesse água por lá, e os seres vivos locais tivessem evoluído sem depender dela, mas ao atravessar o campo… hã, eles tinham mesmo países neste planeta? Então isso seria mais parecido com uma civilização com áreas específicas? Enfim.

Sem deixar que pensamentos aleatórios o distraissem, ele voltou sua atenção para o fato de que, ao cruzar o terreno vazio e desabitado em direção ao castelo onde residia o Senhor Dragão, percebeu várias fumarolas de vapor, e até algumas fontes termais escondidas em cavernas que passava.

Havia uma quantidade surpreendente de flora, com raízes que se aprofundavam além do limite de seu sentido espiritual. Devem ter se adaptado de alguma forma para impedir que a água dentro delas congelasse. Algumas até emitiam uma luz azul suave, sendo a única fonte de luz que Lex havia visto até ali.

De tempos em tempos, Lex avistava outras vilas ou até pequenas cidades, mas conseguia evitá-las, embora fosse cada vez mais fácil detectar a crescente hostilidade mesmo de longe. Ele evitava as estradas principais, preferindo permanecer escondido. Já tinha enfrentado uma tentativa de assassinato e os habitantes locais não estavam exatamente amigáveis com estrangeiros no momento, então não faria amigos se fosse visto.

Como não tinha pressa, não se importou de levar quase dois dias para chegar perto do castelo, e isso também aconteceu só porque pousou relativamente perto dele. Não foi porque o castelo apareceu no horizonte que Lex soube que estava próximo, mas por causa de uma sensação de pressão sutil que sentiu, como um peso que o puxava para baixo.

Ele já tinha lido sobre isso também, e sabia exatamente do que se tratava, mesmo sem ter experiência prévia. Era o Poder do Dragão! Embora, ao pesquisar, tivesse aprendido exatamente o que essa aura representava. Dragões eram uma raça com um nível muito alto na hierarquia natural da existência no universo.

Essa era a mesma hierarquia que se elevava toda vez que um cultivador rompesse um obstáculo, mas o ponto de partida dos dragões era tão alto que, mesmo um humano atingindo o reino do Imortal Celestial, seu nível ainda poderia ficar abaixo do de um dragão.

Foi enquanto pesquisava sobre esse planeta em particular e estudava os dragões que Lex aprendeu mais sobre essa hierarquia, oficialmente chamada de Espectro da Ascensão Cósmica.

O Espectro da Ascensão Cósmica é uma lista compilada manualmente que indica a hierarquia usual com que uma raça nasce, e sua importância também é explicada de forma similar. Quanto mais alto na lista, mais benefícios a raça consegue obter do próprio universo e maior capacidade de manipular formas superiores de energia espiritual.

Por exemplo, os dragões nascem no reino do Imortal da Terra, exalam uma aura terrível e opressiva conhecida como Poder do Dragão, e possuem uma afinidade inata que lhes permite descobrir tesouros valiosos. Isso os coloca numa posição muito elevada na lista. Em comparação, os humanos não possuem vantagens inatas além de sua capacidade de aprender e se adaptar, além de corpos fracos e frágeis.

Isso porque estão em um nível muito baixo na mesma lista.

Assim, mesmo que um humano atinja o nível de Imortal Terra e confrontasse um dragão recém-nascido, estaria em desvantagem ou enfrentaria grandes dificuldades, pois mesmo dentro do mesmo reino, eles não estão no mesmo nível. Isso, é claro, não quer dizer que humanos não possam superar essa dificuldade e vencer o dragão, apenas que há uma vantagem inegável para os dragões, que eles sempre terão.

Esse também era um dos motivos pelo qual Jotun fazia o máximo para evitar um confronto direto com os demônios.

A única coisa feliz é que seres podem elevar esse nível, não só por cultivo, mas também por outros meios, ainda que esses sejam difíceis de rastrear. A técnica de cultivo de Lex acabou se revelando uma dessas formas.

Assim, quando Lex finalmente percebeu a presença do Poder do Dragão, ele não sentiu o medo ou a opressão que normalmente essa aura trazia. Em vez disso, viu aquilo apenas como um desafio interessante.

Quanto mais perto do castelo, mais intensas ficavam as manifestações do Poder do Dragão, embora ainda fossem administráveis para Lex e Fenrir. Mas isso significava que o dragão estava vivo? Ou dragões mortos também poderiam exalar essa aura?

O motivo de Lex se questionar isso era… quanto mais se aproximava do castelo, mais assassinos escondidos detectava com seu sentido espiritual. Eles nunca o viam, e ele nunca os via, mas podia perceber que todos estavam indo na mesma direção. Se o dragão estivesse realmente vivo, esses assassinos teriam coragem de ir e enfrentar bem diante de sua presença?

Ou eles eram treinados tão bem que não se importavam com a própria vida? Além disso, quem os estava enviando, qual seria o propósito? Como a jornada era longa demais, Lex se deixou divagar assim.

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